REUTERS/Axel Schmidt
REUTERS/Axel Schmidt

10 semanas de isolamento podem ‘esmagar’ coronavírus, defende revista médica dos EUA

Em editorial, New England Journal of Medicine propõe seis medidas para conter a covid-19 nos EUA que podem servir também ao Brasil, como testagem em massa, mais pesquisas e ações coordenadas

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 19h02

Enquanto governantes brasileiros discutem formas de gradualmente liberar a população do isolamento como forma de conter o avanço do coronavírus, uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo, o New England Journal of Medicine, publicou nesta quinta-feira, 23, um editorial defendendo que são necessárias pelo menos 10 semanas de trabalho intenso para conseguir parar a doença.

O texto, assinado pelo médico Harvey Fineberg, especialista em políticas de saúde,  defende, além de medidas de isolamento, também várias ações de organização do comando da saúde, testagem em massa, pesquisas e proteção aos profissionais de saúde para conseguir parar a doença. Uma das estratégias é dividir a população em grupos de infectados (casos graves e leves), casos presumidos, e pessoas expostas, por exemplo, e tratá-las ou isolá-las rigorosamente.

Fineberg, ligado à fundação Gordon and Betty Moore e ao Comitê Permanente da Academia Nacional sobre Doenças Infecciosas Emergentes, analisa no editorial a situação dos Estados Unidos, mas as sugestões poderiam ser aplicadas também ao Brasil. 

Ele lista seis medidas não só para achatar a curva de casos, mas para “esmagá-la”, como diz. “A maioria das análises de opções pressupõe que a pandemia deve ocorrer por um período de muitos meses e a recuperação econômica levar ainda mais tempo. No entanto, como diriam os economistas, existe uma opção dominante, que limita simultaneamente as fatalidades e coloca a economia em marcha novamente de maneira sustentável”, escreve. 

Para o especialista, com “inteligência suficiente sobre o inimigo: onde o vírus se esconde, a rapidez com que ele se move, onde é mais ameaçador e quais são suas vulnerabilidades”, é possível começar a reenergizar a economia sem colocar vidas adicionais em risco. Tudo isso num período de dez semanas em que haja uma “campanha forte e focada para erradicar a covid-19”. Ele defende que a China fez isso em Wuhan. 

A receita de Fineberg envolve medidas como estabelecer um comando unificado do combate à epidemia nos Estados Unidos – tema pelo qual Donald Trump tem sido criticado –; oferecer milhões de testes de diagnóstico; fornecer aos profissionais de saúde EPI e equipar hospitais para atender a um aumento de pacientes gravemente doentes; inspirar e mobilizar o público e aprender enquanto se realiza pesquisas fundamentais em tempo real.

A sugestão talvez mais inovadora do pesquisador é que se diferencie a população em cinco grupos e tratá-los de acordo. “Primeiro precisamos saber quem está infectado; segundo, quem se presume estar infectado (pessoas com sintomas consistentes com a infecção que inicialmente tiveram teste negativo); terceiro, quem foi exposto; quarto, quem não se sabe se foi exposto ou infectado; e quinto, quem se recuperou da infecção e está imune”, defende Fineberg.

Com essa definição, entra a segunda etapa: “Hospitalizar aqueles com doença grave ou de alto risco. Criar enfermarias em centros de convenções vazios, por exemplo, para cuidar de pessoas com doença leve ou moderada e com baixo risco”, enumera. Segundo ele, o isolamento de todos os pacientes mais leves em enfermaria diminuirá a transmissão aos familiares. 

Para os expostos, ele recomenda que se convertam hotéis agora vazios em centros de quarentena para abrigá-los e separá-los da população em geral por duas semanas. Esse tipo de quarentena, diz, será prático até que a epidemia tenha explodido em uma cidade ou região específica. Por fim, ser capaz de identificar os que foram infectados e estão imunes requer a ofertas de testes validados para detectar anticorpos. “Isso seria um divisor de águas no reinício de partes da economia com mais rapidez e segurança”, diz.

“Se persistirmos com meias medidas contra o coronavírus, corremos o risco de sobrecarregar a economia com um fardo que seria evitável a longo prazo de consumidores ansiosos, doenças, custos médicos mais altos e atividades comerciais restritas”, afirma.

“Em vez de tropeçar em uma série de inícios e interrupções e meias medidas, tanto na área da saúde quanto na econômica, devemos elaborar uma estratégia para derrotar o coronavírus e abrir caminho para o renascimento econômico”, defende.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.