O que é cringe no câncer?
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O que é cringe no câncer?

Adriana Moreira

29 de junho de 2021 | 04h00

Sou cringe assumidíssima – e se você ainda não conhece o novo termo da moda, significa que você também é. O cringe para os jovens da geração z seria algo próximo da “vergonha alheia”, do mico, da gafe. Quem nunca falou algo impróprio e depois se arrependeu que atire o primeiro DVD de Friends (sim, gostar de Friends está na lista das coisas consideradas cringe por essa geração). Mas o que isso tem a ver com câncer?

Você não quer ser o tio do pavê para um paciente com câncer, quer? Foto Krakenimages/Unsplash.com

Quem recebe o diagnóstico de câncer em algum momento vai ouvir alguma coisa constrangedora.O bingo do paciente consiste em ouvir uma história de alguém que morreu de câncer, receber alguma receita de cura milagrosa, ouvir um parente dizer “aquela doença” (porque falar a palavra câncer é um tabu), entre outras coisas. Cringe, então, é dizer coisas desse tipo.

Perguntei no meu perfil do Instagram o que mais incomoda ou incomodava ouvir durante o tratamento do câncer. Essas foram algumas das respostas: “Ouvir ‘cabelo é o de menos, agradeça que está viva”. “Ficarem com pena”. “Dizerem ‘ah, tão bonita, tão jovem, como se eu já estivesse condenada.” Cringe, cringe, cringe!

Mas também recebi muitas perguntas de gente que não sabe muito bem o que falar para um amigo com câncer e quer demonstrar apoio, mas tem medo de ser inconveniente na abordagem. “Dizer pra pessoa que ela ficou linda careca é ruim? Ela pode estar, mas não queria, né?”, me perguntou um amigo. Respondi que para mim é um elogio e minha autoestima agradece. Mas não posso responder por outras pessoas. 

O que fazer então? Como oferecer apoio sem cair na lista cringe do câncer?

Perguntei para Raquel Lacerda Dantas de Farias, psicóloga no Instituto Integra Saúde e pesquisadora do AC Camargo Cancer Center, se havia alguma “fórmula mágica” do que falar ou não falar para um paciente com câncer. “Não existe uma fórmula porque cada ser humano enfrenta os problemas de maneira diferente”, disse ela. 

“É importante que você, ao  falar com um paciente com câncer, tenha cuidado, principalmente se não tem muita intimidade”, explicou Raquel. “Respeite o limite do outro, saiba até onde ir.” Para a família, ela diz que é fundamental respeitar os momentos do paciente, inclusive em dias que ele esteja mais triste ou introspectivo. “A pessoa tem o direito de chorar, de estar triste. Às vezes a família interpreta o chorar como um sofrimento, mas é só um momento de aliviar a angústia.”

Mas e se para o outro quem tem limite é município, e as fronteiras do constrangimento estão abertas, como o paciente deve reagir? Segundo Raquel, o melhor caminho é ser honesto. “Diga: ‘não quero falar sobre isso agora, mas agradeço seu apoio’.”

Eu, particularmente, acho graça quando alguém vem falar comigo pisando em ovos. Como trato o assunto com naturalidade, procuro tirar a pessoa daquela situação de constrangimento para que ela veja que está tudo normal – afinal, ainda sou a mesma pessoa. E acho que quanto mais natural o assunto é tratado, mais se contribui para quebrar o tabu em torno da doença.

Tampouco me ofendo quando ouço algo que não me agrada porque sei que na maioria das vezes as pessoas não falam por mal – é como encontrar o tio do pavê nas festas de família: nada que um sorriso amarelo não dê conta. Procuro mudar de assunto, se for o caso, e esqueço – não é uma frase mal colocada que vai influenciar no meu equilíbrio pessoal.

Minha amiga Carol Cury, que como eu está em tratamento de um câncer de mama, publicou em seu perfil nas redes sociais, há alguns meses, uma lista do que não falar para um paciente com câncer. Uma lista do cringe do câncer muito antes de ser modinha. Reproduzo aqui alguns desses itens:

  • Não chame a atenção para as mudanças físicas do paciente. Comentários como “você parece abatida” ou “pelo menos você perdeu aqueles quilinhos” podem servir de gatilho para uma situação de fragilidade
  • O que dizer para demonstrar apoio se você não sabe bem o que dizer? Diga exatamente isso: “não sei bem o que dizer, mas saiba que estou do seu lado”
  • Não culpe o paciente. Dizer que o câncer surgiu pelo estilo de vida não ajuda em nada e não é verdade – são muitos os fatores ligados ao surgimento da doença

Se não quiser ser cringe, não faça perguntas constrangedoras. Foto Reprodução

Faço aqui a minha lista do não-cringe, e ofereço aos meus amigos queridos e colegas de trabalho que, desde antes do surgimento desse blog, me enchem diariamente de amor e apoio, nas mais diversas formas (bem, essa declaração certamente é considerada cringe, mas e daí?). 

  • Receber apoio é maravilhoso. Diga: “o que posso fazer para te ajudar? Você pode contar comigo”. 
  • Para algumas pessoas, um “como você está?” pode gerar gatilhos e ansiedade. Eu me sinto lembrada e querida – mas se você não tem certeza se seu amigo vai receber isso bem, seja honesto com relação a isso ou puxe outro assunto. No meio da conversa, você pode dizer: estou aqui pra te apoiar, mas não precisa falar a respeito se não quiser.
  • Mimos inesperados trazem felicidade instantânea. Não é pelo presente, mas pela lembrança. Comida, pra mim, é sempre um abraço (e fui inundada de abraços desse tipo em uma época em que a pandemia não permite o abraço presencial). Mas vale perguntar se a pessoa está podendo comer de tudo. Vale também mandar um cartão, um vasinho, um vídeo gravado com pessoas queridas…

E para quem está se tratando, nada é cringe. Pode chorar, pode procurar ajuda, pode ficar bravo, pode ser honesto sempre que se sentir desconfortável, pode rir de si mesmo, pode fazer terapia, botar pra fora o que está sentindo – o que, inclusive, é recomendado por Raquel. “Falando vai aliviando,  vai amadurecendo, vai ressignificando.”

E aí, o que é cringe no câncer pra você? Conta pra mim lá no Twiter: @adrikka

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