UFRJ/Divulgação
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'A desigualdade social é grave e vai se agravar muito com a epidemia', diz especialista

Roberto Medronho, epidemiologista da UFRJ e especialista em saúde pública, diz que já deveríamos ter hospitais de campanha e tendas de triagem de pacientes montadas

Entrevista com

Roberto Medronho

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 11h00

RIO - Especialista em saúde pública e professor de epidemiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Medronho acredita que já estamos atrasados na adoção de medidas para o combate à epidemia do novo coronavírus. Segundo o especialista, já deveríamos ter hospitais de campanha e tendas de triagem de pacientes montadas.

“A curva (epidêmica) está se inclinando de forma acelerada, não podemos esperar o número de casos explodir para depois termos de correr atrás”, alertou em entrevista ao Estado.

Segundo ele, a desigualdade social do país é um sério agravante. "A desigualdade social do nosso país é o mais grave problema de saúde pública que temos e vai se agravar muito." 

Medronho criticou as atitudes do presidente Jair Bolsonaro, que classificou as reações mundiais à epidemia de “histeria”, se referiu à covid-19 como "uma gripezinha" e condenou as medidas adotadas pelos governadores de São Paulo e Rio.

“A postura dele é totalmente inadequada”, disse. “Estamos em guerra e uma guerra demanda um comando único. Ele precisa assumir essa posição.”

Leia a entrevista.

O nosso sistema de saúde está preparado para a epidemia? A próxima semana deve ser crucial na explosão do número de casos....

O sistema do jeito que está atualmente não vai dar conta. Mas podemos minimizar os danos com medidas extraordinárias. Já devíamos ter começado a erguer tendas perto dos hospitais para fazer triagem de pacientes, para separar os pacientes da covid-19 dos demais. Já deveria estar montado um hospital de campanha na Quinta da Boa Vista (Rio), como já fizemos com a dengue. Temos que ter os equipamentos de saúde preparados. Temos a obrigação moral de reduzir a letalidade dessa doença. A curva está se inclinando de forma acelerada, não podemos esperar o número de casos explodir para depois termos de correr atrás.

A OMS recomendou o teste maciço de pessoas. A experiência do enfrentamento da doença em outros países mostra que quanto mais diagnósticos (e isolamentos) são feitos, melhor é a resposta à epidemia. Mas o Brasil já disse que não tem como fazer isso até por uma questão de logística e falta de testes. O senhor considera eficaz a decisão de testar apenas os casos graves e investir nas medidas de distanciamento social? Isso não pode estar gerando uma subnotificação dos casos?

Em qualquer lugar do mundo há subnotificação de casos. Em Wuhan, na China, quando havia 100 casos notificados, na verdade, constatou-se depois, eles já tinham 1.500 casos. Então, sempre há subnotificação. Mas isso não é uma falha do sistema. Posso afirmar com toda certeza que o número de casos hoje no Brasil é muito maior do que o registrado. Mas é assim mesmo no caso de doenças virais respiratórias agudas. Também não dá para testar 100% dos casos. A orientação para todas as epidemias é a que o Ministério da Saúde adotou: confirmar laboratorialmente os casos no início da transmissão, para termos certeza de que estamos lidando com essa doença e para saber onde ela está ocorrendo. Agora, depois que a epidemia está instalada, não há condição de fazer exame em todos os casos, em toda a população. Há carência de insumos, de capacidade instalada e de pessoal. Além de um custo alto, um dinheiro que pode ser deslocado para outro lugar mais urgente. Então adotamos um critério clínico, fazemos o diagnóstico clínico e abrimos mão da testagem. Ainda assim, mesmo tendo adotado o que manda a literatura internacionalmente aceita, o ministério já está se mobilizando para comprar mais kits de diagnóstico.

Como o senhor vê a questão da desigualdade social no Brasil em relação às medidas de distanciamento social? A classe média pode trabalhar de casa, mas os mais pobres não podem fazer isso. Ainda temos a questão das comunidades, onde as casas são muito próximas umas das outras, os espaços são compartilhados por muitas pessoas....

A desigualdade social do nosso país é o mais grave problema de saúde pública que temos e vai se agravar muito. A epidemia começou na classe média, mas já imaginou quando chegar em comunidades mais carentes? Pelo menos 60 milhões de brasileiros vivem em municípios onde não há médico de forma permanente. Os danos serão enormes e os mais vulneráveis socialmente serão os mais atingidos. Sem falar no impacto econômico que também precisará ser mitigado. São 40 milhões de brasileiros que vivem no mercado informal.

O que o senhor achou da atitude do presidente Bolsonaro, que classificou a resposta mundial à epidemia de “histeria” e violou seu próprio isolamento indo cumprimentar eleitores em um fim de semana? 

Precisamos ver uma mudança radical de atitude na Presidência da República. Estamos em guerra e uma guerra demanda um comando único. É necessário que ele assuma essa posição, esteja à frente de todo o processo. A postura de Bolsonaro tem sido absolutamente inadequada. Ele é o presidente da República. O que ele faz influencia milhões de pessoas. Independentemente de ele ter testado positivo ou negativo para o vírus, ele fez parte de uma comitiva em que vários membros estão doentes. O protocolo era isolamento. Mas ele rompeu a quarentena e foi para uma aglomeração. Pior, apertou a mão das pessoas, fez fotos. Foi o pior sinal que poderia emitir para todos nós. 

O bispo Edir Macedo e o pastor Silas Malafaia não cancelaram os cultos de suas igrejas e, mais do que isso, minimizaram a ameaça do novo coronavírus. Macedo chegou a dizer que o vírus era inofensivo. Como esse tipo de postura pode ser obstáculo a adoção do distanciamento social e isolamento?

Isso deveria ser tipificado como crime contra a saúde pública. O Ministério Público e a Justiça deveriam tomar uma atitude. Isso foge de qualquer racionalidade e é criminoso. Rogo aos fiéis que deem ouvidos às autoridades de saúde pública, aos técnicos, e não se aglomerem em cultos. Não é verdade que o vírus é inofensivo. Na grande maioria dos casos (cerca de 80%) a infecção será leve ou moderada. Mas 20% dos infectados terão uma doença grave ou mesmo muito crítica. Então, só para dar uma ideia, se tivermos um milhão de casos (o que não é nada para um país de 220 milhões de habitantes), teríamos 200 mil pessoas com a forma grave da doença e até 50 mil óbitos. Não há correlato na história moderna do nosso país de uma epidemia com essa quantidade de óbito.

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