Exames e procedimentos: a rotina do paciente com câncer em ritmo de forró
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Exames e procedimentos: a rotina do paciente com câncer em ritmo de forró

Adriana Moreira

14 de junho de 2021 | 04h00

“É um pega-pega mexe-mexe rela-rela/ é um chic-chic no chiado da chinela/ é um funga-funga no pescoço da donzela/ é um chamegado encostado na janela”

Eu adoro esse forrozinho. E acabei adaptando a letra para o mutirão de exames que enfrenta um paciente com câncer. Toda vez que vou fazer um procedimento, canto mentalmente:

“É um fura-fura mexe-mexe rela-rela/ é outra espetada pra checar o sangue dela…”

Fazer exames se torna algo rotineiro para o paciente com câncer – ou que está em processo de diagnóstico. A maior parte dos exames listados aqui também são usados para outros diagnósticos, então pode ser uma ajuda para outros casos também. Vou atualizar este post a cada novo exame que eu fizer.

Algumas dicas: em exames de imagens, vá sempre vestida com duas peças de roupas. Em alguns, você não poderá usar nenhum item de metal, então tenha isso em mente ao escolher o “look do dia”. Os detalhes de cada exame e os preparos prévios o médico e o laboratório costumam orientar. O que conto aqui, mais do que tudo, é como a gente se sente em cada um deles. Dói? Qual o nível de incômodo?

Uma coisa nesse processo todo melhorou bastante minha vida: o cateter para a fazer a quimioterapia. Eu não tinha ideia do que se tratava, e quando meu médico falou a respeito achei que era algo externo, que poderia ser colocado numa simples consulta, como o acesso que nos é colocado para receber medicamentos intravenosos durante uma internação.

Nada disso: o cateter para quimioterapia precisa de um procedimento cirúrgico, com internação (mas nem cheguei a dormir no hospital e saí no mesmo dia). Tomei alguns pontinhos, que foram retirados depois de 14 dias.

E o que acontece se você tiver sessão de quimioterapia nesse período? Você toma por cima dos pontos mesmo. E tudo certo. Só um detalhe: o cateter é apenas para a quimioterapia. Para todos os outros exames, pode cantar o forrozinho “é um fura-fura, mexe-mexe, rela-rela…”

Para se preparar, sobe o som e vem comigo:

Mamografia
Ainda não consigo entender como esse exame é feito nesses moldes no dia de hoje. Tenho certeza que se os homens tivessem de colocar seus testículos numa máquina que os espreme ao limite várias vezes e em vários ângulos, já teriam criado um sistema melhor e menos dolorido.

Eu já havia feito uma mamografia anos atrás, quando não havia nódulo. Foi chato, doído, mais rápido. Com o nódulo, foi diferente: a mama estava mais sensível e ficou dolorida por vários dias depois do exame.

Com quem tem próteses é pior: elas precisam ser deslocadas para o lado para a máquina apertar as mamas. Se você tiver próteses, fale com seu médico: uma amiga ficou com uma diferença entre ambas depois do exame e meses depois ainda sentia dores.

Apesar do desconforto, não tem como fugir da mamografia: ela é importantíssima e insubstituível. O exame usa a mesma radiação de um raio X, com feixes que se adaptam à anatomia das mamas, e assim permite verificar eventuais lesões ainda imperceptíveis ao toque – e que podem ser também imperceptíveis no ultrassom.

O Ministério da Saúde recomenda que o exame seja feito a partir dos 50 anos, mas há uma campanha pedindo para incluí-lo como exame de rotina no SUS a partir dos 40 anos. Fiz o meu primeiro aos 35, quando minha mãe se tratava do câncer de mama e achei melhor checar se estava tudo bem comigo. Naquela época, estava.

Não tem jeito, ainda precisamos passar pela mamografia. Respira e vai.

Ultrassonografia mamária
O médico passa um gelzinho no aparelho que “massageia” a mama enquanto faz imagens internas – dependendo do laboratório, o gel é até morninho, um luxo. O exame não substitui a mamografia, mas é complementar a ela.

Quando fiz a minha para verificar o que era o nódulo no meu seio, a médica que fez o exame no laboratório ligou para minha ginecologista, indicando a necessidade de biópsia. Essa rapidez foi importantíssima: dois dias depois do ultrassom eu já estava fazendo a biópsia, que confirmou o  diagnóstico de câncer de mama.

Exame de mamografia é chato, mas fundamental no diagnóstico. Foto Rafael Arbex/Estadão

Biópsia
Um exame chatinho, mas fundamental para descobrir se o nódulo é benigno ou maligno, além de outras especificidades. O meu foi feito com anestesia local, duas injeções no seio. É uma picadinha meio dolorida, mas para quem passou uma vida fazendo depilação com cera dá para aguentar mais essa.

Nunca olho pras seringas: sempre fecho os olhos para não sofrer por antecipação. Com um bisturi, a médica corta um pedaço da mama (às vezes, é preciso dar um ponto depois) e retira pedaços do nódulo que irão para análise laboratorial. Durante o exame em si você não vai sentir nada.

Estranhei quando, nas indicações de preparo para o exame, veio a necessidade de levar acompanhante. Achei que seria algo muito tranquilo, mas ao final do exame senti bastante tontura e entendi a necessidade de ir com alguém. Por isso, não consegui voltar a trabalhar – no preparo, há também a indicação de repouso o resto do dia.

Perguntei para a médica em quanto tempo eu estaria liberada para fazer exercícios físicos. “Quarenta e oito horas, 24 se você estiver sem dor”, ela me respondeu. Expectativa: me exercitar 24h depois do exame. Realidade: só consegui fazer exercícios depois de uma semana.

Exame de sangue
Quando o paciente com câncer começa a fazer quimioterapia, hemogramas se tornam rotineiros: é preciso checar antes de cada sessão como está sua imunidade. Se o enfermeiro for habilidoso, você não sente nadinha. Se você já doa sangue sabe que é algo tranquilo. Se não doa, é bom começar a doar (se puder, é claro).

Para colocar o cateter, é necessário um procedimento cirúrgico

Tomografia
Há vários tipos de tomografia. Fiz de pelve e tórax, em uma máquina aberta. Achei que estava em um simulador da Disney. O problema é que, antes da parte “divertida”, foi pedido um jejum de 4h sem comer ou beber (verifique direitinho o que foi pedido no seu caso; pode variar). Próximo ao exame, a técnica pediu para eu tomar 4 copos d’água, um a cada cinco minutos, para encher a bexiga – pra mim foi ótimo, estava sedenta mesmo.

O exame em si foi divertido (eu achei, pelo menos): você precisa prender a respiração e ficar quietinha enquanto a máquina te escaneia. Às vezes ela dá uns trancos, faz uns barulhinhos de simulador de parque de diversão. A parte chata é o contraste na veia (no meu caso, a base de iodo), mas chega uma hora que você se acostuma a ser picado a toda hora. No ritmo do forró, lembra?

Cintilografia
Imagine que os exames são passeios de buggy nas dunas: a tomografia é para quem pede sem emoção e a cintilografia, com emoção (emoção, não dor, ok?). Também envolve uma preparação, com um radiofármaco na veia cerca de 1h antes do exame. Nada de jejum nesse: “Almoce bem e tome bastante água, ou um copão de suco”, indicou a técnica na preparação.

Antes de entrar para o exame, é preciso estar com a bexiga vazia. E daí é que começa a emoção: é um desce e sobe da máquina, barulhinhos, vira daqui e dali. Ela desce e fica bem pertinho do seu rosto – quem tem claustrofobia pode ter uma sensação ruim. Como faço tudo de olhos fechados, para mim foi bem tranquilo e até divertido. Sinceramente, só não cochilei porque foi rápido.

Linfocintilografia mamária
Esse fiz algumas horas antes da cirurgia de retirada do nódulo. O objetivo, no meu caso, era mapear o linfonodo sentinela (ou seja, o primeiro a receber células cancerígenas) e o para-sentinela para removê-los também. Assim, o médico pode analisar se há ou não a necessidade de esvaziar toda a axila – ou seja, retirar todos os linfonodos.

Também envolve tomar duas injeções no seio (parece mais dramático do que realmente é, eu garanto). Depois disso, é uma hora massageando o seio – e haja braço. Você mesma massageia a mama vigorosamente, no sentido horário e no anti-horário, para espalhar o líquido. Melhor que academia.

Numa sala, fiquei com outras mulheres que faziam o mesmo. Cada uma com um tipo de câncer diferente, idades diferentes, histórias diferentes. Conversamos, rimos, desejamos sorte umas às outras e seguimos: nós três faríamos nossas cirurgias naquele mesmo dia.

Depois de uma hora, você vai para a máquina, a mesma da cintilografia. Se a imagem não ficar boa, é preciso tomar outra injeção e massagear a mama por mais uma hora… Deu certo da primeira vez. Ufa.

Como é sua relação com os exames? Conta pra mim no Twitter: @adrikka

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