REUTERS/Paulo Whitaker
REUTERS/Paulo Whitaker

Zika perdeu força no Brasil, diz OMS

Entidade, porém, alerta que epidemia 'não terminou' e que uma vacina apenas estará pronta em 2020

Jamil Chade, Correspondente

01 Fevereiro 2017 | 16h19

GENEBRA - Assim como o vírus da zika chegou sem explicação aparente, ele pode estar perdendo força, também sem uma razão conhecida dos cientistas. A segunda onda de contaminações do vírus que era aguardada para o verão na América Latina não está ocorrendo com a intensidade que se temia. A constatação é da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, nesta quarta-feira, 1º, marcou o primeiro aniversário da declaração da emergência internacional e alertou que uma vacina apenas estará pronta em 2020. 

Mantendo o caráter surpreendente do vírus, o que era esperado para ocorrer a partir de dezembro de 2016 na América Latina não se concretizou com a mesma intensidade do ano passado. Os cientistas da OMS, porém, insistem que a epidemia "não terminou" e apontam que o futuro dela no Brasil é ainda "incerto". 

Ian Clarke, administrador da OMS para Zika, não escondeu que a entidade não sabe responder à questão sobre o que mudou entre o verão passado e o atual na América Latina. "A prevalência de zika está caindo, principalmente nas Américas", disse. "Não sabemos o motivo. Pensávamos que teríamos uma segunda onda e ela não ocorreu da forma que esperávamos", insistiu. 

Números da Organização Panamericana de Saúde apontaram que, entre maio de 2015 e dezembro de 2016, 707 mil casos de zika foram registrados nas Américas. Mas indicou que a incidência sofreu uma queda ao final do ano passado. Apesar de indicar que "a epidemia continua", seus documentos apontam que a previsão sobre o vírus no "médio e longo prazo" são "incertos", dado que 500 milhões de pessoas vivem em áreas onde o risco de transmissão pelo Aedes aegypti é uma realidade. 

Mas um dos termômetros do impacto ainda seria o número de casos de microcefalia no Brasil. Ao final de janeiro, essa taxa chegava a 2,3 mil casos. Em dezembro, ele era de 2,2 mil e, em outubro de 2016, chegava a 2033.  Apesar do aumento, ele é muito inferior às taxas de expansão que, em alguns meses, chegaram a ser de 450 casos no Brasil.

Ainda em outubro, a OMS indicou que o Brasil poderia esperar rapidamente superar um total de 3,1 mil casos de microcefalia, o que acabou não ocorrendo.  

Entre as teses está a possibilidade de que ela não siga o mesmo ritmo da dengue, que ocorre principalmente no verão nos países tropicais. Outra hipótese é a de que a população teria desenvolvido uma imunização natural. 

Clarke explicou que a perda de força do vírus não está sendo registrada apenas no Brasil. "Vemos isso em toda a região, inclusive na Colômbia", disse.

Se nas América a doença perde força, a OMS alerta que outras regiões do mundo têm registrados novos surtos. "A proliferação internacional continuou", disse Margaret Chan, diretora-geral da OMS. "Em grandes partes do mundo, o vírus agora está enraizado, como a dengue e chikungunya", disse. "Estamos numa viagem de longo prazo", reconheceu.

Sem citar nomes de países, a diretora fez questão de criticar governos que haviam relaxado nos últimos anos no controle de mosquitos. "Como em todos os demais surtos explosivos, o zika mostrou as falhas da preparação coletiva do mundo", disse Chan. Para ela, o acesso falho em serviços de planejamento familiar foi um dos problemas. "Desmantelar programas nacionais de controle de mosquito foi outro", atacou. 

Em Angola, a entidade examina o registro nesta semana de dois casos de microcefalia e, agora, quer saber se um número maior da população foi atingida. Vietnã e Cingapura também estão no radar. "Hoje, temos registros de casos em 76 países e nossa tese é de que o vírus vai circular por onde ele ainda não está hoje", disse Clarke. "O zika não desapareceu e a nossa mensagem é de que países precisam de sistemas de monitoramento. O desafio será o de manter a atenção", afirmou. 

Invisível. Uma das preocupações dos cientistas é com relação às "consequências invisíveis" do vírus. A OMS insiste que a microcefalia não é a única complicação e o temor é de que a síndrome pode ser mais ampla. Estudos têm mostrado uma série de riscos de anomalias nas crianças contaminadas, com eventuais impactos para o aprendizado futuro desses menores. "Existe a possibilidade de que tenhamos outras complicações que não eram visíveis no nascimento dessas crianças", indicou Clarke.

Para isso, porém, a OMS admite que terá de manter estudos por anos em crianças de regiões afetadas para avaliar os riscos de novos impactos, ainda desconhecidos. "As consequências documentadas para recém-nascidos aumentaram em uma longa lista de anormalidades", indicou Chan.

Vacina. A entidade também informa que, um ano depois da declaração da emergência, a ciência ainda está distante de trazer ao mercado produtos que possam barrar a proliferação da doença. Segundo Chan, 40 produtos estão sendo estudados para poder ser utilizados como vacinas contra a zika. Cinco deles começaram os primeiros testes de segurança e imunização. Mas, a própria Chan admite que um registro final desses produtos pode ocorrer só em 2020. 

Em termos financeiros, o combate contra o zika também promete ser um desafio. A entidade havia pedido cerca de US$ 40 milhões até o final de 2017 para conduzir seu trabalho e achar respostas à nova doença. Mas até agora, obteve apenas 55% dos recursos solicitados. 

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