Tenho câncer. E agora?
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Tenho câncer. E agora?

Adriana Moreira

30 de abril de 2021 | 10h00

Quantas vezes eu havia me olhado no espelho naquela semana? Mas, neste dia, o reflexo no espelho mostrava algo diferente. Minha mama esquerda parecia levemente maior que a direita, com o que parecia ser um calombo. Algo sutil, discreto, praticamente imperceptível. Poderia ser apenas o inchaço natural anterior à menstruação, poderia ser uma espinha, poderia não ser nada. Na dúvida, fiz o autoexame, na hora. Havia um nódulo.

Até o presente momento, em que estou oficialmente diagnosticada como portadora de câncer de mama e prestes a fazer a cirurgia para remover essa visita inconveniente (que não apenas entrou sem ser convidada como também não quer usar máscara e fala lançando perdigotos no ar), mudei de humor e sentimentos tanto quanto muda o clima em São Paulo em um dia de outono. Do solar a tempestades em menos de dez minutos, essa é a minha atual rotina.

Comecei com uma solar negação: não procurei um médico imediatamente. “Vou esperar depois da menstruação, vai que desincha e some?”, pensei. Afinal, isso não poderia acontecer comigo, logo comigo? (Sim, todos nos consideramos lindos alecrins dourados imunes aos dissabores da vida. Não fujo à regra.)

Mas a menstruação veio e se foi e o nódulo continuava no mesmo lugar. O que me levou à fase 2, chuva moderada em pontos isolados: chorei discretamente (não queria alarmar ninguém à toa) enquanto buscava opções de médicos e procurava manter o otimismo (“vai dar benigno”, dizia). Depois dos exames feitos e do diagnóstico comprovado, a realidade me acertou com um tabefe no meio das fuças: tenho câncer, e agora?

A jornalista Adriana Moreira: blog como canal de comunicação com outras mulheres diagnosticadas com câncer. Foto Arquivo Pessoal

A notícia, não vou mentir, me trouxe a tempestade com raios, trovões, lágrimas, raiva e uma comilança desenfreada, com tudo o mais gorduroso e pior para a saúde possível. De que adiantaria ser saudável agora, já que eu já estava doente? Pela mesma razão, dei adeus aos exercícios físicos, os quais eu fazia todo dia.

Logo, no entanto, percebi que esse comportamento autodestrutivo não me levaria a lugar algum. Um solzinho discreto, entre nuvens. O que me trouxe à fase atual: vambora enfrentar isso aí. De peito aberto (sem trocadilhos), com bom humor (quando possível) e fazendo o que sei fazer: contar histórias e informar.

Dividir minha experiência nessa jornada – que vai durar sabe-se lá quanto tempo – é uma maneira de mostrar para outras mulheres que também têm câncer que elas não estão sozinhas. Ao todo, 316.280 mulheres foram diagnosticadas com algum tipo de câncer no ano passado no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). O mais comum, 29% deles, é o  câncer de mama, o que corresponde a um total de 66 mil mulheres diagnosticadas no último ano.

Somos muitas, mas falamos pouco a respeito. Sim, há as campanhas de prevenção, mas sobre o dia a dia de quem enfrenta a doença não há tantas informações que não sejam técnicas. O tabu ainda é grande, as dúvidas são muitas. Terei de fazer quimioterapia? Entrarei na menopausa por causa dela? Como vai ser a cicatriz da cirurgia? Meu cabelo vai cair? Como estará minha autoestima ao fim desse processo? Quais os riscos de metástase?

Prometo compartilhar essas respostas aqui, de uma maneira muito franca e sem rodeios, com todos os altos e baixos e mudanças de clima que aparecerem nessa trajetória. Vale lembrar algo importante: câncer é algo bem particular, e há diversos tipos de tratamentos e procedimentos – quem avalia é o médico. Cada caso é um caso, e meu objetivo aqui é contar minha experiência. O que serve pra mim talvez não sirva pra você, ok?

Tenho consciência que, neste processo, parto de alguns privilégios: diferentemente da grande maioria da população brasileira, que precisa enfrentar filas de meses para marcar um exame de rotina, tenho um plano de saúde que me permitiu um diagnóstico rápido e uma cirurgia marcada para “o quanto antes”.

Bem diferente do cenário que minha mãe encontrou, há cerca de dez anos, quando também recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Mesmo com a suspeita, marcar exames e consultas antes de ter a confirmação do câncer foi uma via-crúcis no sistema público. Em compensação, depois do diagnóstico confirmado ela fez todo o tratamento pelo SUS, com médicos atenciosos e enfermeiras cuidadosas, recebendo toda a medicação necessária sem nenhum gasto. E, hoje, pode ser considerada curada. Mas isso é tema para um post futuro.

O fato é que ter alguém em casa que já passou por isso tem me ajudado muito a não “panicar” – eu vi como é, sei o que vou enfrentar. Minha mãe, por outro lado, me conforta com palavras como “é assim mesmo”, “comigo foi assim também”. E é por isso que decidi fazer esse blog: pra você, que está passando pelo mesmo que eu e não tem ninguém próximo para compartilhar dúvidas e sentimentos que vão além do diagnóstico médico. Ninguém solta a mão de ninguém.

Vamos falar mais a respeito? Que temas você gostaria de ver aqui? Conta pra mim lá no Twitter: @adrikka

PS: Este texto de apresentação foi escrito pouco antes da minha cirurgia para retirada do nódulo. Tudo correu bem – em breve, contarei tudo neste espaço.

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