‘Você é confrontado com sua finitude’, diz Lilian Ribeiro sobre o diagnóstico de câncer
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‘Você é confrontado com sua finitude’, diz Lilian Ribeiro sobre o diagnóstico de câncer

Adriana Moreira

11 de novembro de 2021 | 07h00

Jornalistas não gostam de ser notícia. Também não é comum inserir nossa vida pessoal no trabalho. Normalmente, estamos nos bastidores, apurando, checando e buscando levar a melhor informação para o leitor, ouvinte o telespectador. Esta semana, contudo, uma jornalista virou notícia por seu depoimento corajoso. Lilian Ribeiro, da GloboNews, começou o programa Em Pauta desta segunda-feira (8) falando sobre seu diagnóstico de câncer de mama – e viralizou nas redes sociais com uma frase forte: “Esse câncer nunca me teve”.

Conversei com ela sobre o assunto, pelo telefone, nesta quarta (10). Trocamos experiências e falamos sobre semelhanças e diferenças dos nossos tratamentos. “Descobri que o câncer não é igual pra todo mundo. A doença é uma doença diferente em cada um”, disse ela.

De fato: Lilian tinha feito, no dia anterior, sua terceira quimioterapia vermelha de um total de quatro. “Estou deitadinha falando com você, daqui a pouco bate o cansaço”, disse. Ela fará mais quatro sessões da quimio branca (fiz 12), e a cirurgia ainda será definida – no meu caso, a cirurgia foi o passo inicial do meu tratamento.

A jornalista Lilian Ribeiro, que foi diagnosticada com câncer em 1º de outubro: ‘Que nossas dores nunca nos definam’. Foto GloboNews

Diagnóstico
Lilian contou que seu diagnóstico, aos 37 anos, veio em meio a um turbilhão: no dia 18 de setembro, ela perdeu uma prima com câncer, uma pessoa próxima, querida e que tinha a mesma idade. “O histórico da minha prima fez com que eu tivesse atenção”, conta ela, que percebeu dois nódulos no fim de agosto e, a partir de então, passou por uma maratona de exames antes até receber o diagnóstico em 1º de outubro.

“Passei semanas em profunda amargura”, contou ela. “Você é confrontado com sua finitude. A gente vive como se não fosse morrer. Uma hora vai acabar, mas eu não quero que acabe agora.”

Mesmo com a família ainda abalada pela perda de uma pessoa querida, ela decidiu que o melhor caminho era dizer a verdade e não esconder. Mas ela ainda não havia pensado em tornar o diagnóstico público, embora os colegas de Globo News soubessem.

Trabalho e cabelo
De imediato, ela não imaginava que poderia seguir trabalhando durante o tratamento. Quando os médicos deram o OK e disseram que isso poderia lhe fazer bem, tudo mudou. “Foi uma virada de chave, um momento de reconexão depois daquelas semanas esquisitas.”

Como apresentadora de TV, o cabelo era uma questão. Ela tentou a touca gelada, processo que ajuda a prevenir a queda dos fios, mas que não é garantido – Lilian ficou com falhas. Ver seus cachos caindo não estava lhe fazendo bem, e ela não se adaptou à peruca. A solução foi raspar, mas ela tinha uma preocupação: como a filha de 5 anos reagiria.”Na véspera de eu raspar, ela pintou as pontinhas do cabelo de azul”, lembra. “A família é a prioridade nesse processo todo”, diz.

“Eu continuo no mundo. Fez muita diferença pra mim voltar a trabalhar.”

Decidiu, então, usar um lenço, mas os telespectadores iriam estranhar. A ideia de escrever um depoimento para ser lido no início do programa foi trocada por uma fala natural, que traduzisse de maneira espontânea o que ela estava sentindo.

Em meio ao discurso, uma frase se destacou: “Dores todos nós temos, e sempre teremos. Que essas dores nunca nos tenham”. A inspiração veio da história contada a ela por um pastor, que visitou uma mulher que, mesmo em fase terminal, sorria. Ao perguntar se ela estava “bem mesmo”, a mulher respondeu: “Eu tenho câncer, mas esse câncer nunca me teve”.

“A frase não é minha. A frase é de alguém que se foi. Eu acho isso muito forte. É o legado de uma pessoa que eu nem sei quem é, que reverbera agora para tantas pessoas. Eu fico emocionada. A gente nunca sabe até onde a nossa voz pode chegar.”

Impacto
O depoimento causou um impacto imediato nas redes sociais. “Não estava preparada. Ao mesmo tempo, me sinto muito grata”, explica. São mensagens, de pessoas recém-diagnosticadas, de pessoas que já passaram por tratamento, de pessoas que querem mandar carinho e apoio.

“Isso me toca profundamente. A minha família está sendo abraçada também.”

Assim como ela, seus familiares vêm recebendo mensagens de apoio, inclusive de pessoas conhecidas que souberam da notícia pela TV. Ao mesmo tempo, Lilian ainda não conseguiu responder todas as mensagens que recebeu. “Toda hora vem alguém aqui (da família) pra falar ‘larga o telefone, você tem que descansar, tem que dormir’”, conta, bem-humorada. “É de fato uma doença que mobiliza a família toda. E isso é muito importante.” Afinal, ter uma rede de apoio é algo essencial nesse processo.

Transformação
Apesar do começo difícil (receber o diagnóstico é sempre um baque), ela agora vê o tratamento de outro jeito. “Não como se aquilo fosse envenenar o meu corpo, que eu ia passar mal, mas que bom que aquele remédio existe”, conta. “Antes, sentia medo de ir e agora fico na ansiedade, na expectativa da próxima injeção de cura.”

Lilian conta que o momento da quimioterapia se transformou em uma espécie de meditação, em que ela se conecta com ela mesma. Na hora de descer a quimioterapia pelas veias, a jornalista coloca uma música para ouvir.

“Fico tentando mentalizar que aquele medicamento está passando pelo meu corpo e que, sobretudo, está levando embora o que eu quero que vá.”

Recado para o recém-diagnosticado
Pedi para Lilian mandar um recado para quem acabou de receber o impacto do diagnóstico do câncer. “Sim, é péssimo, é ruim. (…) mas é importante não se perder na dor. E ir buscando ajuda se for necessária. Fazer o melhor pra si mesmo. Mas se acolher. O momento do diagnóstico é muito difícil. Se acolher é importante.”

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