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ENTREVISTA: Pedro Vasconcelos

Saúde

Pedro Vasconcelos

'Zika ainda é um quebra-cabeça desmontado'

Segundo o diretor do Instituto Evandro Chagas, o vírus pode ser elo entre dengue e encefalite

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Giovana Girardi

27 Fevereiro 2016 | 03h00

“As pesquisas com zika estão cada vez mais trazendo novas peças para montarmos o quebra-cabeças que representa o vírus, mas basicamente ele ainda é um quebra-cabeças desmontado.” Assim o virologista Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas e único pesquisador brasileiro membro do comitê de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS), descreveu o status atual do conhecimento sobre o vírus. Em entrevista ao Estado, ele explicou os últimos avanços e as lacunas que ainda restam para entender a doença que está assustando o mundo inteiro por sua possível relação com microcefalia em bebês.

Na semana passada o sequenciamento do genoma do vírus que circula no Brasil mostrou proximidade genética com o vírus da encefalite japonesa. Considerando que este vírus age na cabeça, isso pode ajudar a entender a possível relação do zika com microcefalia nos fetos ou outras doenças neurológicas?

Quando olhamos a árvore filogenética dos flavivírus, temos na base aqueles para os quais não se conhece nenhum invertebrado como vetor. Depois vêm os vírus transmitidos por carrapato. E em seguida os transmitidos por mosquito. Neste clave temos dois grupos principais: os transmitidos principalmente por Aedes e os transmitidos principalmente por Culex. O zika está posicionado mais ou menos entre os dois grupos. É uma espécie de elo. Em geral, os vírus transmitidos por Aedes causam febre hemorrágica. Temos aí dengue e febre amarela como exemplos. E de modo geral os transmitidos por Culex causam encefalite, como o vírus da encefalite japonesa, o rocio e a encefalite de Saint Louis. O zika é mais ou menos intermediário, flutuando entre os dois grupos. Isso bate com o que temos observado clinicamente até agora. Ele causa um problema tipo dengue, mas também um problema tipo encefalite no feto. É um vírus bastante curioso.

Isso significa que o zika pode vir a ser transmitido por Culex (o pernilongo comum), também?

Pode. Não é uma coisa exclusiva. Pode ser transmitido pelo Culex ou por outros mosquitos próximos ao Culex, como anófeles (que transmite a malária), psorophora. Assim como por outros mosquitos próximos ao Aedes. Há uma certa promiscuidade.

Essa relação pode significar uma capacidade do zika de causar encefalites em adultos?

Com certeza, ele pode causar. A diferença é que nas pessoas saudáveis, com a imunidade boa e sem nenhuma suscetibilidade genética, é capaz que o vírus não cause nada. Mas temos descrição de um caso que estamos submetendo à publicação, sobre a primeira pessoa que morreu com zika, no Maranhão. A pessoa morreu com uma encefalite brutal causada pelo zika. Mas também tinha lúpus, artrite reumatoide e tomava corticosteroide, três condições que baixam a imunidade. Talvez nessas condições o zika adquira uma capacidade maior. Obviamente que para todas as doenças infecciosas em geral, o paciente tem de ter suscetibilidade genética (para desenvolver um quadro mais grave). O que significa que não é todo mundo que tem lúpus ou artrite reumatoide ou toma corticosteroides que vai desenvolver encefalite (se for infectado por zika). Mas algumas pessoas que têm essas condições e mais a suscetibilidade genética podem desenvolver essa forma grave de encefalite. 

O senhor acha que isso pode ocorrer também nos casos de microcefalia? Só há problema quando há outra condição?

Ainda é cedo para dizer isso, não temos base científica. Acredito que devam ter casos em que mães se infectaram e os filhos não desenvolveram nenhum problema. Pelo que os estudos estão mostrando, a microcefalia e as más-formações congênitas parecem estar muito vinculadas ao tempo de gestação em que ocorre a infecção na mãe. Se é no primeiro trimestre de gravidez, parece que temos os casos mais severos de microcefalia e ocorrem também com mais frequência os abortos e os natimortos. No segundo trimestre, há uma indicação de que pode ocorrer uma microcefalia de menor gravidade, e alterações auditivas, cardíacas e visuais. No terceiro trimestre, ainda estamos carentes de informações. Mas tudo isso é muito observacional, ainda não é um achado científico bem apurado.

Desde que a emergência mundial foi decretada, dezenas de estudos vem sendo publicados sobre o zika. Já entendemos o vírus melhor do que quando os casos de microcefalia começaram a surgir?

Ainda é muito precoce dizer isso. As informações que estão surgindo estão muito fragmentadas. Precisamos de estudos de longo prazo para entender melhor a patogenia, a epidemiologia, a biologia do vírus. Fazer acompanhamento de coorte de gestantes que se infectaram e comparar com coorte de mulheres que não se infectaram. Toda a informação hoje é importante e vai ser uma peça a mais para montar o quebra-cabeça que representa o zika. Mas só ao longo do tempo, talvez em um ano ou dois, com muita informação disponível, que alguns estudos de revisão poderão abordar tudo o que foi produzido e dar uma ideia mais ampla e concatenada do que representa o zika. Mas eu não tenho dúvida de que a microcefalia que estamos observando no Brasil é prioritariamente causada pelo zika. Provavelmente deve ter outras causas que precisam ser investigadas, mas na maioria desses casos há um vínculo epidemiológico muito forte. Mas precisa de mais estudos bem conduzidos para tentar esclarecer esse aspecto da patogenia da doença. O zika ainda é um quebra-cabeças desmontado.

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