Uma Astrazeneca a cada 21 dias – ou o fim da quimio vermelha
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Uma Astrazeneca a cada 21 dias – ou o fim da quimio vermelha

Adriana Moreira

13 de julho de 2021 | 07h00

O fim da primeira fase de quimioterapia deve ser celebrado. Foto Ethan Hoover/Unsplash.com

Tomei Pfizer no braço, mas posso dizer que experimentei uma reação de Astrazeneca a cada 21 dias desde abril, quando dei início ao tratamento do meu câncer de mama. Meu primeiro ciclo de quimioterapia, de quatro sessões, encerrado na última semana, foi mais ou menos assim. Deixei a quimio vermelha para trás e, antes de começar a nova fase (serão mais 12 sessões da branca, uma por semana), com novos medicamentos, comemorei. O que durante a pandemia equivale basicamente a gritar “uhuuuu” e postar uma foto no Instagram.

Tome aí sua Astrazeneca sem reclamar: ela é tão boa para o seu corpo como a quimio é para o meu. E daí que elas são exibicionistas e ficam jogando seu processo de trabalho na nossa cara? Você também adora biscoitar nas redes sociais que eu sei.

Encerrar esse ciclo de quimioterapia vermelha é digno de comemoração por vários motivos. Vou contar aqui alguns deles (com trilha sonora cantada por Fafá de Belém pra você ler dançando):

1. Adeus, náuseas
Contei aqui que minha primeira quimioterapia foi como uma ressaca de tequila. Náusea, vômito, diarreia, cansaço, pensamento lento. Nunca mais vou reclamar de ressaca na vida.

Mas cada quimio é uma quimio, sempre com uma emoção diferente. E apesar de a primeira ter sido bem chata, a segunda seção foi a que me senti pior: uma ânsia sem-fim, um mal-estar generalizado. No dia seguinte, acordei bem melhor.

Nas duas últimas, mudei o modus operandi. Seguindo o conselho de uma amiga que também se submeteu à quimioterapia para tratar um câncer de mama, fiz a sessão em jejum. Cheguei em casa, almocei uma sopa leve e tomei a medicação indicada pelo médico: dormi o resto do dia. Acordei cansada, mas bem. Ufa, peguei o jeito da coisa.

No entanto, em todas as quatro me transformei na pessoa que eu mais temia: a chata pra comer. Essa ‘chatice’ temporária dura cerca de uma semana depois da sessão de quimioterapia. Não há critério algum: na primeira vez, eu só conseguia comer polenta mole e bolinho de arroz – todo o resto me enjoava só de pensar a respeito. Na segunda, apenas arroz com molho de tomate. Carne? Nem pensar. Na terceira e na quarta, só comidas ácidas, com muito limão.

Sucos, que eu sempre amei, se tornaram intragáveis depois da segunda quimio e não sei quando vou conseguir voltar a tomá-los. Além de água, ultimamente só consigo beber água de coco e chá de cidreira.

Nesse processo acontecem coisas que parecem frescura, mas não são. O almoço delicioso com o qual me fartei me embrulhou o estômago no mesmo dia, no jantar. O olfato ficou ultrassensível (toma essa, covid), a ponto de eu ter de sair de um cômodo por causa de um perfume ou do cheiro de uma comida. Essa, inclusive, é uma das razões pelas quais muitos pacientes perdem peso nessa etapa.

Tudo isso deve passar agora. Que venha a comilança!

2. O cabelo volta a crescer
A quimio vermelha faz o cabelo cair porque age diretamente nas células que se multiplicam mais rapidamente, como as tumorais – mas também as que fazem nascer o cabelo e os pelos do corpo. (Aqui quero deixar meu protesto: fiquei careca, minha sobrancelha ficou mais rala e economizei a lâmina de barbear no corpo todo, exceto uma parte: na perna, onde os pelos seguiram crescendo como se nada tivesse acontecido. Que ousadia!)

No começo do tratamento, o cabelo cai por volta do 14º dia depois da primeira quimio. E, com o fim dela, demora de 2 a 3 meses para voltar a crescer. Em alguns casos, ele pode nascer um pouco diferente do que era originalmente – o ator Reynaldo Gianecchini, por exemplo, ganhou cachos e cabelos grisalhos quando terminou o tratamento em razão de um linfoma (ele se curou em 2011). A tendência – como se viu nas madeixas de Giane – é que os cabelos voltem à textura normal algum tempo depois.

O cabelo de Reynaldo Gianecchini nasceu encaracolado depois da quimioterapia. Foto Leo Aversa

Nesse processo todo, estar careca é o que menos me incomoda. Tem sido divertido e já economizei um dinheiro danado em xampu e creme.

3. A fase mais agressiva do tratamento ficou pra trás
Abraão Dornellas, médico oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que a quimio vermelha é mais agressiva por ser uma combinação de duas drogas: adriamicina (ou doxorrubicina, responsável pela cor vermelha do medicamento) e ciclofosfamida. “É o combinado com maior efetividade no combate ao câncer de mama”, diz. “Como se está fazendo uma combinação de quimioterápicos potentes, há muitos efeitos colaterais. Quando termina, é uma vitória, um marco na história do paciente com câncer de mama.”

A quimio vermelha pode ser administrada a cada 14 ou 21 dias (como foi meu caso). Além da queda de cabelo e das náuseas, a imunidade também cai – e para garantir que o paciente não tenha que adiar a próxima sessão quimioterápica é comum tomar uma injeção para fazer a medula óssea trabalhar mais rápido. Essa injeção também tem efeitos colaterais, como dores no corpo.

Na primeira vez que tomei, achei que tivesse contraído covid. Minha garganta fechou, era difícil engolir. Mas, aos poucos, o dolorido se espalhou – a sensação é uma mistura de exagerar na academia com um dia de febre. Fiquei aliviada, porque estes sim eram os efeitos colaterais que eu esperava: não era covid.

Dr. Abraão explica que, com a quimioterapia branca, a imunidade também pode vir a cair, mas dificilmente será necessário o uso de injeções. “Ela age de maneira diferente no organismo”, explica ele. O tratamento agora usa outro medicamento, o paclitaxel, e deve-se esperar outros efeitos colaterais, como dor muscular e formigamento na ponta dos dedos. “Começa agora a contagem regressiva, a expectativa de (o tratamento) estar chegando ao fim.”

4. Fechar um ciclo é sempre motivo para celebrar
Nas antigas civilizações, as grandes celebrações estavam sempre ligadas ao fim de um ciclo climáticos. No Peru, por exemplo, os incas celebravam o solstício de inverno – quando o sol fica mais distante da Terra – com uma grande festa, chamada Inti Raymi. A Páscoa, celebrada por razões diferentes por católicos e judeus, tem origens em festivais pagãos germânicos de celebração da primavera, quando a natureza se renova, os dias ficam mais quentes e longos e há mais fartura na colheita.

Tudo isso para dizer que celebrar o fim de um ciclo e o começo de outro faz parte da essência humana. Celebramos aniversários, casamentos, batizados, formaturas. Sem querer apelar para a autoajuda, o fato é que um ciclo tem que se encerrar para outro começar – e a vida é feita de vários deles. Celebrar mais essa etapa é importante e renova as forças para as próximas que ainda virão.

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