Ari Ferreira/Estadão
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A ‘Cracolândia’ que migrou em busca de recuperação

‘Estado’ acompanha rotina numa das maiores clínicas de reabilitação conveniadas ao SUS, em Itapira, a 200 quilômetros de SP

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 18h51

ITAPIRA - A 200 quilômetros da Cracolândia paulistana, na pacata cidade de Itapira, no interior paulista, cerca de 220 vítimas do crack dividem os mesmos espaços 24 horas por dia, durante meses. Ao contrário do que ocorre nas ruas do centro da capital, a convivência entre os dependentes não se dá para o consumo da droga, mas, sim, para uma tentativa de recuperação.

É naquele município que funciona uma das maiores clínicas de reabilitação conveniadas com a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo: o Instituto Bairral de Psiquiatria. Das 315 vagas reservadas no complexo para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) com qualquer tipo de dependência química, 70% já são ocupadas por usuários de crack, a maioria vinda da Cracolândia.

O Estado viajou até Itapira para conhecer como funciona o tratamento dos dependentes. Os leitos SUS do instituto são divididos em dois tipos de serviço: uma clínica tradicional, mais voltada à desintoxicação e à recuperação, e uma comunidade terapêutica, unidade de internação mais longa que aposta em uma abordagem psicossocial e na reinserção social.

“São 215 leitos na unidade central e 100 na comunidade terapêutica Santa Carlota. Na clínica, recebemos todos os tipos de internação. Na comunidade, só as voluntárias”, diz Nivaldo José Caliman, diretor superintendente do Instituto Bairral.

Em comum, ambas as unidades contam com consultas com psiquiatra, terapia individual e em grupo, atividades esportivas, culturais e espirituais e palestras sobre temas como prevenção de recaídas. Na clínica tradicional, o tempo médio de internação é de 60 dias. Na comunidade, o tratamento costuma durar seis meses.

Contracultura

“A Cracolândia representa uma cultura de vida para eles, com rotinas, hierarquias e até termos próprios. O que tentamos fazer é criar uma contracultura para combater isso, para mostrar as possibilidades sem a droga. Alguns pacientes chegam resistentes ou ariscos, mas porque nunca se sentiram respeitados como humanos. Aqui a gente respeita a individualidade de cada um”, diz Mauricio Landre, coordenador da comunidade terapêutica.

Na unidade, em uma fazenda na zona rural, os pacientes vivem em pequenas casas, batizadas com nomes de personalidades que lutaram pela dignidade humana, como Martin Luther King Jr., Chico Xavier e Madre Teresa de Calcutá.

A estratégia terapêutica alia atividades de acolhimento com empoderamento dos dependentes. Logo no início da internação, cada um planta uma árvore com seu nome e passa a ter a responsabilidade de cuidar dela. Também ganham um padrinho lá dentro – um usuário internado há mais tempo responsável por apoiá-lo.

Após as primeiras semanas, os pacientes vão recebendo mais responsabilidades, como ajudar na cozinha, realizar tarefas da fazenda e começar a pensar nas opções que seguirão ao ter alta. São autorizados a sair da clínica para procurar emprego, fazer cursos, visitar familiares e até comer pizza na cidade.

A espiritualidade é uma arma importante no tratamento, mas tem caráter ecumênico. Nas paredes da capela da comunidade há símbolos das 24 principais religiões do mundo. Ao centro do que seria o altar, o quadro é branco, para respeitar a crença daqueles que não seguem nenhuma religião.

A maioria dos pacientes da comunidade já esteve em outras internações tradicionais – mais curtas e para desintoxicação – e buscam a Santa Carlota como uma tentativa de nova abordagem, caso do engraxate Donivaldo de Souza Tavares, de 41 anos. “Tive uma internação de dois meses em 2013, mas após duas semanas voltei a usar droga”, conta. Há oito meses, depois de ficar um ano vivendo nas ruas da Cracolândia, buscou a nova internação na comunidade, de onde deve ter alta em breve. Entre os internos locais, 54% completam o tratamento – o dobro do porcentual médio registrado em outras comunidades conveniadas ao programa Recomeço no Estado.

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Número de internações involuntárias no Recomeço dobra

Programa estadual levou 842 pessoas a clínicas em 2016, ante 435 em 2013, ano em que foi criado

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h24

O número de internações involuntárias feitas na Cracolândia dobrou nos últimos três anos, segundo dados inéditos do Programa Recomeço, da Secretaria Estadual da Saúde. Procedimento feito contra a vontade do paciente, mas a pedido da família, esse tipo de hospitalização levou 842 pessoas a clínicas em 2016, ante 435 em 2013, quando o Recomeço foi iniciado.

Para ser realizada, a internação involuntária exige, além da autorização familiar, laudo médico atestando a necessidade do tratamento. Já nos casos de internação compulsória, o tratamento é determinado pela Justiça após parecer médico.

Apesar do crescimento das internações involuntárias, a maioria dos pacientes da Cracolândia que vai para reabilitação o faz por vontade própria. No ano passado foram 2.080 internações voluntárias. Ao longo dos quatro anos de existência do programa Recomeço, 8.904 pessoas foram internadas por vontade própria, 2.580, involuntariamente e 23, compulsoriamente.

Os números contemplam apenas as hospitalizações para desintoxicação. Além dessas, 4,3 mil pacientes foram encaminhados para comunidades terapêuticas e outros 12,2 mil seguiram para tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (Caps-AD).

Resistência. Quando foi levado a uma unidade de saúde para ser medicado e descobriu que a família havia pedido, na verdade, sua internação, o motorista Roberto Manzano, de 30 anos, ficou agressivo. “Quis partir para cima da minha mãe”, conta ele, internado há um mês e meio em uma clínica para desintoxicação.

Usuário de drogas desde a adolescência, Manzano viu o vício se agravar nos últimos anos, quando começou a usar o chamado mesclado, mistura de crack com maconha. “Eu comecei a ver bichos, pensava muita besteira”, afirma o motorista. “Passei a ter a fixação que minha mulher estava me traindo.”

A companheira de Manzano – mãe de seus três filhos e grávida do quarto – chegou a dar um ultimato ao marido: ou ele buscava ajuda ou o casamento terminaria ali. Não adiantou. Por isso a família teve de interceder. “Cheguei aqui na clínica querendo quebrar a porta, mas agora eu agradeço porque percebi o que a droga estava fazendo comigo”, afirma ele. 

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Do orfanato para 15 anos com o crack

Auxiliar de limpeza relata uma vida ligada à Cracolândia, com tentativas de saída e recaída; após reencontrar a família, ele ainda busca outro destino

Fabiana Cambricoli, Impresso

10 Junho 2017 | 16h37

Aos 32 anos, o auxiliar de limpeza Fernando José Mendes Junior pode dizer que teve quase metade da vida consumida pelo crack. Passou a viver na rua aos 17, após deixar o orfanato onde morava em Sorocaba, no interior de São Paulo. O abrigo para menores havia sido seu lar desde os cinco anos, quando os pais o abandonaram.

Ao sair do orfanato no interior, o jovem se mudou para as ruas da capital e logo se estabeleceu na região da Cracolândia. Ao contrário de outros dependentes químicos, que costumam iniciar o consumo de drogas com substâncias “menos pesadas”, como álcool ou cigarro, Mendes Junior de cara já experimentou o mesclado, mistura de crack com maconha.

A queda foi rápida. O rapaz passou a traficar pequenas quantidades de droga para alimentar o próprio vício. Em uma das vezes, foi pego pela polícia. Ficou um ano e oito meses preso. Foi o único período dos últimos 15 anos que ficou longe da Cracolândia.

“Saí da cadeia sem nada e voltei a usar. Tem gente que pensa que quem vende droga tem dinheiro para ostentar. Isso é para quem é traficante de verdade. Quem é usuário não tem outro objetivo na vida: usa tudo que ganha para consumir mais”, conta.

Em mais de uma década nas ruas, ele aprendeu a baixar a cabeça para os chefes do tráfico, apanhou da polícia e teve de fugir de brigas com outros usuários. “Uma vez estava com quatro pedras na mão e teve um grupo que me cercou querendo me bater para pegar o crack. O cara quando está na fissura pode até matar para conseguir a pedra.”

Oportunidade. Em maio do ano passado, depois de uma sequência de tragédias e abandonos, ele se agarrou a uma esperança: uma equipe de assistentes sociais da Prefeitura que faz atendimento de dependentes da região da Cracolândia conseguiu localizar, no Jabaquara, zona sul, a família de Mendes Junior.

Um encontro entre mãe e filho foi marcado na tenda do extinto Programa De Braços Abertos, na Rua Helvétia, onde, até o mês passado, se concentrava o fluxo de usuários. “Eram 8 horas da manhã e eu já estava lá esperando, ansioso. Ela chegou às 15 horas. Veio ela e minhas três irmãs, uma delas eu nem sabia que existia porque nasceu depois de mim”, conta ele.

Apesar da mágoa por ter sido abandonado, Mendes Junior decidiu voltar a morar com a família, após a mãe explicar que havia sido o pai, já morto, o responsável pela decisão de deixar o menino no orfanato. “Ele chegava em casa fora de si e violento”, disse a mãe a ele.

A euforia por retomar o contato com a família e a esperança de uma vida diferente, porém, duraram pouco. Com crises de abstinência pelo crack após mais de uma década de dependência, Mendes Junior deixou a casa da mãe em janeiro de 2017 e voltou para a Cracolândia em busca da droga.

Em 22 de maio, um dia depois da última operação policial na região, o rapaz cansou novamente do sofrimento das ruas e decidiu se internar. Foi encaminhado para a comunidade terapêutica Santa Carlota, pertencente ao Instituto Bairral, em Itapira. “Pensar em desistir (do tratamento), eu penso todo dia. Mas aí converso com os colegas que passam ou já passaram pelo mesmo que eu estou passando, e um vai dando força para o outro”, diz.

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Ele vivia no ‘fluxo’,vendendo e usando

O analista em microscopia Alan Alexsander Lunardi era apenas um dos dependentes usados pelos chefes do tráfico na Cracolândia para atuar como vendedores diretos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h48

Durante sete meses, o analista em microscopia Alan Alexsander Lunardi, de 43 anos, fez dupla jornada na Cracolândia. Em um turno, trabalhava em uma das barracas da feira livre de drogas na Alameda Dino Bueno. Ao “fim do expediente”, gastava tudo que havia faturado na compra de crack para consumo próprio.

Lunardi era apenas um dos dependentes usados pelos chefes do tráfico local para atuar como vendedores diretos no chamado ‘fluxo’, concentração de usuários de drogas. “Os traficantes forneciam a droga e a barraca, faziam nossa segurança com os olheiros e a gente ficava com 20% de tudo que vendia”, conta.

O analista diz que a barraca funcionava 24 horas por dia com a operação dividida em três turnos – Lunardi fazia o último, das 15 horas à 1 hora. Neste período, chegava a faturar de R$ 3 mil a R$ 4 mil por dia. “Ao final, a gente subia para o quarto de um dos hotéis da região, entregava o dinheiro e a droga que sobrava para o chefe e, se as contas estivessem todas certas, pegávamos nossa parte e eles ainda ofereciam um pouco de droga de brinde”, conta.

Lunardi permaneceu no esquema entre outubro de 2016 e abril de 2017, quando decidiu se internar. Pesou em sua decisão o sucesso de sua primeira internação, em 1998. “Na época, passei nove meses em uma comunidade terapêutica, fiz até estágio como monitor de lá. Depois que saí, fiquei 13 anos limpo, mas, em 2011, não soube lidar com uma separação e recaí”, conta.

A primeira reincidência foi com o álcool. Em seguida, Lunardi passou a consumir crack. “É uma coisa muito bruta você recair depois de tanto tempo livre do vício. Tive vergonha de contar para a minha família e comecei a viajar de um Estado para outro para não ficar perto deles. Foi em uma dessas viagens que entrei no crack.”

Quando voltou para São Paulo, ficou um tempo pedindo dinheiro em cruzamentos da cidade, mas foi convencido por colegas a ir “trabalhar” na feira livre da Cracolândia. “O crack tem um poder hipnótico, ele faz você sair do seu estado de sanidade. Qualquer coisa que você não faria, por uma questão de caráter, você passa a fazer se precisar comprar a droga.”

Alerta. Há dois meses na comunidade terapêutica, ele diz confiar na recuperação. “A bagagem que eu trouxe da primeira internação me faz ver que essa é uma doença e que tenho de estar sempre alerta.”

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Ele lutou para ser retirado das ruas

O motorista Renato Justiniano de Loredo diz que teve tratamento inicialmente negado porque, quando foi pedir para se internar, estava bem vestido

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h52

Se alguns pacientes precisam ser convencidos pela família ou por agentes de saúde a aceitarem sair das ruas, alguns dependentes da Cracolândia tiveram de fazer o contrário: convencer os profissionais do Programa Recomeço que precisavam de internação.

Foi o caso do motorista Renato Justiniano de Loredo, de 65 anos, e do gesseiro Ednei Santos Sales, de 42. Ambos procuraram o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), unidade estadual na Luz, em busca da hospitalização, mas foram inicialmente orientados a fazer tratamento ambulatorial. “Fiquei dois dias na porta do Cratod para conseguir uma vaga”, conta Sales.

Já Loredo diz acreditar que não foi aceito por estar bem vestido. “Eu trabalhava como motorista de manhã e ia para a Cracolândia à noite. No mês passado, decidi me internar e fui ao Cratod de paletó e disseram que meu caso não era de internação. Acho que eles pensam que só precisa de internação quem está com as roupas todas rasgadas e descalço. Mas a gente sabe o que precisa”, reclama ele, que diz ter procurado a Ouvidoria da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo para conseguir o tratamento.

Coordenador do Programa Recomeço, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira afirmou ao Estado que é preciso, de fato, aprimorar os protocolos que definem os critérios para internação. “Essas recusas não são por falta de vaga. Temos 3.400 leitos para dependência química no Estado. Acredito que pode acontecer de alguns médicos optarem pelo tratamento ambulatorial sem considerar tanto a opinião do paciente. Por isso estamos melhorando os protocolos, para que uma avaliação não dependa, por exemplo, da aparência do paciente”, diz.

Transferência. Questionada sobre o caso de Loredo, a secretaria afirmou que não procede a informação de que ele precisou acionar o Ouvidoria. De acordo com a pasta, o paciente foi encaminhado para tratamento clínico em 23 de maio, mas abandonou o processo dois dias depois. Ao retornar ao Cratod em 30 de maio, diz a secretaria, ele foi avaliado novamente e transferido para a comunidade terapêutica Santa Carlota.

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Internação à força piorou situação

Rapaz passou um ano e meio internado compulsoriamente após a mãe solicitar sua hospitalização à Justiça; quando recaiu, passou a prostituir-se para comprar crack

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h55

Enquanto para Prefeitura e alguns especialistas a internação compulsória é a única chance de salvação para dependentes químicos com quadros mais graves, para o cabeleireiro R.C., de 33 anos, ela foi a responsável pelo agravamento do seu vício em crack.

Integrante de uma família de classe média moradora da zona norte de São Paulo, o rapaz passou um ano e meio internado à força após a mãe solicitar sua hospitalização à Justiça. “Eu entendo o lado dela. Estava desesperada, vendo que eu podia ser um risco para minha própria vida, mas aquele tratamento não me ajudou. Saí da clínica em um dia e no dia seguinte eu estava usando droga de novo”, conta.

O cabeleireiro saiu do hospital em 2009. Com o agravamento da dependência nos anos seguintes, passou a prostituir-se para comprar a droga. “Eu usava (crack) para me prostituir e me prostituía para poder usar”, conta ele.

Ao longo do tempo, foi se submetendo a práticas cada vez mais degradantes. “Eu fazia ponto na região do Largo do Arouche, pertinho da Cracolândia. No primeiro programa da noite, eu cobrava R$ 100. Quando chegava no fim, eu aceitava qualquer dinheiro que desse para comprar uma pedra”, afirma.

Em 2015, ele decidiu se internar voluntariamente pela primeira vez. “Fiquei dois meses na comunidade terapêutica, fiz curso, tirei meu diploma de cabeleireiro e saí do meio da prostituição”, relata.

Meses depois, com um emprego em um grande salão da zona norte e em um relacionamento amoroso estável, R.C. diz ter minimizado os riscos do vício ao achar que tinha o controle da situação. “Achei que se eu já tinha conseguido conquistar tudo aquilo e ficar limpo por um tempo, eu ia conseguir usar só um pouquinho sem nenhum problema, só nos dias que eu quisesse. Foi meu erro.”

Oportunidade. O rapaz voltou a usar drogas exageradamente, foi morar na Cracolândia no ano passado, até que, há um mês, decidiu se internar novamente. “Cansei de sofrer. Eu me acabei. Cheguei na clínica com 71 quilos. Estava muito magro. Em poucos dias, já estou com 80 quilos. É uma nova oportunidade para mim.” / F.C.

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Altos e baixos do ‘garçom’ das ruas

Jairo Rosendo de Freitas ficou conhecido por seu trabalho de ambulante nos semáforos de São Paulo; recaiu para as drogas e foi internado por pressão da mãe e da mulher

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 17h01

De vendedor ambulante criativo à recaída no crack. Esse é o resumo dos três últimos anos de Jairo Rosendo de Freitas, de 35 anos, internado há duas semanas no Instituto Bairral, em Itapira, interior de São Paulo.

Usuário de drogas desde os 14 anos, ele vivia um período de estabilidade em 2014. Livre da dependência desde sua última internação, seis meses antes, porém desempregado, decidiu trabalhar como vendedor autônomo, mas de uma forma que chamasse a atenção dos clientes.

Usando camisa branca, calça social e gravata borboleta, Freitas vendia água e amendoim vestido de garçom em semáforos da zona sul de São Paulo. A iniciativa criativa aumentou sua renda e o levou a ser tema de uma reportagem em um grande portal de notícias.

“Estava tudo dando certo na minha vida e eu, então, decidi parar de tomar meus remédios. Só que fiquei mais descontrolado e foi só ter um problema que eu voltei a usar droga”, diz ele, referindo-se ao dia em que uma moto colidiu com o carro que havia acabado de comprar. “Na hora já fiquei nervoso, procurei meus amigos e comecei a beber e a cheirar (cocaína)”, diz.

Experiência. Na época, Freitas já tinha passado por três internações, mas as experiências anteriores não o motivavam a buscar esse tipo de tratamento novamente. “Fiquei em lugares em que não tinha um tratamento de verdade, os pacientes ficavam jogados, até não era seguro, porque tinha alguns que ameaçavam os outros”, diz ele.

Mesmo com o receio de ser encaminhado para uma unidade onde não se adaptasse, Freitas decidiu procurar o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) para buscar uma nova internação. “Eles não queriam me internar, parece que só pegam quem está devastado, mas minha mãe fez uma pressão e eles me mandaram para a clínica”, diz ele, que elogia o local onde está internado hoje. “Aqui tem um projeto de recuperação, a gente não fica abandonado”, conta.

A decisão por uma nova internação foi motivada pela pressão não só da mãe, mas da mulher. “Eu já perdi o meu primeiro casamento por causa do vício, porque ninguém aguenta estar ao lado de uma pessoa com tantos altos e baixos. Não quero perder o segundo casamento e a confiança dos meus filhos”, diz ele. 

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Entenda as diferentes abordagens de tratamento para dependentes químicos

Saiba quais são as linhas consideradas pela literatura médica

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h33

- Ambulatorial

Paciente não fica internado, mas é acompanhado periodicamente em consultas com médicos e psicólogos que definem o melhor projeto terapêutico para cada indivíduo, que pode incluir terapia individual ou em grupo e uso de medicamentos. No SUS, esse tratamento é oferecido nos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (Caps-AD).

- Desintoxicação

Paciente fica internado de um a dois meses para a fase de desintoxicação química, em que recebe cuidados para eventuais problemas físicos decorrentes do vício, como infecções, e medicamentos para diminuir os sintomas da abstinência. Também há atendimento psicológico.

- Comunidade terapêutica

Unidade que busca reproduzir como será a retomada da vida social do dependente. Geralmente prevê internações mais longas, de seis meses, em média, nas quais os pacientes são estimulados, por meio do trabalho e de outras atividades, a reconquistar sua autonomia. Também é nesse período que tentam restabelecer os vínculos familiares.

- Moradia assistida

Indicada principalmente para quem não tem família, é uma espécie de república para ex-usuários de drogas, em que a principal regra é a abstinência. Nela, os usuários ficam livres para sair para trabalhar e estudar e têm a responsabilidade pelos cuidados com a casa.

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