Zika e sexo oral

O relato de um possível caso de zika transmitido por sexo oral pegou pesquisadores de surpresa na semana passada. Um homem de 46 anos, que esteve no Rio e apresentou febre, dor de cabeça e manchas na pele antes de voltar para a França, pode ter infectado sua parceira, que não havia deixado aquele país.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2016 | 03h02

Segundo os especialistas, em carta publicada no periódico New England Journal of Medicine, uma mulher de 24 anos teria desenvolvido sintomas da doença dez dias após seu namorado ter voltado do Brasil. Os dois fizeram sexo vaginal sete vezes no período, mas o homem só teria ejaculado no sexo oral – o casal estava evitando uma gestação.

A mulher nunca viajou para países em que há ameaça de zika por picadas de mosquito e não recebeu transfusão de sangue, duas das formas possíveis de transmissão. Depois de ela ficar doente, os dois foram testados e o resultado deu positivo. Na mulher, o vírus foi encontrado na urina e na saliva, mas não na vagina. No homem, o vírus apareceu no sêmen e na saliva. A transmissão sexual, embora mais incomum, passou a ganhar destaque nos últimos meses, com casos registrados em pelo menos dez países em que não há presença do Aedes aegypti.

Segundo o artigo divulgado pelo jornal Daily Mail, para os cientistas do Instituto Francês de Saúde e Pesquisa Médica, apesar de a maior suspeita recair sobre o sêmen no contato oral, não é possível descartar totalmente a hipótese de o vírus ter sido transmitido pelos líquidos pré-ejaculatórios (eliminados pelo pênis durante o sexo vaginal) ou até mesmo pela saliva.

No mês passado, especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) já haviam alertado que a transmissão sexual do zika era mais comum do que se pensava. Eles agora recomendam que mulheres que pretendem engravidar devem evitar sexo ou usar camisinha por ao menos oito semanas, após seus parceiros voltarem de áreas em que existe a doença. A recomendação anterior era que esse período fosse de quatro semanas. A mudança aconteceu depois que pesquisadores encontraram o vírus no sangue e em outros fluidos corporais por um tempo mais longo.

Se o homem tiver apresentado sintomas típicos de zika após visitar áreas em que há a doença, a recomendação de cuidados no sexo para o casal que quer engravidar se estende para seis meses. A transmissão pelo beijo continua pouco evidente, apesar de o vírus ter sido isolado na saliva. Dessa forma, cuidados que se aplicam para uma série de doenças transmitidas pelo sexo (DSTs) também poderiam ser usados, pelo menos temporariamente, para evitar zika, até mesmo a proteção no sexo oral.

Boas notícias. Por falar em DSTs, a Unaids, programa da ONU para a aids, divulgou relatório na semana passada em que aponta uma queda de 26% no número de mortes pela doença nos últimos cinco anos, em função da expansão do tratamento, principalmente na África. Apesar do avanço, mais da metade das pessoas infectadas pelo HIV continua sem acesso aos antirretrovirais. A redução das mortes foi mais importante entre as mulheres, uma vez que os homens tendem a iniciar o uso dos medicamentos mais tarde.

O número de novas infecções não variou significativamente entre 2010 e 2015, o que mostra a importância da testagem, de programas educativos, de maior uso de preservativos, de acesso aos tratamento para “zerar” a carga viral (o que reduz muito a chance de transmissão), além de estratégias como profilaxias pré e pós-exposição.

Outra pesquisa da semana passada, feita pela Universidade British Columbia, no Canadá, publicada na revista Aids Care, mostra que homens que fazem sexo com homens e que moram em cidades pequenas tendem a fazer menos testes de HIV, provavelmente pelo medo de se expor para os profissionais de saúde. Nesse sentido, o acesso a testes rápidos, feitos a distância ou comprados em farmácias, pode fazer a diferença.

* JAIRO BAUER É PSIQUIATRA

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