Denis Farrel - 27/11/2021
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Fernando Reinach
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A Covid dos vacinados

Talvez a variante Omicron provoque uma doença mais leve, mas isso ainda não está comprovado. Essa primeira Covid vai continuar a existir entre as pessoas não vacinadas

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2022 | 05h00

Em 2022 a Covid dos vacinados vai monopolizar nossa atenção. A Covid é a doença que acomete seres humanos quando o corpo é invadido pelo SARS-CoV-2. Ele chega por nossas vias respiratórias, penetra e se reproduz nas células de nossa boca, garganta e nariz. Em seguida ele ataca os pulmões. O resultado é a Covid.

Mas a realidade é que hoje existem duas Covids. Uma é a que ocorre quando o coronavírus encontra um ser humano totalmente despreparado, um organismo que nunca teve contato com o SARS-CoV-2. É a Covid que flagelou a humanidade em 2020 e 2021. Essa Covid não apresenta sintomas em quase metade das pessoas infectadas e apresenta sintomas leves em boa parte das pessoas. Os sintomas graves podem levar à internação e ao entubamento de 10 a 15 % dos infectados. Em geral 0,3 a 2% dos infectados acabam morrendo.

Durante os últimos dois anos surgiram muitas variantes do SARS-CoV-2 e, de forma geral, elas causam uma Covid muito semelhante, com as mesmas taxas de letalidade e internação. O que muda de uma variante para a outra parece ser a facilidade com que elas se instalam no corpo e, portanto, a velocidade com que se espalham pelo planeta. Talvez a variante Omicron provoque uma doença mais leve, mas isso ainda não está comprovado. Essa primeira Covid vai continuar a existir entre as pessoas não vacinadas.

O que vai importar a partir de 2022 é a Covid dos vacinados. Essa é doença que acomete seres humanos já vacinados. A Covid dos vacinados é a doença com a qual teremos que conviver nas próximas décadas. Nesse caso o SARS-CoV-2 vai encontrar seres humanos cujo sistema imune já está previamente preparado para combatê-lo. As pessoas estarão vacinadas com uma, duas ou três doses de diferentes imunizantes, uns melhores que os outros, mas todos capazes de preparar o corpo para a batalha. Por esse motivo a Covid dos vacinados é uma doença muito menos grave que a Covid.

Já sabemos que parte das pessoas vacinadas se torna totalmente resistente ao vírus, nelas o vírus é repelido imediatamente. A fração dos vacinados totalmente resistentes ao vírus provavelmente depende da idade da pessoa, da vacina usada, do número de doses e frequência com que a pessoa tomou doses de reforço. É por isso que o sistema de vacinação tem que incluir crianças e as doses de reforço tem que ser ministradas.

Quando o vírus consegue se instalar em pessoas vacinadas, na grande maioria dos casos a Covid apresenta poucos sintomas, dura pouco e raramente leva à internação. Claro que mortes ainda ocorrem em pessoas acometidas pela Covid dos vacinados, mas os números são muito, muito menores. Apesar de não sabermos ao certo, é provável que a letalidade das variantes do SARS-CoV-2 entre os vacinados seja semelhante ao observado entre pessoas infectadas pelos vírus da influenza. Além da proteção oferecida pelas vacinas, estão chegando ao mercado pílulas, que quando tomadas no início da infecção, diminuem ainda mais a probabilidade de o paciente ser internado.

O número enorme de novas infecções tem nos assustados, mas como mostram os dados da África do Sul, esse número não é acompanhado por um número proporcional de internações e óbitos. Claro que isso pode estressar os sistemas de saúde, mas isso deve diminuir à medida que a vacinação caminha.

Tudo indica que as novas versões das vacinas, a revacinação periódica da população, e os novos medicamentos devem transformar a Covid dos vacinados em mais uma doença respiratória que vai acometer todos os anos um número enorme de pessoas. Mas sem consequências maiores para a maioria de nós. E assim, pelo menos para os vacinados, a Covid vai se tornar mais uma dessas doenças respiratórias que estragam nossas férias e finais de semana.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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