Consulta pública pode diminuir a desigualdade do tratamento público e privado do câncer de mama
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Consulta pública pode diminuir a desigualdade do tratamento público e privado do câncer de mama

Adriana Moreira

24 de setembro de 2021 | 14h32

Imagine o seguinte cenário. Você está se tratando de um câncer de mama metastático. Sua amiga, que passa pela mesma situação, diagnosticada com o mesmo tipo de câncer, tem acesso a um remédio que não apenas aumentará o tempo que ela vai viver, mas também a qualidade de vida que ela terá nesse tempo, podendo fazer as atividades do dia a dia normalmente. Mas você não pode usá-lo.

A cena descrita acima é uma realidade no Brasil. Isso porque há um grupo de remédios, inibidores de ciclina – abemaciclibe, palbociclibe e ribociclibe -, já disponíveis para quem se trata com convênio médico, mas não para quem se trata no Sistema Único de Saúde (SUS), onde as tecnologias médicas de tratamento do câncer chegam a estar até 20 anos atrás do sistema privado. Esses medicamentos são indicados para mulheres com câncer de mama avançado ou metastático RH+ e HER2-, que responde a 70% dos casos.

“A discussão no caso das metastáticas é viver mais e melhor. No meio do caminho podem surgir outros medicamentos, que ampliem ainda mais o tempo e a qualidade de vida. Saímos de medicamentos que davam 6 meses a mais para um de 3 anos, outro deles mostra até 5 anos. E com qualidade de vida”, explica Luciana Holtz de Camargo Barros, presidente do Instituto Oncoguia, ong que defende os direitos do paciente com câncer.

Você, que está lendo esse post agora, pode ajudar a mudar esse cenário.

União: seu relato pode ajudar outras mulheres a conseguirem o mesmo tratamento no SUS. Foto Abhishek N. Chinnappa/Reuters

Isso porque, até o dia 29 de setembro, está em andamento a Consulta Pública n° 77/21, realizada pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias em Saúde), que vai avaliar a incorporação desses medicamentos no SUS. E se você está se tratando com esses remédios pela saúde suplementar ou graças a alguma liminar que lhe conferiu o direito à medicação, pode contribuir contando sua experiência neste link (no fim do texto, coloco um passo a passo detalhado para você contribuir).

A participação da sociedade é importantíssima, sobretudo porque o Conitec, em sua primeira consulta, já se mostrou desfavorável, alegando que haveria um impacto financeiro no sistema público de saúde. “A consulta pública é a hora de todo mundo participar, incluindo a indústria”, diz Luciana.

Especialistas, no entanto, contestam essa justificativa. Isso porque esses dados não levam em conta o tratamento do câncer como um todo e o que se economizaria em outros medicamentos, internações e até no adiamento de sessões de quimioterapia. “A gente tem que entender esse parecer como uma chamada para a gente dizer não. Até porque nós sabemos que a medicação por via oral tem uma redução de custo e aumento de qualidade de vida que não aparece no relatório”, diz Cristina Amorim, gerente geral da Femama (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama).

“É impróprio empurrar essa discussão financeira para o público. Isso tem que ser negociado pelo governo”, avalia ela.

Além disso, com o uso dos medicamentos, essas mulheres – algo em torno de 20 mil pacientes – continuariam economicamente ativas. Afinal, com qualidade de vida, elas podem continuar no mercado de trabalho. Atualmente, cerca de 60 mil mulheres são diagnosticadas com câncer de mama por ano, e cerca de 300 mil convivem com a doença em algum estágio. “Quanto custa retirar uma mulher da cadeia produtiva? Sabemos que elas chefiam mais de 40% dos lares hoje”, diz Cristina.

Para o oncologista Ricardo Caponero, presidente do Conselho Técnico Científico da Femama, falta transparência no orçamento público, o que faz com que o dinheiro vá de forma desigual para vários setores. “É frustrante, porque existe o medicamento e não podemos usar”, diz. “A mortalidade nos EUA e na Europa vem caindo, mas aqui continua subindo. Estamos muito atrás, inclusive na pesquisa científica.”

Segundo ele, enquanto no exterior estão pesquisando a terceira geração de certas drogas, por aqui nem a primeira geração chegou – nem mesmo para quem tem convênio médico. No SUS, o atraso é ainda maior . “É um crime nossas pacientes não terem acesso a esses remédios”, diz Caponero. “Trata-se de uma revolução no câncer de mama.”

Participei como ouvinte de uma seção do Oncoguia com pacientes de câncer de mama que vão relatar como suas vidas ficaram melhor com tais medicamentos, preenchendo o formulário da consulta pública. Vão fazer isso para ajudar outras mulheres que, como elas, não são números. São pessoas, que poderiam ser nossas mães, filhas, amigas. Mulheres com sonhos, que querem ver os filhos crescerem, se formarem na faculdade. Que querem viajar, ser promovidas no trabalho. Que estão ativas, e querem que outras mulheres tenham essa mesma oportunidade.

“Ninguém computa o custo da vida inteira do paciente. Falta a visão mais ampla de como isso melhora a saúde dele”, diz dr. Ricardo.

Muitos dos casos de câncer de mama, no entanto, poderiam ser evitados com a realização precoce de exames. Quanto mais cedo o câncer de mama é diagnosticado, maior a chance de cura. O cenário, contudo, não é muito otimista para os próximos anos. “Tivemos uma queda de 46% no número de mamografias em 2020. Um milhão de mulheres deixaram de fazer a mamografia”, explica Cristina.

Com casos sendo diagnosticados mais tardiamente, o acesso a esses medicamentos será ainda mais fundamental. “Vamos ter uma situação muito grave em 2021, 2022 e 2023, E a medicação oral é um instrumento fundamental para agilizar o tratamento. Nunca foi tão importante. Já era importante antes da pandemia, e agora é mais ainda”, diz ela.

Outra questão relacionada a medicamentos para o câncer que ainda depende de aprovação é o PL 6330/19, conhecido como Sim para a Quimio Oral, que foi aprovado pelo Senado mas vetado pelo presidente Jair Bolsonaro. O Congresso Nacional ainda precisa votar e decidir se mantém o veto do presidente ou se aprova o projeto e libera aos pacientes o acesso a medicamentos já aprovados pela Anvisa, mas que ainda não entraram no rol da ANS.

COMO PARTICIPAR DA CONSULTA PÚBLICA*

Antes de entrar no site do Conitec, faça um roteiro com as questões a seguir:

  • Conte sobre o que significa viver com um câncer de mama metastático e há quanto tempo você foi diagnosticada
  • Qual a importância do seu tratamento e com que objetivo ele foi indicado para você? Esse objetivo está sendo conquistado?
  • Há quanto tempo você toma esse medicamento? Como tem sido (ou foi) sua experiência com ele? Já percebeu resultados? Quais?
  • Sofreu ou sofre efeitos colaterais? Como eles foram controlados?
  • Como está a sua qualidade de vida? Dê uma nota de 0 a 10. E como estava sua qualidade de vida antes do medicamento? Dê uma nota também.
  • Esse tratamento ajudou você a viver mais? Ajudou você a viver melhor?
  • Com base nessas perguntas, escreva um texto e adeque as respostas ao formulário da Conitec
  • Convide amigas que passam pelo mesmo, médicos e outros profissionais para contribuir com informações
  • Acesse o formulário aqui

*Fonte: Instituto Oncoguia

 

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