Gerard Julien/ AFP
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11 perguntas e respostas sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina

Entenda os riscos, funcionalidades, efeitos e contraindicações da cloroquina e da hidroxicloroquina, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, que foi diagnosticado com a doença

João Ker, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 13h04
Atualizado 09 de julho de 2020 | 15h54

Defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, que foi diagnosticado com o novo coronavírus, a cloroquina é tema de discussão em todo o mundo.  Bolsonaro disse que já tomou o medicamento, mesmo sem que ele tenha sua eficácia cientificamente comprovada e tenha riscos para a saúde no uso. Em maio, o Ministério da Saúde publicou um documento que permite o uso da cloroquina, mesmo em estágios iniciais da doença, em pacientes infectados pelo novo coronavírus no sistema público de saúde. Ao todo, o País já tem quase 67 mil mortes e 1.674.655 casos confirmados da doença.

Nos EUA, a Food and Drugs Administration (FDA), agência reguladora equivalente à Anvisa brasileira, também já revogou a autorização do uso emergencial da cloroquina. E a OMS também suspendeu estudos com o uso do medicamento. 

O Estadão reúne neste material a composição das drogas e os riscos e as indicações da cloroquina e da hidroxicloroquina aos pacientes com coronavírius.

1) O que é a cloroquina?

A cloroquina é um medicamento sintetizado a partir do estudo da ação dos alcalóides contra alguma doenças, como a malária

2) Como a cloroquina age no organismo?

"A cloroquina e a hidroxicloroquina fazem um verdadeiro passeio no corpo humano, resultando em características farmacocinéticas complexas", explica Adriano Andricopulo, professor titular da Universidade de São Paulo e diretor executivo da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp). Na atividade antimalárica, que foi o primeiro uso indicado da cloroquina, ela tem relação com o acúmulo da substância dentro do vacúolo digestivo do protozoário que causa a doença. Muitas vezes, esse parasita infecta as hemácias (glóbulos vermelhos do sangue) e se alimenta da hemoglobina. O grupo m, uma parte da molécula da hemoglobina, é tóxico para o parasita, que tem mecanismos para transformar isso em uma substância não-tóxica.

"A Cloroquina, no tratamento da malária, bloqueia esses mecanismos de proteção do parasita, fazendo com que ele acumule substâncias tóxicas e morra", explica Ana Paula Herrmann, professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Entretanto, ela observa que essa ação também pode ser danosa ao organismo do paciente. "Ao mesmo tempo, ela se acumula em compartimentos das nossas células e em diversos locais do nosso organismo."

Já nas doenças autoimunes, a ação da cloroquina tem a ver com a inibição de vias de estabilização inflamatórias, que dependem dos ambientes ácidos de alguns compartimentos intracelulares, onde a cloroquina vai se acumular. Esses acúmulos, Ana Paula explica, também acontecem em lugares indesejados, como o coração. "A cloroquina e a hidroxicloroquina acabam interferindo com as propriedades elétricas das células cardíacas e isso pode predispor arritmias cardíacas que são fatais. Também pode acumular nos olhos, levando à cegueira; na orelha interna, causando zumbido; e em vários outros lugares. Quanto mais tempo ela for tomada, mais ela se acumula no organismo."

3) Qual é a composição da cloroquina?

Quimicamente, a cloroquina (CQ) e a hidroxicloroquina (HCQ) pertencem à classe das 4-aminoquinodinas. Elas possuem estrutura central aromática comum, com um cloro na posição 7, ligada às respectivas cadeias laterais básicas. A forma molecular da cloroquina é: C18H26CIN3, com massa molar de 319,9 g/mol. Já a fórmula da hidroxicloroquina é , com massa molar de 335,9 g/mol.

A CQ e a HCQ são administradas como difosfato e sulfato, respectivamente, em suas formas racêmicas, ou seja, em misturas equimolares de seus respectivos enantiômeros, R e S (Figura 1). 

A forma como esses medicamentos são absorvidos no corpo do paciente, entretanto, varia de acordo com uma série de proteínas e mecanismo presentes em cada organismo. "A eficácia, segurança e interações medicamentosas dessas substâncias estão diretamente ligadas às suas estruturas químicas e ao metabolismo estereosseletivo mediado pelas enzimas do citocromo P450", explica o professor Andricopulo.

4) Quais os efeitos colaterais da cloroquina?

"Existe uma dose-limite para o uso da cloroquina e, acima disso, ela pode ser uma substância perigosa", observa Gildo Girotto, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas. Alguns dos efeitos colaterais já observados em pacientes que tomaram a cloroquina incluem retinopatia, que pode levar à hemorragia e vazamento de líquido da retina; a neuropatia, podendo causar dor, formigamento e dormência devido a danos nos nervos do corpo; a miopatia, resultando em fraqueza muscular; e alterações cardíacas graves

5) O que os médicos dizem sobre a cloroquina?

Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde e a Federação Nacional dos Farmacêuticos já apresentou ação no Supremo Tribunal Federal cobrando a suspensão do protocolo elaborado pelo Ministério da Saúde. No texto, as duas entidades afirmam que a orientação do governo é baseada em dois estudos iniciais que já foram descartados por não apresentarem eficácia contra a covid-19. O Conselho Nacional de Saúde também havia pedido a suspensão dos medicamentos no tratamento em pacientes com sintomas leves da doença. 

6) O que dizem as instituições médicas sobre a droga?

O Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina no tratamento de pacientes da covid-19. Entretanto, a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira publicaram documento conjunto com diretrizes para o enfrentamento da pandemia e se posicionaram contrárias ao uso do medicamento como tratamento de rotina da doença.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também destacou que não há eficácia comprovada do medicamento contra a covid-19 e alertou para a gravidade de seus efeitos colaterais. A OMS já suspendeu estudos com a substância.

7) O que prega o governo brasileiro sobre a cloroquina?

Em maio, o Ministério da Saúde passou a recomendar a cloroquina para o tratamento de todos os pacientes com a covid-19, desde os primeiros sinais da doença. "A prescrição de todo e qualquer medicamento é prerrogativa do médico", informa o texto. A decisão alerta para a necessidade de confirmação laboratorial e radiológica antes do tratamento. Inicialmente, o documento do ministério não estava assinado por nenhum especialista da área. O presidente Jair Bolsonaro, diagnosticado com a doença, disse que já tomou o remédio.

8) Antes da covid-19, quem usava a cloroquina e para quê?

Até então, as indicações aprovadas pelas principais agências reguladoras mundiais (FDA, dos Estados Unidos; EMA, da Europa; e Anvisa) para o uso da cloroquina e para hidroxicloroquina eram apenas para o combate à malária e doenças autoimunes, como artrite reumatóide e lúpus

9) Quem não pode usar a cloroquina e por quê?

Girotto explica que a principal contra-indicação da cloroquina é para pacientes com histórico de problemas cardíacos. "Ela pode agravar esse quadro ou causar um ataque cardíaco em quem já tem essa propensão", observa. Em nota, a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas também aponta que o medicamento não é recomendado para pacientes com epilepsias, doenças hepáticas, distúrbios gastrointestinais, neurológicos e sanguíneos, ou com psioríase.

10) Em quais remédios há cloroquina?

A hidroxicloroquina é encontrada como sulfato de hidroxicloroquina (Reuquinol), da Aspen Farmacêutica. "Ela praticamente domina o mercado desse medicamento no Brasil", observa Andricopulo. Já a cloroquina é encontrada como disfosfato de cloroquina (Quinacris), do laboratório Cristália.

11) Cloroquina aumenta o risco de morte?

Em meados de abril, um grupo de cientistas brasileiros de Manaus precisou interromper um estudo feito com aplicação de altas doses de cloroquina em pacientes de covid-19 após alguns deles apresentarem ritmo cardíaco irregular, o que aumenta risco de arritmia cardíaca potencialmente fatal.

Os pacientes foram separados em dois grupos, um que recebia uma dose mais alta e outro, uma mais baixa. Dos 81 pacientes pesquisados, 11 morreram apenas seis dias após o início do tratamento, o que levou ao fim precoce da pesquisa. Após 13 dias, 16 pacientes que receberam a dose mais alta e seis que receberam a mais baixa haviam morrido. Segundo o líder do estudo, o infectologista Marcus Lacerda, a principal conclusão é que doses mais altas do medicamento são “muito tóxicas e matam mais pacientes.” A pesquisa foi publicada definitivamente em 24 de abril na revista da Associação Médica Americana (Jama).

Outro estudo, publicado em 22 de maio na revista científica The Lancet, foi cercado de controvérsias. Os pesquisadores utilizaram uma base de dados da empresa americana Surgisphere Corporation com mais de 96 mil pacientes e, a partir deles, concluíram que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em infectados com o novo coronavírus aumentava o risco de arritmia e morte. Três dos autores da pesquisa, no entanto, vieram a público no início de junho para afirmar que não poderiam garantir a veracidade dos dados colhidos, já que a empresa não disponibilizaria todas as informações usadas no estudo para reavaliação.

Estudos sobre a eficácia da cloroquina no tratamento à covid-19 continuam, mas muitos deles já questionam o uso do medicamento, inclusive afirmando que pode não trazer nenhum efeito prático, seja positivo, seja negativo.

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