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A barbárie vai destruir o SUS

Na terça-feira, 20, estava resolvido. O Brasil se comprometeu a comprar 46 milhões de doses da vacina chinesa

Gonzalo Vecina, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2020 | 18h42

Na terça-feira, 20, estava resolvido. O Brasil se comprometeu a comprar 46 milhões de doses da vacina chinesa, 40 milhões de doses da vacina do programa de acesso a vacina coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e 100 milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca. Como sabemos as duas vacinas, a chinesa e a inglesa, necessitam de duas doses para imunizar e supondo que a da OMS também, a partir do início da vacinação seriam imunizados algo como 93 milhões de brasileiros.

Seriam três vacinas todas previamente aprovadas pela Anvisa, seguras e eficazes portanto, e analisadas pelo comitê a ser reconstituído do Plano Nacional de Imunização, o PNI (o que existia foi extinto por decreto do presidente em 2019). A função do comitê, composto por médicos com experiência em imunização, não é avaliar o que a Anvisa analisa, mas se deter em detalhes como grau de imunização que cada vacina confere e como utilizar as vacinas em todo o país de maneira inteligente. Quem seria vacinado primeiro também é uma complexa decisão a ser proposta por esse comitê – que parcelas da população, de que Estados, de acordo com os estágios da epidemia neste Brasil tão desigual. 

Usada de forma inteligente em regiões onde a doença está se manifestando mais ativamente, a vacinação pode ser fundamental para mudar o curso da epidemia. E o país ainda teria que buscar mais vacinas para a população que ficaria sem acesso nessa primeira fase. 

Tanto a Fiocruz quanto o Butantã passarão, a partir do recebimento do 1º lote, a se preparar para envasar a vacina no País e em seguida começar a receber a tecnologia e produzir no Brasil. Portanto, teremos vacinas produzidas no País para terminar o processo de vacinação e, logo a seguir, procurar a atender à demanda por vacinas do mundo.

Estas duas instituições localizadas no Rio e em São Paulo têm quase a mesma idade – são centenárias e foram criadas para combater a situação sanitária do País no início do século passado. E se tornaram respeitadas no mundo todo. O Plano Nacional de Imunizações recebe produtos das duas instituições. A vacina da gripe vem do Butantã, foram 80 milhões de doses neste ano. A da febre amarela, que é inclusive exportada para 70 países, vem da Fiocruz. Elas não são federais ou estaduais, são dos brasileiros. As duas instituições são fundamentais para construir o sucesso do SUS e do Plano de Imunizações, que mudou a face da mortalidade infantil no Brasil.

Não é aceitável de nenhuma maneira que políticos tratem este assunto em um momento de tanto sofrimento para o país como uma rinha pessoal! São mais de 150 mil mortes que não deveriam ter ocorrido e agora temos a possibilidade de enfrentar esse desastre com vacinas e vamos jogar tudo na lata do lixo dos pequenos interesses de homens que não sabem servir sua pátria? Que confundem suas pequenezas frente ao difícil momento que vivemos?

Essas mortes ainda deverão ser analisadas sob a perspectiva de indicar responsabilidades por sua ocorrência. Eram mortes evitáveis e estamos próximos a, por causa desses equívocos idiotas, colocar mais mortes nessa conta macabra.

Isso é inaceitável! O Brasil não pode viver sob essa égide vergonhosa. Os poderes da República devem se manifestar, pois é o povo que está sendo sacrificado!

*FUNDADOR E EX-PRESIDENTE DA ANVISA, EX-SECRETÁRIO MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO E PROFESSOR DO MESTRADO PROFISSIONAL DA EAESP/FGV E DA FSP/USP

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