Dia de festa na Água Branca

Estadão

11 Outubro 2010 | 08h30

Sábado, dia de festa na feirinha da Água Branca. Foram 21 anos da Associação de Agricultura Orgânica, comemorados na companhia de Ana Maria Primavesi, que aos 90 anos estava lá, firme, autografando seus livros; do produtor Guaraci Diniz, de Amparo (SP), e de Ana Branco, que fez palestra sobre biochip e o suco da luz do sol e estimulou os frequentadores a fazerem em azulejos brancos seus coloridos desenhos com os vegetais.

Mas, na minha opinião, o que mais brilhou naquele dia de garoa foi mesmo a feirinha. A própria. Olhar alguns anos para trás e ver o que era a feira orgânica, promovida todos as terças-feiras e sábados – e, mais recentemente, aos domingos – pela Associação de Agricultura Orgânica e no que ela se transformou hoje, é constatar uma grande evolução. Não só na qualidade dos produtos ofertados, mas também na variedade desses produtos e no fato de, hoje, muito mais agricultores estarem ali, expondo para venda direta ao consumidor. Até pêssego e jurubeba (que eu nunca tinha visto ao vivo) orgânicos estavam sendo vendidos neste sábado. Sem falar em frescas e deliciosas castanhas-do-pará, com sabor bem diferente daquelas castanhas de gosto embolorado vendidas nos grandes supermercados.

O dono da banca, Virgílio, as chama de castanhas do Amazonas e já avisa que lançará, na Biofach, que ocorrerá no início do mês que vem em São Paulo, o açaí orgânico para o mercado interno. “Hoje já há açaí orgânico, mas é tudo exportado”, explica. 

Aproveitando o papo com Virgílio, tento esclarecer uma dúvida: como a castanha-do-pará, um produto do extrativismo da Floresta Amazônica, não poderia ser orgânico? Ele explica que, para as comunidades extrativistas receberem certificação orgânica, não basta ter, por si só, um um produto orgânico, mas deve-se ter todos os cuidados sociais, como a não-exploração de mão de obra infantil, por exemplo, além de remunerar justamente os trabalhadores, entre outras exigências, incluindo ambientais, que valem, na verdade, para qualquer produtor que queira ser certificado. Até os ouriços, que são os invólucros que a natureza bolou para abrigar as castanhas, são aproveitados na decoração de paredes, conta Virgílio.

Mas, voltando à feirinha deste sábado, a única coisa a lamentar foi a falta do meu mel preferido: o produzido pelas abelhas a partir da florada do assa-peixe. “Não tem mel de assa-peixe?”, pergunto na banca da Jatobá. “Não”, me responde a atendente. “Este ano o assa-peixe não floresceu…”. Fazer o quê? Nada, a não ser  lembrar que na agricultura orgânica um dos principais mandamentos é respeitar a sazonalidade e o ciclo da natureza. E torcer para que o assa-peixe não demore a florescer…