FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Adriana Ferraz e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2017 | 03h00

Um censo inédito da população da cracolândia realizada pelo programa estadual de combate ao crack, o Recomeço, e obtido pelo Estado revela que quase 40% dos usuários nunca passaram por uma avaliação de saúde. Isso apesar de um terço deles frequentarem a região há mais de cinco anos e de Estado e Prefeitura possuírem ações voltadas ao tratamento deles há pelo menos dez anos. 

O número de dependentes sem acompanhamento médico pode chegar a 283, tendo em vista a média das contagens de pessoas no fluxo obtida pelo estudo: 709. Aos 45 anos, Adailton Ferreira de Souza faz parte dessa estatística. Ele passa o dia sobre um cobertor na Alameda Cleveland, ao lado da mulher, Otaviana Moreira Campos, de 46, grávida de cinco meses. Os dois são usuários de crack há cerca de três décadas.

"Estou no fluxo há 29 anos", conta Souza, possivelmente um dos frequentadores mais antigos da cracolândia da Luz. A região passou a ser conhecida por reunir usuários da droga no início  da década de 1990. "Nunca fui ao hospital, nunca fiz exame, nada. O pessoal até chama, mas eu não sinto dor no corpo, dor de cabeça, nunca desmaiei, nunca tive tontura. Não preciso, estou bem de saúde", afirma Souza. A mulher afirma só entrar nos postos de atendimento da região  para "pegar água". "Nunca fui para o médico nem precisei fazer pré-natal. E olhe que eu tenho dez filhos", afirma Otaviana.

Coordenado pelo psiquiatra Marcelo Ribeiro e pela psicóloga Clarice Madruga, ambos do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria de Estado da Saúde, o censo ouviu 107 pessoas ao longo de três semanas entre e maio e junho do ano passado. O resultado mostra também que 68% dos dependentes vivem nas ruas, 54% têm filhos menores de idade, 69% estão à procura de ajuda e 31% já sofreram ao menos uma overdose na vida.

"É a primeira vez que se realiza um levantamento sócio-demográfico da cracolândia. Saber o perfil das pessoas que frequentam a área é essencial para operacionarmos melhor nossas ações", diz Ribeiro, que é diretor do Cratod. 

As entrevistas foram feitas de forma aleatória. Clarice explica que não houve qualquer tipo de pré-seleção. "Abordamos quem estava passando no perímetro determinado. Mas excluímos quem estava no pico do efeito da droga. Há margem de erro, é claro, mas acreditamos que essa é a melhor maneira de colher as informações de que precisamos para aprimorar as políticas públicas direcionadas a esse público", afirma.

Aplicado por psicólogos e enfermeiros, os questionários demandavam de dez a 30 minutos de atenção dos dependentes. A pesquisadora afirma que com os resultados será possível definir metas de atendimento e novos padrões de abordagem, focados no tratamento e não apenas em ações de redução de danos. 

"A pesquisa mostra que mais da metade, 56%, estão dispostos a largar o crack. É um índice alto, que me surpreendeu. Temos de dar respostas a essas pessoas", diz Clarice. Para Ribeiro, a responsabilidade do poder público agora aumenta. "Com o censo, passamos a saber de fato o que sempre imaginamos de forma empírica. O crack não mata sozinho."

Perfil. No universo dos dependentes que formam a cracolândia, 79,4% são homens, 16,8% são mulheres e 3,7% se declaram transexuais. A maioria não trabalha, passou a morar nas ruas em função do vício, não terminou o ensino fundamental e tem origem no Estado - 42% são da capital.

Roseli Ferreira da Silva, de 44 anos, é usuária de crack há dois anos e foi expulsa da casa onde morava, no Jardim Antártica, zona norte, durante o período do Natal passado. Desde então, mora na cracolândia. "Não consigo parar mais. Ficar na rua é horrível, não tem onde tomar banho nem lugar para ficar quando chove, mas não tenho para onde ir. Preciso de ajuda, pelo menos para ter um lugar para dormir", pede.

Para o secretário estadual de Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, os dados levantados pela pesquisa indicam que as políticas públicas falharam, apesar de todos os recursos estaduais e municipais empregados na região nos últimos anos. 

"O número de pessoas que nunca passaram por uma consulta médica é muito alto, assim como é alto o tempo de permanência na cracolândia. Estudos mostram que após um ano ali o usuário cria vínculo, passa a participar de uma rede de proteção que aumenta a sua resistência e o distancia ainda mais da família e da adesão a um tratamento", diz. 

Segundo Pesaro, a pesquisa só reafirma a necessidade de se aprimorar as abordagens realizadas pelos agentes sociais. "O novo programa que estamos desenhando em parceria com a Prefeitura (Redenção) vai focar neste aspecto. Vamos criar um padrão para as abordagens. A meta será atingir 100% da população, não apenas 60%, como ocorre hoje. Os agentes terão de ser persistentes. Os usuários precisam chegar aos serviços de saúde, que existem e funcionam."

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População da cracolândia sofre com sífilis, tuberculose, hepatite e aids

'Até hoje a gente trata o crack como se ele fosse um problema de polícia. Não, é problema de saúde pública. A sífilis é mais grave que o zika vírus", afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina

Adriana Ferraz e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2017 | 12h36

O censo da cracolândia ainda confirma o alerta dado por muitos especialistas em saúde pública: a dependência química não é a única doença enfrentada pelos usuários da região. Segundo a pesquisa, uma a cada cinco pessoas da cracolândia já contraiu sífilis, que representa perigo especial para gestantes e bebês. A infecção pode provocar abortos ou algum tipo de má formação no feto, como alterações ósseas, cerebrais e cegueira. Tuberculose, hepatite e aids são outras doenças associadas muito presentes na população da área.

Outro dado aponta que 60,6% dos dependentes já trocaram dinheiro por sexo - e, segundo especialistas, a relação sexual é uma das principais maneiras de transmitir as doenças registradas entre os moradores e frequentadores da cracolândia - e outros 31% já tentaram se matar. 

"Até hoje a gente trata o crack como se ele fosse um problema de polícia. Não, é problema de saúde pública. A sífilis é mais grave que o zika vírus", afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina. "A mulher que a contrai terá filhos com sífilis congênita, doença que compromete todo o desenvolvimento do bebê. Estima-se que em 2017 o Brasil registre cerca de 20 mil novos casos. É muito grave isso, pois estamos falando de uma doença que tem diagnóstico e tratamento baratos."

Para Vecina, os dados revelados não surpreendem. "Os drogaditos, geralmente, têm baixa imunidade e vivem em condições adversas de vida, o que pode levar, sim, a quadros de tuberculose, por exemplo", diz, referindo-se à taxa de 12,4% levantada pelo censo. De acordo com o professor, a pesquisa é importante porque mostra claramente os outros riscos a que são submetidos os dependentes químicos, e sem que o Estado atente para isso.

Moradora de rua há 17 anos, Maria da Silva (nome fictício), de 45, diz que precisou procurar ajuda após ter uma crise de tosse. "Fui falar com o pessoal de uniforme verde (assistentes sociais) para cuidar da saúde. Eu tenho bronquite", diz. Segundo afirma, também toma precauções ao praticar relações sexuais. "Eu não levo essa vida de rua, de fazer sexo com uma pessoa diferente todo dia. Gosto de ter um marido só para mim."

Secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara afirma que o futuro programa municipal de combate ao crack vai dividir os dependentes da cracolândia de acordo com suas características físicas e mentais, a fim de personalizar o atendimento médico dedicado a eles. "Vamos ter uma classificação específica, que vai nos ajudar na condução das políticas públicas de saúde. A incidência dessas doenças relacionadas mostra que cada um precisa ser avaliado individualmente."

Segundo Pollara, serão 14 grupos distintos. "A ideia é que o Redenção tenha uma estratégia específica para o usuário eventual, outro para o morador de rua com doença mental, para a criança etc. Não dá para tratar todo mundo da mesma forma", completa.

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Adriana Ferraz e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2017 | 12h43

A gestão Doria vai encomendar um novo projeto urbanístico para a cracolândia. Segundo já afirmou o prefeito, a ideia é firmar uma parceria com a iniciativa privada para revitalizar o perímetro hoje dominado por traficantes e usuários, entre a Rua Helvétia, o Largo Coração de Jesus e as Alamedas Piracicaba e Dino Bueno. Esse quadrilátero deverá receber prioridade dentro de uma ação maior, prevista para todo o centro da cidade.

O responsável pelo trabalho será o arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que participou da elaboração do Nova Luz - concessão urbanística projetada pela gestão Serra-Kassab que não vingou. Lançado em 2005, o projeto delegava ao privado o direito de desapropriação, regra questionável do ponto de vista jurídico.

O novo modelo ainda não está definido. A equipe de Doria avalia se propõe uma reformulação completa da Operação Urbana Centro, considerada fracassada, ou investe em projetos menores, específicos, como pequenas concessões urbanísticas. Na última semana, o tucano afirmou que a revitalização urbana da cracolândia é um dos pilares do Redenção, futuro programa de combate ao crack que lançará em dois meses.

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