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Zika: possíveis cenários

Fernando Reinach

Quando um novo vírus se espalha pelo planeta é impossível prever exatamente o que vai acontecer. O melhor que a ciência pode fazer é construir cenários prováveis e listar o que precisa acontecer para que cada cenário seja descartado ou confirmado. Na medida em que o tempo passa, o conhecimento sobre o vírus e a doença melhora e os cenários convergem. Com o zika não vai ser diferente.

Para os cientistas esses cenários são a matéria-prima usada para decidir o que precisa ser investigado. Para o governo, direcionam as políticas públicas. E para o resto de nós ajudam a compreender a realidade e a tomar decisões sensatas.

Nesta semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para dois fatos importantes. Primeiro é que o zika está se espalhando rapidamente. O segundo é que a hipótese de que a infecção pelo vírus provoca microcefalia, apesar de ainda não descartada, tampouco pode ser considerada comprovada (sobre isso veja Zika: Associação não é Causa, no Estado de 5 de dezembro de 2015). Com base no que já sabemos, quais os possíveis cenários para o futuro próximo?

O pior cenário já pode ser descartado. É aquele em que o novo vírus, além de se espalhar rapidamente, causa sintomas graves, sequelas irreversíveis, ou mesmo a morte dos infectados. A humanidade já conviveu com vírus desse tipo. Bons exemplos são o vírus da poliomielite e da varíola. O ebola cai nessa categoria. Nesses casos, a contenção do espalhamento é indispensável e a única arma conhecida é a vacina. A poliomielite e a varíola foram praticamente aniquiladas por vacinas e o ebola foi abafado com medidas radicais de contenção e a vacina está em desenvolvimento.

O zika não está nessa categoria. Ele se espalha relativamente rápido onde existe o Aedes aegypti, mas a doença é branda, aparentemente não deixa sequelas, e dificilmente leva a complicações ou à morte. Dados preliminares indicam que 80% das pessoas infectadas nem sequer apresentam sintomas. Claramente não estamos enfrentando um ebola ou uma nova varíola.

O melhor cenário é que o zika seja um vírus benigno, como se imaginava no início da epidemia. As pessoas são infectadas pela primeira vez, ficam imunes, e problema resolvido. Algo semelhante ao que ocorre com os vírus que infectam todas as crianças nos primeiros anos de vida. Em um cenário desse tipo, o vírus vai se espalhar pelo mundo, infectar grande parte da população e vamos conviver com ele pelo resto dos tempos sem grandes problemas. Há dezenas de vírus nessa categoria. Esse cenário ainda é possível, mas deixa de existir se realmente for comprovado que o zika é responsável pela microcefalia nos fetos de mulheres infectadas durante a gravidez.

Isso nos leva a um terceiro cenário, no qual se comprova que o zika provoca a microcefalia e outras síndromes neurológicas. Neste caso, o cenário não é muito diferente de nossa convivência com a rubéola. Causada por um vírus que se espalha facilmente, causa manchas vermelhas na pele e outros sintomas leves. E desaparece. No caso da rubéola, se a uma mulher grávida for infectada durante o início da gravidez, o feto sofre consequências sérias, como má-formação cardíaca, cegueira, surdez e até morte. Mas isso só acontece se a mãe for infectada pela primeira vez durante a gravidez. Se a mãe já tiver tido rubéola antes de engravidar, ela fica imune ao vírus, e o risco durante a gravidez desaparece. É por isso que antes do desenvolvimento da vacina para a rubéola, em 1969, quando uma mulher engravidava, logo perguntavam se ela já tinha tido rubéola. E as mães anotavam direitinho se e quando suas filhas tinham tido a doença. Muitas famílias levavam suas filhas à casa de crianças com rubéola para garantir que a menina contraísse a doença durante a infância, descartando assim o risco durante a gravidez.

Um cenário provável é que o zika esteja no grupo da rubéola no que se refere a essa característica. Neste cenário, a epidemia se espalha pelo mundo, imuniza todas as meninas e mulheres, e o risco de microcefalia é imensamente reduzido até que uma vacina se torne disponível. Mas, para esse cenário se concretizar, é necessário demonstrar que a infecção por zika confere imunidade ao infectado e que essa imunidade é capaz de prevenir a má-formação. E isso ainda não foi pesquisado. 

Esses são alguns dos muitos cenários possíveis, nenhum deles suficientemente sério para entrarmos em pânico. No curto prazo, a grande preocupação é com as mulheres já grávidas ou em vias de engravidar. Elas vão ter de lidar com essa indefinição no próximo ano. Podem decidir adiar a gravidez ou se proteger do mosquito.

Mas uma coisa me parece certa. Vai ser muito difícil evitar o espalhamento do zika. E uma vacina efetiva só vai estar disponível anos depois dessa disseminação. Por outro lado, os cenários mais prováveis não são tão sombrios, nada que justifique o pânico.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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