Stock Snap
Stock Snap

A diabete gestacional está aumentando. Quais os riscos?

A mãe pode enfrentar pressão alta e parto por cesariana e a criança pode passar por parto prematuro e ter diabete tipo 2 no futuro

Marlene Cimons, The Washington Post

16 de abril de 2022 | 05h00

O médico Mark Landon trata gestações de alto risco em suas clínicas na Ohio State University há 40 anos e realiza pesquisas clínicas sobre as complicações da diabete gestacional, o tipo que se desenvolve durante a gravidez. Nos últimos 15 anos, ele diz ter visto algo bastante preocupante: a duplicação de casos. “Isso é preocupante do ponto de vista da saúde pública”, afirma Landon, professor e presidente do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Ohio State University. “É um prenúncio perturbador para um aumento semelhante no futuro da diabete tipo 2 na população.”

Evidências crescentes sugerem que o que Landon viu em seu consultório está sendo experimentado pelos Estados Unidos: houve um aumento surpreendente e contínuo na diabete gestacional nos últimos anos que incomoda muitos especialistas. “O aumento é impressionante e alarmante”, diz Sadiya Khan, professora associada de medicina da Faculdade de Medicina Feinberg da Northwestern University e principal autora de um estudo recente que descobriu que a taxa de diabete gestacional aumentou de 47,6 para 63,6 por 1.000 nascidos vivos entre 2011 e 2019. “Não apenas vimos um aumento, mas ele aconteceu em um curto período de tempo.”

O estudo examinou dados do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde de 12.610.235 mulheres com idades entre 15 e 44 anos que tiveram seus primeiros bebês. “Houve um aumento consistente a cada ano de 3,7%”, explica Khan. “As minorias ainda têm as maiores taxas, mas a mudança ao longo do tempo foi semelhante em todos os grupos.” Ela e sua equipe começaram a estudar dados mais recentes e dizem que o aumento deve continuar. “As estimativas preliminares são um salto de 6,9% (de todas as gestações) em 2019 para 7,8% em 2020”, conta.

O que é diabete gestacional

A diabete gestacional ocorre quando o corpo não produz insulina suficiente, o hormônio produzido pelo pâncreas que controla a quantidade de glicose no sangue e ajuda a regular o metabolismo dos alimentos. Durante a gravidez, o corpo produz hormônios adicionais e sofre outras alterações, como ganho de peso, fazendo com que as células usem insulina de forma menos eficaz – condição chamada de resistência à insulina –, resultando em aumento de açúcar no sangue.

O risco de pressão alta na gravidez aumenta e também as possibilidades de ter um bebê grande, que precisa de parto por cesariana. O bebê também corre mais risco de ser prematuro, o que pode resultar em problemas respiratórios, bem como no desenvolvimento da diabete tipo 2 no futuro. Embora os níveis de açúcar no sangue da mãe geralmente voltem ao normal após o nascimento, cerca de metade dessas mulheres desenvolve diabete tipo 2 mais tarde, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

A diabete gestacional também aumenta o risco de uma mulher desenvolver doenças cardiovasculares, de acordo com a Associação Cardíaca Americana. “A diabete gestacional é um problema muito comum”, observa Camille Powe, professora-assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva da Harvard Medical School e codiretora do programa de diabete na gravidez do Hospital Geral de Massachusetts. “As taxas estão aumentando e precisamos descobrir a melhor forma de preveni-la, tratá-la, torná-la mais fácil para os pacientes e prevenir suas complicações de saúde a longo prazo.”

As grávidas geralmente passam por triagem para diabete gestacional entre 24 e 28 semanas, às vezes mais cedo se tiverem fatores de risco óbvios. Especialistas descrevem a obesidade como o maior perigo, então o aumento da diabete gestacional não é surpreendente, já que a epidemia de obesidade também está aumentando nos EUA, saltando de 30,5% entre adultos em 1999-2000 para 42,4% em 2017-2018, de acordo com o CDC.

Outros fatores de risco incluem um histórico familiar de diabete tipo 2, ter mais de 25 anos na gravidez, ter tido diabete gestacional durante uma gravidez anterior, ter dado à luz um bebê anterior com peso superior a 4 quilos ou ter tido gêmeos ou trigêmeos e ter a síndrome do ovário policístico, condição que muitas vezes é acompanhada de resistência à insulina. Fumar também aumenta o risco. Alguns especialistas dizem que a genética também pode estar envolvida.

“O maior fator de risco é claramente a obesidade”, garante Landon. Ainda assim, nem toda mulher que desenvolve diabete gestacional tem fatores de risco óbvios. “Muitas pessoas em meu consultório ficam surpresas por terem diabete gestacional”, admite Powe.

Mesmo quem tem fatores de risco pode achar o diagnóstico inesperado. “Fiquei chocada”, lembra Emily Mann Fengya, de 37, de Wallingford, Connecticut. Ela pesava 104 kg e media 1,70 m antes de sua primeira gravidez e tem um forte histórico familiar de diabete. Mesmo assim, “eu nunca tinha ouvido falar disso antes, e não entendi a gravidade até estar grávida”, relata.

Os especialistas culpam o aumento, pelo menos em parte, da fácil disponibilidade de alimentos processados baratos que tendem a ser ricos em açúcar e gordura, e estilos de vida sedentários, que contribuem para a obesidade. Eles também dizem que mais mulheres estão adiando a gravidez – a idade também é fator de risco para diabete tipo 2.

A influência da pandemia

Provavelmente a pandemia também acrescentou fatores adicionais ao aumento mais recente, avalia Khan. “O crescimento se baseia em aumentos que já estavam acontecendo”, ela revela, citando “estresse, atividade física limitada por causa do isolamento e más escolhas alimentares durante os lockdowns”.

Kartik Venkatesh, obstetra de alto risco e epidemiologista perinatal do Wexner Medical Center da Ohio State, aponta que aconselhar as mulheres a comer melhor, fazer exercícios e perder peso nem sempre é fácil. Alimentos saudáveis podem ser caros e pouco acessíveis em comunidades de baixa renda. “Algumas mulheres estão vivendo em ‘desertos’ alimentares e em lugares onde não podem praticar exercícios”, avisa. “Esta epidemia é complexa, com fundamentos que também são de natureza socioeconômica. A demografia também pode desempenhar um grande papel.”

Katherine Laughon Grantz, investigadora da Divisão de Pesquisa em Saúde da População do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano Eunice Kennedy Shriver, concorda. “A sociedade poderia fazer mais para apoiar as mulheres grávidas”, diz Grantz, que também é obstetra/ginecologista no MedStar Washington Hospital Center.

“Embora haja muitas coisas que as mulheres podem fazer para reduzir seu risco – alcançar um peso saudável e uma dieta saudável –, muitas vezes há barreiras para atingir esse objetivo. Como podemos ajudá-las a fazer isso? Essa é certamente uma questão em que precisamos nos concentrar no futuro.”

TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Tudo o que sabemos sobre:
gravidezsaúde da mulherdiabete

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.