James Gathany/CDC/Reuters
James Gathany/CDC/Reuters

1ª vacina contra malária ganha sinal verde de agência europeia

OMS, porém, ainda vai avaliar aplicação da Mosquirix antes de liberá-la nos sistemas de saúde; objetivo é utilizá-la na África

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

24 Julho 2015 | 07h23

GENEBRA - A primeira vacina contra a malária ganha o sinal verde das autoridades sanitárias. Depois de 30 anos de pesquisas, o produto que pode revolucionar o combate à doença recebeu nesta sexta-feira,24, uma indicação positiva da Agência Europeia de Remédios, garantindo a segurança e eficiência da vacina. Mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda vai avaliará sua aplicação, já que a taxa de imunização baixa do produto significa que sérios obstáculos ainda possam existir para a sua introdução nos sistemas de saúde. 

A vacina Mosquirix é produzida pela GSK e tem como meta seu uso na África. Sua aprovação é considerada como um passo fundamental para o desenvolvimento de outros produtos que possam ser usados em outras partes do mundo, incluindo a Amazônia brasileira. 

No total, a OMS estima que 584 mil pessoas morram por ano por causa da malária, com grande parte das vítimas sendo crianças africanas. "Esse é um momento único e um sonho para uma equipe que tem trabalho no projeto por três décadas", declarou Ripley Ballou, chefe de pesquisas de vacinas na GSK. 

A empresa não revelou o preço do produto que será colocado no mercado. Mas prometeu que os valores não serão um obstáculo e que a GSK não venderá o produto com fins de lucro. 

Por enquanto, a eficácia da nova vacina varia de 25% a 50% das pessoas que sejam beneficiadas pelas doses e estrangeiros que viagem para o continente africano não serão imunizados. Segundo os estudos, o maior impacto promete ser entre crianças de cinco a 17 meses que recebam três doses da vacina, além de uma quarta dose 20 meses depois. 

Dúvidas. Se o anúncio é considerado como uma vitória pela empresa, a OMS alerta que ainda precisa examinar o caso, algo que ocorrerá até 25 de novembro. A vacina não tem a potência que a entidade de saúde em Genebra esperava e, pelos testes, ficou provado que ela praticamente não funciona com recém-nascidos, uma das metas da OMS. 

"Essa é a primeira vez que uma vacina é examinada por uma agência e isso é algo fundamental", disse Gregory Hartl, porta-voz da OMS. Ele alerta, porém, que o sinal verde dos europeus é "apenas uma opinião científica". 

"Vamos agora olhar a questão do ponto de vista da saúde pública. Temos de ver os prós e contras de uma recomendação oficial. Trabalho da OMS está apenas começando agora e, se aprovado, o produto só chegaria ao mercado em 2017", alertou.

Hartl ainda lembrou que a introdução da vacina não pode significar a redução de recursos para programas já existentes de combate à doença e que tem revelado progressos, entre eles o uso de redes para camas e testes de diagnóstico.

O objetivo era de que o produto pudesse entrar no pacote de outras vacinas distribuídas na África e que são dadas com seis, dez e 14 semanas de um bebê, o que não será possível. Os testes mostraram que, no caso da vacina da GSK, ela terá de começar meses depois, o que exigirá uma reorganização dos serviços de saúde em países com sérios problemas de recursos.

Outro desafio é o de garantir que famílias levem suas crianças para vacinação em quatro ocasiões, o que pode representar um outro obstáculo para regiões pobres e áreas sem infraestrutura na África. 

"Há pedidos para que haja uma melhoria", declarou Moncef Slaoui, representante de vacinas da GSK. "Mas devemos esperar por algo melhor ou usar o melhor que já temos?", questionou. 

A empresa já gastou US$ 365 milhões com a vacina desde 1987 e o lançamento promete custar outros US$ 250 milhões. Outros US$ 200 milhões foram garantidos pela Bill & Melinda Gates Foundation, do bilionário Bill Gates, o que permitiu o teste final que começou em 2009. A vacinação de 16 mil crianças pela África permitiu os resultados divulgados nesta sexta-feira.

Ray Chambers, enviado da Organização das Nações Unidas (ONU) para o combate à malária, descreveu a aprovação como "histórica". Mas insinuou que ainda espera um novo produto no futuro. "Isso abre as portas para novos desenvolvimentos para a vacina", disse. 

Para Sir Andrew Witty, CEO da GSK, a vacina pode ajudar governos africanos a reduzir seus gastos com a doença. Em alguns deles, 40% do orçamento da Saúde é destinado para o combate à malária. Pelo mundo, o governo norte-americano estima que a malária custe US$ 12 bilhões por ano em tratamento. 

Mais conteúdo sobre:
MaláriaOMSVacinação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.