Quem deve receber a vacina?

Estadão

18 Dezembro 2009 | 19h43

A estratégia prevista para a vacinação contra a gripe suína no Brasil anuncia muito debate em 2010.

São previstas 83 milhões de doses para profissionais de saúde, gestantes, indígenas, crianças de 6 meses a 2 anos, adultos jovens e pessoas que já têm outras doenças, como problemas cardíacos. A questão começa aí. Como aferir que os candidatos são realmente portadores das doenças? Em São Paulo, atestados médicos são encontrados com facilidade em bibocas indicadas pelos homens-sanduíche da praça da Sé, como demonstrou recente operação da Polícia Civil.

“Não vai ser fácil”, afirma ao Núcleo de Saúde Rui Ramos, diretor de promoção de saúde da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

A sociedade encaminhou ao ministério algumas sugestões de doenças cardiológicas que realmente são graves e demandam a vacina. Entre elas, exemplifica, as miocardiopatias, quadros causados, por exemplo, quando um paciente tem um enfarte agudo do miocárdio e o músculo não se recupera – o doente sofre com falta de ar, inchaço nas pernas.

“É claro que nem todos os estimados 35 milhões que têm hipertensão receberão a vacina , diz Ramos.

Outro exemplo: o paciente tem uma arritmia(alteração no batimento cardíaco). Nem todos serão vacinados, mas só aqueles com disfunções ventriculares, defendeu a sociedade.

Ramos destaca, no entanto, que a entidade não definiu como as autoridades de saúde deverão verificar se de fato o candidato é portador de doença que merece imunização.

Solução?

As autoridades de saúde estudam vacinar os doentes já atendidos em programas específicos dos hospitais para determinadas enfermidades. Exemplo: o hospital A chamaria todos os diabéticos acompanhados para receber a imunização. Mas e como ficam aqueles atendidos nos consultórios dos planos de saúde? E os que não têm atendimento específico e vivem indo e voltando do pronto-atendimento? Ainda não está definido.

Eduardo Hage, diretor de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, disse à repórter que o governo também preocupa-se com as ações judiciais –descontentes com as regras da vacina que busquem acesso via judiciário. Por isso, já iniciou reuniões com promotores e procuradores para explicar, em resumo, que a vacina visa apenas grupos prioritários, e que, no caso, o objetivo não é conter o vírus suíno, mas evitar casos graves e óbitos.

O problema, porém, é que as ações são cada vez mais individualizadas, movidas por escritórios privados.

Pode ser, porém, que parte da população tenha resistência à vacina, lembra o epidemiologista Expedito Luna. O que vem sendo registrado na Europa, por exemplo, onde o medo de que a imunização traga problemas de saúde tem afastado pessoas da fila.

A boa notícia é que o medo, por enquanto, é totalmente infundado, apontam estudos: a vacina tem se saído muito bem nos testes de segurança feitos por diferentes fabricantes e grupos independentes.

Por fim Juvêncio Furtado, da Sociedade Brasileira de Infectologia: “o problema é saber se teremos mesmo a quantidade de vacina prevista”.