Cabelo, quimioterapia, empoderamento e Britney Spears
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Cabelo, quimioterapia, empoderamento e Britney Spears

Adriana Moreira

31 de maio de 2021 | 07h00

“Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada.”

 

Meu cabelo começou a cair no 14o dia depois da primeira quimio – então, raspei tudo

Entrei para o rol das descabeladas de Gal Costa. Não no sentido de ter cabelos revoltos, mas de simplesmente não tê-los – o prefixo latino des tem, afinal, o sentido de negação. Sou uma descabelada orgulhosa e só não estou exibindo minha careca por aí por motivos de pandemia (e sol – é preciso preservar a pele de quem faz quimioterapia). Para muitas mulheres, no entanto, perder os cabelos mexe muito com a parte psicológica no diagnóstico do câncer. E por que ficar careca afeta tanto as mulheres?

Essa discussão é complexa. Sobe o som de Gal para a gente continuar essa conversa:

Homens calvos viram símbolos sexuais – The Rock, Bruce Willis, Terry Crews, a lista é enorme. Já  mulheres carecas (ou de cabelos curtíssimos) são consideradas  “diferentonas” (Sinéad O’Connor), desequilibradas (Britney Spears em 2007), ou estão se tratando de um câncer.

Carolina Dieckmann raspou os cabelos para viver uma personagem com câncer e seguiu linda. Seu ato foi importantíssimo na época e reverbera até hoje. Sinéad O’Connor é diferentona sim. E bela. E raspou os cabelos nos anos 90 para mostrar à gravadora que ela controlaria a própria imagem. Sigourney Weaver, em Alien 3 (1992), ficou careca e se mostrou sexy e poderosa (e é a única coisa boa de um filme ruim). Grace Jones nunca precisou de cabelos para mostrar seu glamour. E Britney Spears, ao contrário do que se pensou na época, claramente não cortou seus cabelos em um surto, mas como um protesto, para se libertar na imagem da ninfeta frágil e romper com os padrões do que se espera de uma popstar (#freebritney).

Você pode estar dizendo “ah, mas elas são famosas, é diferente”. Pode ser. Mas é assim que se criam tendências e padrões da moda são rompidos. Ou você acha que as mulheres começaram a usar calça de um dia para o outro sem chocar a sociedade?

No livro O Mito da Beleza, Naomi Wolf discorre sobre como a pressão estética atinge as mulheres em seu dia a dia. “Quando uma mulher é forçada a se enfeitar para conseguir ser ouvida (…), é exatamente isso o que faz com que a ‘beleza’ doa”, diz ela, em um dos trechos. Em outro, ela escreve: “Nós devemos nos certificar de que nossa aparência não tenha a menor importância desde que nos sintamos bonitas.”

Mas antes de seguirmos nesse raciocínio, vamos ao básico: por que o cabelo cai durante a quimioterapia?

O Instituto Vencer o Câncer explica que o cabelo cai porque a quimioterapia afeta principalmente as células que se multiplicam mais rapidamente, como as tumorais, mas também as  do cabelo. Isso ocorre umas duas semanas depois de iniciar a quimioterapia. Comigo foi exatamente no 14º dia depois da primeira quimio (aquela que pareceu uma ressaca de tequila): fui passar a mão para ajeitar o cabelo e logo saiu um tufo.

Eu já estava preparada pra isso. Cortei o cabelo curtinho pra ir me acostumando com o novo visual antes da queda total. E também por que eu não queria ver grandes fios de cabelo caindo – essa mudança fez parte do meu preparo psicológico para a calvície. Quando a queda ficou mais forte, chamei um amigo querido que veio em casa (nós dois permanecemos de máscara todo o tempo) para raspar minha cabeça. Fizemos disso um momento divertido, sem dramas e com muitas risadas.

Quando me olhei no espelho, me senti bonita (pode se orgulhar de mim, Naomi). O interessante é que não vi mais os detalhes do meu rosto que me incomodavam, emoldurados pelo filtro do Instagram primordial (o cabelo). Admito, eu jamais teria raspado a cabeça se não fosse pela quimio, mas gosto da experiência de estar careca.

Nesse ponto, há algumas curiosidades. O cabelo cai, mas não cai todo de uma vez. É um pinga-pinga de fios, que vão se soltando aos pouquinhos, ao longo de semanas. Outra é que não são só os cabelos que caem, mas todos os pelos do corpo. Todos MESMO, em maior ou menor intensidade. (Menos, aparentemente, os da minha perna, que seguem me espetando. Ai ai).

Mas quem escolhe raspar os cabelos por opção? Minha amiga Elisa Dantas fez isso, antes da pandemia. Ela conta que sempre quis, mas decidiu ir aos poucos, testando o cabelo, mudando de cortes. E que, quando finalmente deu adeus às madeixas, se sentiu livre. “Quando você raspa, percebe que a beleza vem de você mesma. O cabelo pode ser bonito, pode ser legal, mas não é ele quem faz você.”

Eis aqui o meu ponto principal nessa conversa: você não é seu cabelo.

Por isso, não sofra ao ir no cabeleireiro. Não hesite em fazer aquela mudança no visual, com medo se vai ficar bom ou do que os outros vão falar. Faça. Ouse. Não se prenda. Questione o seu apego: é algo seu ou vem de alguma frase torta que você ouviu no passado e ainda te atinge?

É um jargão, mas é verdade: o cabelo cresce. E isso vale tanto para quem muda o visual por escolha ou o faz por força de uma quimioterapia.

Eu decidi ainda no diagnóstico que não usaria peruca, por várias razões. A principal é que nunca fui de passar horas arrumando o cabelo: sempre gostei de praticidade, lavar e sair, sem secador nem nada. Cuidar de uma peruca estava fora de cogitação. Me acostumei, então, à ideia de ficar careca e compor o visual com acessórios, de acordo com meus humores. Achei que poderia ser algo divertido, uma experiência, como pintar o cabelo de rosa ou inventar uma franja meio doida.

Gosto de exibir minha carequinha. Gosto da minha visão no espelho e no que ela pode representar para outras mulheres. Há um montante gigantesco delas agora mesmo tentando esconder a perda do cabelo, seja por quimioterapia, idade, questões genéticas, etc.. O que aconteceria se todas nos mostrássemos? O constrangimento causado por um padrão estético daria lugar à normalidade.

Mas claro, esse é um processo muito pessoal, que não deve ser forçado. Respeite a si mesma, seu tempo, seu processo. Quer usar peruca? Use. Lenços? Há inúmeros tutoriais de amarrações no YouTube. Chapéus também estão na moda, e eu adoro.  O importante é que tudo o que você faça  seja por você mesma e não por medo do que os outros vão pensar.

Além de tudo isso, existe um tratamento para diminuir a queda do cabelo pela quimioterapia, conhecido como touca gelada. Eu já tinha ouvido falar, mas não sabia exatamente do que se tratava até minha “oncofriend” (expressão adotada por ela) Carol Cury publicar um relato em sua conta do Instagram. Em resumo, com os cabelos gelados, uma touca com líquido a 4 graus negativos fica agindo no couro cabeludo por cerca de 1h30 durante a sessão de quimioterapia. Dessa forma, os vasos sanguíneos se contraem, e menos quimioterápicos chegam ao couro cabeludo, diminuindo a queda de cabelo. O Hospital A.C. Camargo explica mais sobre o procedimento aqui.

Carol não se adaptou – é preciso se encher de cobertores, roupas de frio, o corpo todo fica gelado. Mas há quem tenha uma experiência positiva, como a jornalista Cristina Ronzolin, que também relatou o processo em seu Instagram. A apresentadora Sabrina Palatore usou durante o seu tratamento contra o câncer de mama e declarou em entrevistas que foi algo muito importante para sua autoestima. O procedimento, contudo, só chegou a um hospital do SUS em novembro do no ano passado, no Rio de Janeiro.

Posso falar mais sobre o assunto e contar mais detalhes sobre essa terapia em outro post (me fala lá no Twitter?). Mas, por hoje, prefiro convidar a uma reflexão: por que a falta de cabelos atinge tão profundamente a autoestima feminina a ponto de tantas mulheres estarem dispostas a fazer um procedimento tão incômodo durante a já desconfortável (porém necessária) quimioterapia?

Para não me estender demais, termino com mais uma frase de Naomi Wolf: “Quando festejarmos a individualidade de nossas feições e de nossas características, teremos acesso a um prazer em nosso corpo que nos una em vez de nos dividir. O mito da beleza terá ficado no passado”.

Acredite: você é linda. Cabeluda ou descabelada.

Eu já estou careca de saber.

Vamos continuar essa conversa no Twitter? Me siga: @adrikka

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