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14h de espera: o dia de um suspeito de covid-19 na rede pública de saúde

Ambulante chegou a esperar quatro horas por uma ambulância para fazer um percurso que ia de uma esquina à outra

João Prata, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 13h47

O ambulante Gileno Joaquim de Araújo, 57 anos, precisou aguardar quatro horas por uma ambulância para fazer um percurso que ia de uma esquina a outra. Foram 240 minutos de espera para percorrer 140 metros, do posto de saúde Vicente Messiano até o Hospital Antônio Giglio, em Osasco. Do momento que procurou atendimento médico até sair o laudo do exame, foram quase 14h de espera.

Gileno e sua esposa, Eliud, 56 anos, sentiram alguns dos sintomas do coronavírus na última semana. Não eram casos grave. Eliud havia perdido o olfato e sentia dores no corpo. "A doutora ficou até brava comigo. Pediu que voltasse somente se tivesse febre e falta de ar". Gileno estava com pressão alta, 18 por 10. Foi medicado e orientado a voltar para casa.

No dia seguinte, somente ele retornou para medir a pressão. Chegou 12h15 no Pronto Socorro Rochadale, em Osasco, mas a máquina de raio-x estava quebrada. Foi para a Upa Vicente Messiano, no centro da cidade. Por volta das 17h, soube que o exame detectou um pequeno inchaço do pulmão. Teria de ir ao hospital vizinho realizar a tomografia. Tentou ir a pé, mas foi impedido pelos plantonistas. Eliud, aflita em casa, recebia as atualizações do marido pelo whatsapp.

"Ai, Liud, já falei um monte aqui. Eles disseram que não podem fazer nada porque é o sistema. Disse para eles que podia ir a pé. Não sei que sistema louco é esse que não me deixa andar um quarteirão. Só pode ir na ambulância. Tenho que esperar. Não sei que horas vou sair daqui", disse Gileno pelo áudio do aplicativo.

Eliud e Gileno cumprem há dois meses a quarentena, saem apenas para fazer compras. São minoria no bairro.  Vivem de uma pequena reserva do comércio de sandálias de couro e dos inúmeros afazeres da esposa, que vende bolos, corta cabelo, costura vestidos e, agora, máscaras. "No verão é quando vendemos melhor e garantimos uma reserva para o inverno". O casal trabalha junto na rua. Antes da pandemia montavam diariamente a barraca de sandálias na calçada, no centro de Osasco, em frente ao Armarinho Fernandes.

Eliud é também ativista e trabalha junto a comunidades de Osasco. Tem dois perfis no Facebook, é figura conhecida no Jardim Rochdale, na periferia. A infância difícil fez dela essa batalhadora para melhorar a vida dos outros. Eliud perdeu a mãe atropelada quando tinha nove anos. O pai abandonou ela e outros seis irmãos. Foram morar na rua. "Aprendi a ler com as placas de trânsito."

Pouco depois foi adotada. Começou a trabalhar com 12 anos, em uma fábrica de costura. Há 28 anos se apaixonou por Gileno e se casaram. Os dois já tinham filhos de outro relacionamento. Fábio e Rodrigo. Ainda ajudaram na criação de dois sobrinhos depois que a irmã faleceu. Hoje vivem só o casal em um apartamento do programa Minha Casa Minha Vida. Cuidam do Enzolino, um Yorkshire de quatro anos.

Enquanto o marido aguardava os exames, Eliud tentava baixar o aplicativo da Caixa para poder receber o benefício de R$ 600 do governo. Só ela foi aprovada. Gileno já recebe 40% de um salário mínimo por ter o movimento dos braços comprometidos devido a um acidente de trabalho. Quando tinha 15 anos, caiu do alto de um poste. Ele nasceu na Bahia, em Caculé, mas não gosta de lembrar do passado.

"Estou preocupada com meu marido lá na Upa. Está o dia todo lá, sentado, esperando. No dia anterior fomos de máscara e luvas, mas tinha muita gente sem nenhum equipamento de proteção. Agora não atende o celular." Eliud tomou analgésicos para ver se melhorava as dores no corpo. Mas seguia sem olfato. "Passo removedor na casa, cândida e não sinto nada."

Os dois contam os dias para voltar à rua, pois é onde ganham a vida. "Tô achando que vai demorar, viu? Aqui na minha região, no condomínio onde moro, nas comunidades, tem um monte de boteco aberto. As crianças brincam na rua como se não estivesse acontecendo nada."

Gileno enviou nova mensagem para a esposa por volta das 19h. "Sei que não estou legal, mas fazer o que? Tenho que esperar aqui", escreveu. A ambulância chegou 21h30 e levou Gileno para fazer a tomografia no Hospital Antônio Giglio.

Pouco depois das 22h já estava de volta para a UPA aguardando um médico. "Preciso esperar o laudo sair para ir para casa. É um problema leve me disseram, agora só preciso do laudo para o médico passar o medicamento correto", avisou Gileno pelo whatsapp.

Gileno foi liberado à 1h40 da manhã. No dia seguinte começou a tomar Azidromicina, antibiótico usado no tratamento para diversas infecções bacterianas. Nem ele nem a esposa fizeram o teste para saber se de fato estavam com covid-19. "Disseram que não tinha teste em Osasco", encerrou Eliud.

Procurada, a secretaria de saúde de Osasco não se posicionou sobre o assunto até a publicação da reportagem.

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