ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Corujão tem idoso na madrugada e exame sem reavaliação médica

Pacientes reclamam de procedimentos marcados em horário em que não podiam voltar para casa com transporte público

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2017 | 22h23

SÃO PAULO - Enquanto conta sua história, o aposentado Elzo Batista de Oliveira, de 76 anos, toma fôlego diversas vezes. Não consegue falar muitas frases seguidas sem sentir cansaço e um pouco de falta de ar. Com problema pulmonar crônico que se agravou nos últimos meses, ele teve a indicação médica de uma tomografia do pulmão, mas estava na lista de espera do exame havia quatro meses. Foi um dos primeiros pacientes a ser chamado para o programa Corujão da Saúde, mutirão da gestão João Doria (PSDB) iniciado na terça-feira, 10, que promete acabar, em três meses, com uma fila de cerca de 485 mil pacientes.

A insatisfação do idoso ficou por conta do horário do exame. Embora o prefeito tenha prometido que priorizaria as marcações apenas no período da noite, entre 20h e meia-noite, quando ainda há transporte público e maior movimento de pessoas, seu Elzo foi agendado para a 1h20 no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na Bela Vista, a cerca de 20 quilômetros de sua casa, no Jardim João 23, extremo da zona oeste. Para chegar lá, o idoso precisou pegar ônibus e metrô, além de caminhar mais de um quilômetro.

"Acho que a Prefeitura devia olhar a idade das pessoas quando for marcar os exames para não expor um idoso a ficar na rua nesse horário, né?", reclama. Seu Elzo saiu de casa com antecedência para poder pegar o metrô e chegou ao hospital por volta da 0h20. Ele queria esperar até as 4h40 a reabertura da estação para retornar para casa, mas a filha, que o acompanhava, achou que seria "judiar demais" do pai. "Instalei o aplicativo no celular dele, mas ele não sabe mexer e então eu vim junto para voltarmos de Uber", conta ela, a analista jurídica Érica de Souza Oliveira, de 36 anos.

Assim como seu Elzo, muitos pacientes relataram dificuldades para chegar ao local do exame agendado na madrugada. A empregada doméstica Giracema Florinda de Sousa, de 38 anos, tinha exame marcado para as 2h22, mas decidiu sair de casa quatro horas antes por medo da violência. "Moro em um bairro muito perigoso, não ia ter coragem de sair de madrugada. Mesmo que tivesse uma linha de ônibus noturna, como está prometendo o prefeito, como fica o caminho que eu tenho que andar do ponto até em casa?", questiona.

Sem dinheiro para o Uber, Giracema decidiu esperar, ao lado da filha de 12 anos, o metrô reabrir, mas teve a sorte de conhecer na sala de espera do hospital outra paciente que morava na mesma região e tinha ido de carro. "Ia esperar, mas consegui uma carona", comemorou.

Além do horário, chamou a atenção da paciente ter tido o exame agendado sem antes passar por reavaliação médica. Para os casos em que o paciente está aguardando exame há mais de seis meses, a gestão Doria prometeu uma nova consulta médica antes do agendamento. Giracema aguardava há um ano e sete meses.

"Eu nem lembrava mais desse pedido médico. Se fosse para morrer, já tinha morrido. E se fosse para recusar esse horário de madrugada, era capaz de ser mais um ano e meio de espera. Então resolvi aceitar. Era pegar ou largar", comenta ela, que tem uma mancha no pulmão e precisa do exame para o diagnóstico do problema.

Situação similar à da aposentada Maria José Andrade, de 69 anos, que esperava o exame há um ano. "Tenho tonturas, barulhos no ouvido, esquecimentos. Todo esse tempo convivendo com isso sem saber o que tenho", diz ela, que também não passou por reavaliação.

Apesar das dificuldades, a maioria dos pacientes disse preferir fazer logo o exame - mesmo  na madrugada - a continuar na lista de espera. "Quando ligaram e disseram o horário, eu estranhei, mas depois me disseram que era o Corujão. Acho que foi uma boa essa ideia porque, assim como eu, tem muita gente esperando", diz a costureira Vera Lúcia Conceição da Silva Faim, de 57 anos, também moradora do Jardim Paulo 6º e responsável por dar a carona para Giracema.

"Tem tanta gente da mesma região que acho que a prefeitura poderia colocar uma van para fazer esse trajeto", sugere a filha de seu Elzo.

A Prefeitura de São Paulo informou que cerca de 160 exames foram ofertados nos três hospitais (Oswaldo Cruz, HCor e Sírio Libanês). "Somente o Hospital Oswaldo Cruz está agendando pacientes em horários na madrugada no momento", diz a nota.

A Secretaria de Saúde disse ainda que vai reforçar a orientação nas 675 unidades municipais responsáveis pelo agendamento para que priorizem os pacientes em fila entre 1 e 6 meses.

"Em relação ao transporte, a SPTrans está monitorando as unidades hospitalares para verificar se as linhas de ônibus atendem as áreas e quais os horários. A partir do estudo, medidas para o transporte poderão ser implementadas, por exemplo, novas linhas noturnas durante o período do programa", diz ainda a nota. 

 

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