Retirando o nódulo: já vai tarde
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Retirando o nódulo: já vai tarde

Adriana Moreira

07 de maio de 2021 | 05h00

Como expulsar de casa um visitante indesejado e inconveniente? As avós diziam que colocar uma vassoura atrás da porta era tiro e queda. Mas quando o chato em questão é um nódulo na sua mama esquerda, o melhor é arrancá-lo na marra e dá-lhe um belo pontapé nos fundilhos. Ou seja, fazer uma cirurgia.

Bem, acontece que o câncer, como toda visita mal-educada, nem sempre se conforma com a expulsão. Ele quer ficar por ali mesmo, abrir a geladeira, tirar o tênis e coçar as frieiras no meio da sala. A luta dos médicos é para que ele não volte mais, como um ex-namorado que reaparece do nada: é o tipo de coisa que só vai trazer dor de cabeça (ou, em linguagem do câncer, metástase). E, para isso, há várias estratégias.

As avós diziam que, para expulsar uma visita indesejada, era preciso colocar uma vassoura atrás da porta. Foto Stone Wang/Unsplash.com

Como já disse no meu primeiro post, cada caso é um caso – é o médico quem define a melhor estratégia. Minha mãe, por exemplo, primeiro fez quimioterapia para depois fazer a cirurgia. Tenho amigas que não precisaram fazer cirurgia; outras não fizeram quimio. No meu caso, o tamanho do tumor, ainda pequeno, foi um dos fatores para optar primeiro por sua remoção (o pontapé nos fundilhos) para depois seguir com a quimio (algo como bloquear seu ex no WhatsApp).

Para aumentar ainda mais a segurança do seu estimado lar e evitar que ele bata em sua porta no meio da noite, é preciso verificar como estão os linfonodos, os porteiros do nosso sistema linfático. Sem perceber, eles podem levar células cancerígenas para o resto do corpo. Relacionamento abusivo, aqui não!

Os linfonodos ligados à mama estão na axila. Antigamente, o procedimento de praxe era retirar todos, esvaziar a axila. A linfocintilografia é um exame que consegue identificar exatamente qual linfonodo está ligado ao tumor, o chamado linfonodo sentinela.

Sem os linfonodos, responsáveis pela condução da linfa pelo corpo, o braço fica desprotegido, incha com facilidade com qualquer arranhão. Diga adeus a tirar as cutículas, fazer musculação ou mesmo tomar a sonhada vacina da covid-19 do lado em que foram retirados os linfonodos. Eu tirei só dois, o que significa que tenho de ter cuidado com o braço esquerdo, mas os riscos são menores do que se eu não tivesse mais nenhum.

Sutiã cirúrgico, um amor de verão

Deu tudo certo com minha cirurgia – eu temia que ela fosse remarcada por causa da pandemia, mas tudo saiu como o planejado. A análise do tumor e dos linfonodos confirmou o restante do tratamento, o que deu um alívio extra.

Saí da mesa de operação já com um sutiã cirúrgico, comprado previamente. Sim, ele aperta, mas minimiza as chances de haver algum tipo de sangramento e diminui as dores depois da operação. Logo você acostuma. São 40 dias com ele, tirando apenas para tomar banho. Você não vai largá-lo nem na hora de dormir. Um amor de verão, por assim dizer.

Mas a recuperação nos deixa fragilizados. É uma dor que não é dor, um incômodo para dormir, um medo de fazer movimentos bruscos e abrir os pontos, um sono repentino, uma quarentena (mais uma) forçada.

Meu médico optou por não colocar drenos pós-cirúrgicos – os drenos são visitantes convidados, mas daqueles chatinhos. É o tio da piada do pavê, o primo insuportável que sua mãe obriga você a tirar foto abraçadinho. Eles demandam cuidado, é preciso esvaziá-los, limpá-los bem. Fiquei feliz em não precisar usá-los, mas a desvantagem é a provável formação de seroma. Trata-se de um acúmulo de líquido que aumenta o inchaço e deixa o local dolorido.

Para removê-lo é preciso fazer uma espécie de punção – não dói nada, você só sente a picada da agulha mesmo (eu nunca olho para as agulhas para não sofrer por antecipação. Tem funcionado). É tão bom quando aquele líquido todo sai que você nem vai se importar com uma picadinha de nada. Se valeu a pena não colocar drenos? Valeu sim. Mas quem escolhe não é você, é o médico.

E a cicatriz?

Acredito, contudo, que, para a maioria das mulheres, o grande temor (além da metástase, claro) é a cicatriz. Assim, a retirada do curativo é um momento delicado – uma das leitoras do blog, a Simone Perez, comentou o quanto chorou nesse momento. Simone, eu também chorei. Estamos frágeis, o corpo dói, e a visão no espelho parece mais uma agressão, independentemente do tamanho da marca no corpo. Já estamos marcadas por dentro também.

Conforme os dias passam, tudo melhora. É como levar um pé na bunda: vai um tempo para se recuperar, mas, no fim, você vai ficar bem. No meu caso, ganhei uma cicatriz vertical e um peito mais empinado que o outro. A cicatriz  – na qual passo uma pomada para não formar queloide – já não me assusta. Há outras coisas mais importantes no momento.

Me preparo para dar início à quimio e dar adeus a esse boy lixo chamado câncer. Vamos bloquear ele no WhatsApp, botar uma cerca reforçada, um alarme e o que mais for preciso para não correr o risco de encontrar o indesejado deitado no sofá da sala, na maior cara-de-pau.

Vamos continuar essa conversa no Twitter? Vai lá: @adrikka

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