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A derrota do encarceramento mental

Paciente com esclerose amiotrófica lateral e eletrodos no cérebro conseguiu se comunicar

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2022 | 05h00

A síndrome do encarceramento é uma das piores coisas que podem acontecer com uma pessoa. Após um derrame, um acidente, ou na esclerose amiotrófica lateral (ALS), a pessoa perde a capacidade de controlar seus movimentos. Apesar de ouvir e ser capaz de enxergar, não consegue se comunicar. Ela continua consciente, mas sua mente está encarcerada, trancada, incomunicável no interior do corpo.

Em muitos pacientes com ALS é um processo gradativo. Antes de ficarem completamente encarceradas se comunicam movendo os olhos, ou com leves movimentos dos dedos. O físico Stephen Hawking era um desses casos. Quando esses movimentos são perdidos ficam incomunicáveis, vivendo isoladas, recebendo os estímulos auditivos e visuais, mas incapazes de transmitir a outro ser humano pensamentos e desejos.

Um desses pacientes, quando ainda conseguia se comunicar por movimentos dos olhos, pediu e autorizou seus médicos a implantar eletrodos diretamente no seu cérebro para tentar, quando ficasse enclausurado, transmitir diretamente seus pensamentos e assim estabelecer algum tipo de comunicação. Assim que ele se tornou incomunicável, os médicos abriram seu crânio e implantaram diretamente na região do córtex cerebral oito eletrodos.

Após a recuperação, o fio que saía da cabeça foi conectado a um equipamento capaz de detectar a atividade dessas oito regiões. Apesar de o sistema funcionar como esperado, durante quase um ano os cientistas pediam ao paciente que ele tivesse os mais diferentes tipos de pensamento (pensa na sua mão fechando, pense num coelho), tentando identificar pensamentos que induzissem um aumento da atividade do cérebro na área monitorada por cada eletrodo. Nada funcionava e os cientistas sequer sabiam se ele ainda estava consciente.

Foi então que tiveram uma ideia brilhante: usando um computador, transformaram os sinais que vinham dos eletrodos em um apito, mais agudo quanto maior fosse a atividade detectada. E esse apito foi tocado para o paciente por um alto-falante. Feito isso pediram que o paciente tentasse alterar o tom do apito, usando seus pensamentos. Ele conseguiu após 40 dias de tentativas. Então foi possível estabelecer uma comunicação. Os pesquisadores combinaram que fariam uma pergunta e o paciente responderia “sim” fazendo o apito soar mais agudo (neurônios mais ativos) ou responderia “não”, diminuindo a intensidade do apito.

Em outras palavras, o paciente aprendeu a controlar esse som. Hoje já consegue usar esse método para se comunicar. É um processo muito lento, pois leva mais de um minuto para transmitir cada letra, mas o paciente já consegue construir frases. Seu primeiro pedido foi para alterarem o apoio da cabeça, depois pediu mais colírio e sopa de beterraba. Atualmente o sistema está sendo melhorado. O encarceramento foi derrotado.

Mais informações: Spelling interface using intracortical signals in a completely locked-in patient enabled via auditory neurofeedback training. Nature Comm. https://doi.org/10.1038/s41467-022-28859-8 2022

*É BIÓLOGO

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