A dor de quem perdeu o filho para a dengue

Em meio ao luto, mãe de Israel, de 6 anos, tenta entender por que o filho morreu: 'Não sei o que pensar. Como não percebi?'. 'Mas a gente confia, né'

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

21 Junho 2014 | 03h00

SÃO PAULO - A dor da perda do filho de 6 anos jamais vai deixar de martelar o peito de Dalvaci Barbosa de Oliveira, de 48 anos, empregada doméstica que vive no Jaguaré, zona oeste de São Paulo. Em abril, quando a capital vivia o auge da dengue - que já infecta mais de 11 mil, assusta 42 mil que apresentam sintomas e matou pelo menos 8 pessoas -, ela sentiu o terror de ver o filho morto, aquilo que um dia o poeta Chico Buarque, pensando no sofrimento de uma mãe, tentou traduzir como “metade arrancada de mim”. 

Dalva, como Dalvaci é chamada por pessoas próximas, pode não conhecer os detalhes da dramática história da empresária carioca Zuzu Angel, mutilada pela barbárie da ditadura que sumiu com o filho dela, Stuart, tragédia que inspirou o poeta. Mas o que Dalva conhece bem é o peso de ver seu menino, Israel Barbosa, desaparecer após uma prosaica picada do mosquito que grassa por São Paulo.

Mais de dois meses se foram desde que Dalva e Crispim Neri de Santana, o pai de Israel, tiveram de velar o filho, que morreu no dia 2 de abril. E o casal ainda não sabe exatamente o que aconteceu com seu pequeno. 

“Por que ele?”, perguntava a mãe, dias atrás, ao receber o Estado em casa para uma entrevista. Ao lado de Isabele, de 3 anos, que o irmãozinho adorava - e para quem ele gostava de comprar doces no mercadinho da Avenida José Maria Silva -, Dalva e Crispim tentam tocar a vida. Mas não se conformam. 

A mãe acredita que perdeu o filho “por descaso”. Pensa que, se a doença tivesse sido identificada rapidamente, poderia ter sido tratada. E eles não teriam perdido Israel. O que Dalva mais busca agora é uma explicação para a ausência dele. 

“O Cris me diz pra confiar em Deus”, diz a mulher de olhar firme, molhado, referindo-se a Crispim. “Mas eu nem sei mais no que acreditar”, completa, demonstrando um misto de tristeza, descrença revolta e desamparo. Com uma foto de Israel no convite da missa de sétimo dia da morte do menino grudada na porta da geladeira, ela vive um luto indignado. Por vezes, confessa Dalva, sente-se ela própria culpada pela morte de Israel. “Não sei o que pensar. Como não percebi que era dengue?”, questiona. “Mas a gente confia, né.”

Israel era saudável, um menino brincalhão, que estudava à tarde no Colégio Henrique Dumont Villares, na Avenida Presidente Altino. No dia 25 de março, caiu doente, com febre. A mãe o levou para uma consulta na AMA da Rua Salatiel Campos, no alto do morro do Jaguaré, que fica ao lado do imundo Rio Pinheiros, divisa de Osasco.

Como diagnóstico da consulta, ela recebeu a indicação: é uma virose. E a receita: um antipirético e analgésico para controlar as dores no corpo, a febre alta e o vômito de Israel. Nos dois dias seguintes, a temperatura da criança voltou a subir, mas Israel parecia ter melhorado. Na sexta-feira, dia 28, o menino piorou. Voltou a vomitar e a reclamar de dores fortes na barriga. Novamente, Dalva o levou ao consultório e, outra vez, ouviu o diagnóstico: virose. “Não houve coleta de sangue para exame”, lembra a mãe. E tome remédio para os sintomas. 

Dalva recorda que, no sábado, o filho ainda teve febre. A família chegou a suspeitar de dengue. Mas ela confiava no que ouvira na AMA. O mal-estar de Israel seria um indício de “uma gripe forte vindo por aí”. No domingo, Israel brincou normalmente com familiares.

Porém, a madrugada da segunda-feira foi cruel. A febre voltou com força. Preocupada, a mãe o levou ao Pronto-Socorro da Lapa. No hospital, depois de a mãe relatar o histórico da semana do menino, coletaram sangue para exames. Dalva conta que passou o dia à espera dos resultados do exame. “Estava demorando e foi preciso a médica pedir o resultado por e-mail”, recorda. Quando a médica recebeu a análise, viu que o menino “estava com as plaquetas muito baixas”, conta a mãe. “Eles disseram que ele precisava de uma UTI.”

Enquanto as equipes procuravam uma vaga para internação, equipamentos de monitoração de sinais vitais foram colocados ao lado do leito de Israel numa UTI improvisada na enfermaria cheia. Tentavam controlar a crise que abatia Israel - e desassossegava Dalva. Já era noite quando um plantonista, alarmado, pediu que ela não fosse embora. O filho não estava bem. “Eu não ia mesmo”, respondeu Dalva.

Mais exames. Na manhã de terça, 1.º de abril, a mãe notou que o menino estava ofegante. Reclamava de cansaço. “A doutora falou para levar ele para o raio X”, lembra Dalva. “E se assustou quando viu o resultado do exame de imagem”, afirma. Israel já não fazia mais xixi, não respondia aos medicamentos, estava irritado e incomodado até com a máscara do oxigênio. Mas somente por volta de 15h é que chegou ao PS uma ambulância para a transferência do paciente para o HU da USP. 

O que parecia ser um alívio, porém, transformou-se logo em aflição. Na chegada ao HU, a mãe viu os médicos desembarcarem rapidamente com Israel. “No caminho, ele teve uma hemorragia”, explica Dalva. “Eu percebi que alguma coisa tinha acontecido”, conta.

Depois da correria para a UTI, informaram: “O caso é muito grave. Ele foi entubado e sedado. Não vai sentir dor”, recorda Dalva. E aconselharam: “Mãe, pode chamar padre, macumbeiro, a família, para orar. Está nas mãos de Deus”, diz ela, relatando a conversa, “Ali, eles me desenganaram”, conclui.

Israel morreu às 15h50 daquela terrível quarta-feira. Cinco dias depois saiu a confirmação: era dengue. Dalva e Cris sabem que a dor não vai passar. Um pedaço deles está enterrado no Cemitério da Lapa.

Sob investigação. Na Secretaria Municipal da Saúde, a informação é a de que o secretário José de Filipi Júnior acompanha o caso de Israel e determinou que a família seja informada do resultado logo que houver uma conclusão. A secretaria disse ainda que todos os casos de mortes por dengue estão sob análise de procedimentos. E além dos 8 óbitos por dengue já confirmados, há também outras dez mortes que podem ter relação com a doença. 

De acordo com números divulgados anteontem, pela primeira vez em pelo menos dez anos, o índice de incidência de dengue na cidade de São Paulo deixou de ser considerado baixo. Com 11.392 casos, a cidade tem taxa de 101,2 registros por 100 mil habitantes.

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