65% dos que usam remédio contra aids já fizeram sexo sem proteção

65% dos que usam remédio contra aids já fizeram sexo sem proteção

Pesquisa com 500 jovens que utilizam a Profilaxia Pré-Exposição ao vírus HIV no Brasil revela comportamento do grupo

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 03h00

Eles transaram com dois ou mais parceiros no ano anterior sem camisinha, se submeteram à testagem de aids no mesmo período e acham que poderão contrair o vírus HIV nos 12 meses seguintes. É similar o comportamento dos 500 participantes da Pesquisa Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) Brasil, que vai avaliar a aceitação, viabilidade e a melhor forma de oferecer um medicamento para prevenção do HIV no País, o Truvada. O estudo, que ainda está em andamento, é restrito a homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres transexuais.

Os dados preliminares obtidos pelo Estado revelam a vida sexual dos voluntários antes de ingressarem no estudo. Para a maioria, é alta a percepção do risco a que estão sujeitos: o medo de contrair o vírus em curto prazo (12 meses) assusta 53,8% deles. Do total, 65% abriram mão do preservativo em pelo menos duas relações sexuais no período de 12 meses.

Do total de voluntários e abordados, 51,2% mostraram interesse e iniciaram o uso do Truvada. Para Beatriz Grinsztejn, pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), o número é positivo e deve ser comemorado. “A pesquisa não é para todo mundo. É interessante ver também que não foi um oba-oba. Esses que se engajaram mais têm uma percepção maior do risco de contrair o vírus, o que mostra que as pessoas certas estão na pesquisa. Não estaremos jogando dinheiro no lixo”, afirma.

Desde o início da pesquisa no País, em abril do ano passado, os selecionados estão tomando o medicamento, que combina dois antirretrovirais em um único comprimido. No total, 986 indivíduos se voluntariaram ou foram abordados após procurar um centro de referência para fazer o teste de HIV, mas parte deles foi descartada por não se enquadrar nos critérios do estudo. O acompanhamento dos voluntários chega ao fim em maio de 2016, quando os pesquisadores vão divulgar a conclusão do estudo.

A pesquisa é limitada a pessoas sob risco aumentado, soronegativos, livres de comorbidades médicas severas, entre outros critérios. O principal objetivo é avaliar o interesse desse grupo em fazer uso diário do medicamento, oferecer segurança do uso da pesquisa com experimentos que complementam os ensaios clínicos e garantir a eficácia da implementação do Truvada no Sistema Único de Saúde (SUS).

O Ministério da Saúde informou que estuda a possibilidade de incluir a sua distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS) para ser usado de forma preventiva por pessoas que apresentam riscos elevados de infecção. A decisão depende dos resultados dos estudos da PrEP Brasil que o governo federal está financiando.

O infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador médico do projeto PrEP Brasil, em São Paulo, disse que o objetivo do estudo não é comprovar se o medicamento funciona como prevenção - já que estudos internacionais comprovaram que se usado todos os dias tem 99% de eficácia -, mas testar a receptividade dos potenciais usuários e se a população brasileira vai usá-lo da forma correta.

Pesquisadores defendem que o Truvada seja mais um método de prevenção da aids e alertam que o uso precisa estar aliado ao preservativo. “Não é a camisinha sozinha que vai resolver a epidemia. Assim como a testagem de HIV e o tratamento dos infectados, que é muito bom, mas também não resolve o problema. O Truvada também não é capaz de resolver sozinho. A forma mais eficaz de controlar a doença é a prevenção casada com todas essas opções”.

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Mundo consegue frear avanço da aids, diz ONU

Objetivo de conter epidemia e revertê-la é uma das Metas do Milênio, de 2000; intenção, agora, é acabar com a doença até 2030

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 06h30

GENEBRA - A meta que chegou a parecer um sonho há 15 anos - frear e começar a reverter a incidência da aids no mundo - foi atingida. Dados publicados hoje pela Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que 15 milhões de pessoas estão recebendo os coquetéis de combate ao vírus e que o objetivo de acabar com a doença até 2030 pode ser considerada “realista” se investimentos forem feitos.

No ano 2000, a ONU estabeleceu como uma das Metas do Milênio frear e reverter a aids no mundo, objetivo que chegou a ser ridicularizado por líderes e mesmo empresas do setor. Em 2015, os dados apontam que as novas infecções caíram em 35% e as mortes foram reduzidas em 41% em 15 anos. A resposta global ainda evitou 30 milhões de novos casos e 8 milhões de mortes. “O mundo conseguiu parar e reverter a epidemia da aids”, disse Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU. “Agora precisamos nos comprometer a acabar com a epidemia.” 

Os estudos da ONU revelam que o investimento no combate à doença foi um dos mais produtivos em gerações. O levantamento também indica que o mundo está no caminho para atingir a meta de ter US$ 22 bilhões por ano para essa luta. 

“Há 15 anos, existia uma conspiração do silêncio. A aids era uma doença ‘dos outros’ e o tratamento era apenas para os ricos”, disse Michel Sidibe, diretor executivo da Unaids, o programa da ONU contra a aids. “Provamos que isso era errado e hoje temos 15 milhões sob tratamento”, disse. Para ele, quando a meta foi estabelecida, muitos a achavam que seria “impossível”.

Naquele momento, 8,5 mil novos casos eram registrados por dia. Desde então, as infecções caíram de 3,1 milhões para 2 milhões por ano, uma redução de 35%. Se nada tivesse sido feito, esse número teria chegado a 6 milhões em 2014.

Ao todo, 83 países - que representam 83% dos casos - frearam ou reverteram a contaminação, incluindo Índia, Quênia, África do Sul e Zimbábue. Por ano, 520 mil crianças estavam sendo afetadas em 2000. Hoje, essa taxa caiu em 58%.

“Em 2000, a aids era um sentença de morte”, diz a ONU, com 4,3 mil mortes diárias - ou 1,6 milhão de mortes anuais. Hoje, essa taxa caiu para 1,2 milhão de mortes por ano. Hoje, 36,9 milhões de pessoas vivem com o vírus no mundo.

Alerta. Apesar dos resultados divulgados, nem todos compartilham do mesmo otimismo. Para a entidade Médicos sem Fronteiras, atingir 15 milhões de pessoas, de fato, é um “feito importante”. “Mas não podemos perder de vista que mais da metade das pessoas que vivem com aids continuam sem acesso ao tratamento”, disse a entidade.

Segundo Sharonann Lynch, representante da entidade, “certos países contam com uma cobertura de apenas 17% dos pacientes”. Ela ainda critica o fato de que os doadores têm sugerido a redução de recursos para o combate à aids em países em desenvolvimento. “Temos de usar essa oportunidade para dar um golpe na epidemia. Ou corremos o risco de perder o que ganhamos e voltar às mesmas taxas de infecção do passado”, alertou. 

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Brasil foi importante para mundo frear avanço da aids, diz ONU

Informe das Nações Unidas afirma que governo brasileiro foi o 1º a distribuir, gratuitamente, combinação de tratamento para a doença

Paula Felix e Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 06h55

GENEBRA E SÃO PAULO -  A Organização das Nações Unidas (ONU) destaca que parte do sucesso do mundo em combater a aids foi resultado de ter adotado a estratégia que o Brasil havia estabelecido de distribuir o tratamento a todas as pessoas. Hoje, porém, a taxa de avanço nos números brasileiros não seguem o ritmo mundial. 

“O Brasil foi o primeiro país a dar de forma gratuita uma combinação de tratamento de aids. Ao fazer isso, o Brasil desafiou as previsões do Banco Mundial”, indicou o informe. 

O informe também destaca como as ameaças de quebra de patentes e as negociações com empresas garantiram preços mais baixos. Por pessoa, o tratamento custaria US$ 274 no Brasil, ante mais de US$ 2,5 mil se comprado das farmacêuticas.

Coordenador de projetos sociais do Instituto Vida Nova, Américo Nunes, de 53 anos, foi diagnosticado em 1988 e acompanhou a evolução do tratamento. “Com o resultado, falaram que eu ia viver seis meses. Hoje, temos medicamentos avançados, menos efeitos colaterais.”

A consultora de prevenção ao HIV Silvia Almeida, de 51 anos, convive com o vírus desde 1994, quando contraiu do marido, e aposta na educação do filho para que ele não se contamine. “Providencio bastante camisinha para ele e converso sobre isso. Acho que a juventude tem muita liberdade sexual, existe informação, mas os jovens não procuram saber o que é o HIV.” Balanço do Ministério da Saúde deste ano apontou que 45% dos brasileiros não usam camisinha com parceiros casuais.

Os atuais números brasileiros sobre a aids não seguem a mesma tendência mundial. No ano 2000, entre 360 mil a 500 mil brasileiros eram portadores do vírus. Hoje, ele seriam entre 610 mil e 1 milhão de pessoas.

O número de novos casos também aumentou. Em 2000, entre 29 mil e 51 mil pessoas foram contaminadas no País. Em 2014, esse número variou entre 31 mil e 57 mil. O ministério afirma que investe em ações para reduzir os casos.

“Fizemos uma campanha no ano inteiro. Há novas estratégias de prevenção, como o teste. Estamos trabalhando para que as pessoas comecem o tratamento”, diz Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST/Aids do Ministério da Saúde.

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Preconceito prejudica debate sobre aids no Brasil, diz pesquisadora

Enquanto em cidades dos Estados Unidos, 60% decidiu tomar o medicamento; no Brasil, 51,2% se interessou pelo método

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 03h00

A coordenadora nacional da PrEP Brasil, Beatriz Grinsztejn, diz que, em comparação com outros países, falta informação sobre aids no Brasil. Em algumas cidades norte-americanas, por exemplo, onde também são desenvolvidas PrEPs, o engajamento dos voluntários é maior do que em São Paulo e no Rio de Janeiro. Estudos realizados em São Francisco, Miami e Washington mostraram que a decisão de tomar o medicamento foi de 60% - nas cidades brasileiras o envolvimento de participantes é 51,2%.

“Lógico que temos diferenças culturais. A nossa população tem menos informação em relação à PrEP do que outras comunidades”, afirma a infectologista. Segundo ela, a decisão de tomar PrEP em outros locais do mundo é maior entre pessoas que são mais conscientes e têm mais percepção do seu próprio risco. “O que nos traduz que precisamos ter trabalho continuado de educação comunitária para que as pessoas tenham mais conhecimento e possam tomar decisões informadas”, disse Beatriz.

Apesar da aceitação maior em outros países, infectologista e coordenador médico do projeto PrEP Brasil, Ricardo Vasconcelos, lembra que o uso do medicamento como forma de prevenção sofreu preconceito quando foi aprovado para esse uso nos Estados Unidos, em 2012. Alguns grupos previam que o Truvada estimularia o não uso da camisinha, o que poderia levar ao aumento de ocorrências de outras DSTs, como sífilis e gonorreia.

“A ideia não é que se deixe de usar a camisinha, mas nós sabemos que existe um grupo que já não usa o preservativo, apesar das campanhas e da indicação. Se a pessoa não vai usar de maneira alguma, é melhor ter outra opção de prevenção, que é o Truvada, que previne uma doença sem cura, que tem estigma e preconceito”, disse Vasconcelos.

Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto Emílio Ribas, também disse acreditar que na batalha contra a aids todas as armas são válidas. “Se nós queremos trilhar na prevenção contra a doença temos que usar todos os meios. É muito mais caro você tratar uma pessoa com aids, fora as complicações que traz pra vida do indivíduo, do que investir em qualquer medicação.

No Brasil, o medicamento, que é fabricado nos Estados Unidos, chegou a custar R$ 2 mil por 30 comprimidos. Segundo Vasconcelos, no entanto, na última semana uma parceria entre o fabricante e o importador fez com que o preço caísse para R$ 420,15.

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Voluntário que toma Truvada passou a usar camisinha com mais frequência

Voluntários vão tomar medicamento por um ano e são acompanhados, com testes de HIV e avaliações psicológicas

Isabela Palhares, Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 03h00

O programador de jogos Bruno de Souza Berti, de 24 anos, é um dos voluntários da PrepBrasil em São Paulo, desde março deste ano. Para entrar no programa, Berti teve de relatar, em questionário, quantas vezes transou sem camisinha no ano anterior. “Eu respondi que foram três. E logo no começo do programa, aconteceu uma vez de ter relações sem usar preservativo. Mas foi um descuido. Não penso em deixar de usar só porque tomo o medicamento”, afirma.   

Os voluntários permanecem por um ano na pesquisa e são acompanhados periodicamente, com testes de HIV, exames clínicos e avaliações psicológicas. A pesquisa recomenda que os participantes evitem o uso de suplementos protéicos, como whey protein, a ingestão de mais de cinco latinhas de cerveja diárias e o consumo de drogas ilícitas, o que pode alterar a eficácia do medicamento. “Os efeitos colaterais do Truvada são semelhantes a todo remédio que ataca o rim e o fígado”, explica o programador.

As restrições, no entanto, não têm exigido tantos esforços do jovem. Pelo contrário. Após ter passado por uma bateria de exames para começar a tomar o medicamento, Bruno descobriu que estava com pressão alta. O programador tem levado a pesquisa tão a sério que procurou uma nutricionista e se matriculou na academia. Tudo em nome da boa saúde.

“Por incrível que pareça, quando comecei o programa me senti mais motivado a manter minha saúde. Me recomendaram a fazer exercícios e, desde que comecei, passei a me sentir bem melhor”, conta.

Para não se esquecer de tomar o Truvada diariamente, Bruno passou a usar um despertador. Outro hábito adquirido pelo programador foi o de comunicar aos parceiros sexuais que participa da pesquisa. A intenção, explica, é passar mais segurança aos homens com quem se relaciona.

Ele conta que um dos parceiros - curiosamente, um profissional da área da saúde - ficou desconfiado por não conhecer a pesquisa. “Para a maioria não faz tanta diferença, talvez porque eles não conheçam o medicamento. E mesmo que eu fale, a gente usa camisinha, que ainda é o meio mais seguro.” 

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