Amy Qin/The New York Times
Amy Qin/The New York Times

A dádiva de se movimentar numa cidade sob quarentena

Motorista de táxi cruza Wuhan, epicentro do coronavírus na China, transportando voluntariamente os moradores infectados pela doença

Amy Qin, The New York Times

07 de fevereiro de 2020 | 08h00

WUHAN, CHINA — Seus dias são longos. São 12 horas cruzando a cidade, buscando remédios e retornando ao hospital. E as ruas estão praticamente vazias uma vez que a cidade está isolada, o transporte público suspenso e veículos particulares estão na maior parte banidos, numa tentativa de conter o coronavírus. Em seu carro azul e branco, Zhang Lei é algo raro que se vê nas ruas de Wuhan.

Em épocas normais, Zhang, de 32 anos, é motorista de táxi em Wuhan, cidade de 11 milhões de habitantes, o epicentro da epidemia. Depois que o governo local isolou a cidade no final do mês passado, Zhang se tornou uma das milhares de pessoas que ofereceu seus serviços para diminuir os problemas de transporte na cidade.

Zhang, usando um uniforme de proteção azul celeste, máscara e óculos quando dirige, não tem permissão para transportar moradores suspeitos de infecção pelo coronavírus. As ambulâncias têm de cuidar disso. 

A maior parte dos passageiros é constituída por pessoas pobres ou idosos que não têm filhos ou cuja família está fora de Wuhan e não podem voltar para casa por causa da quarentena. “É doloroso. Não há ninguém para ajudar essas pessoas”, disse ele.

As viagens grátis são arranjadas por comitês de bairros que normalmente servem como intermediários entre os moradores e o governo local. Nesta atual crise, esses comitês se encarregam de alocar recursos da comunidade e ajudar na coordenação com os hospitais. Há cerca de mil comitês de bairros. Como outros motoristas, Zhang não recebe nenhum pagamento. Ele paga a gasolina do seu próprio bolso, mas confia que o governo acabará liberando subsídios para reembolsá-lo.

Muitos chineses elogiam esses motoristas voluntários por doarem seu tempo e energia para ajudar seus vizinhos. Mas Zhang, que tem um rosto largo e é uma pessoa jovial, não esconde a razão do seu altruísmo.

“Monotonia!”, exclamou, ao ser indagado o motivo para ter se voluntariado para o serviço. Mas rapidamente acrescentou: “Em segundo lugar, servir às pessoas. Todo mundo está engaiolado dentro de casa o dia inteiro, eu tenho de fazer algo para ajudar a sociedade”.

O trabalho é complexo, disse ele. Quatro motoristas trabalham para cada bairro e muitos moradores dizem ser difícil garantir uma corrida. Alguns pacientes mais idosos disseram ter caminhado duas horas para chegar no hospital. Zhang disse que o número de viagens que faz por dia é variado.

Conduzir moradores, incluindo os doentes, pela cidade, implica riscos. Muitos hoje preferem ficar dentro de casa o máximo possível. Um silêncio assustador cobriu esta metrópole outrora vibrante, pontuado ocasionalmente pelo barulho das sirenes das ambulâncias ou um cão latindo.

“Naturalmente, estamos preocupados de sermos também infectados. Nossas famílias ficam preocupadas conosco, não querem que a gente saia de casa”.

Zhang vive com os pais, a mulher e os dois filhos, de três e sete anos de idade. O vilarejo onde cresceu, nos arredores de Wuhan, enviou uma notificação para não voltar ao trabalho porque vive muito próximo do Huanan Seafood Marketn, de onde surgiu o vírus.

Segundo ele, seu bairro tem tomado cuidados extra porque não houve até agora nenhum caso confirmado de coronavírus. “Eu sou a pessoa mais perigosa para o bairro”, disse ele.

Para se proteger contra o vírus ele e outros motoristas tomam banho quando voltam para casa e desinfetam diariamente seu equipamento de proteção e seu carro. Seu patrão lhes forneceu máscaras faciais, embora não sejam da melhor qualidade, ele disse.

Mas Zhang não poupa comentários de que o governo poderia fazer melhor. Como ele, muitos motoristas voluntários afirmam que só receberam o equipamento de proteção e algumas luvas que não se ajustam bem. E que isso não é o pior

“Eles pelo menos poderiam nos oferecer algo para comer. Estamos sempre vendo notícias desta ou daquela doação, mas nós, que trabalhamos na linha de frente, não vemos nada. Só nos alimentamos com macarrão instantâneo todos os dias”. / Tradução de Terezinha Martino

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