GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Parto humanizado: 'A dor faz parte, mas a sensação final é mágica'

Nascimento sem traumas se torna meta não só de mães, mas de instituições; debate sobre redução das cesáreas ganha fôlego

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

07 Abril 2016 | 07h00

SÃO PAULO - O ano de 2015 já pode ser considerado um dos mais importantes para questões relacionadas à maternidade. Em São Paulo, a lei que impede constrangimentos a mulheres que amamentam em público foi sancionada pelo prefeito Fernando Haddad (PT) em abril. Em dezembro, foi a vez do governador Geraldo Alckmin (PSDB) expandir a determinação para todo o Estado. Campanhas contra a violência obstétrica ganharam as redes sociais e geraram trocas de experiências entre mulheres de várias partes do País. Ainda no ano passado, os debates sobre a importância de reduzir as taxas de cesarianas no Brasil ganharam mais fôlego.

O parto sem traumas está se tornando uma meta não só das mães, mas das instituições de saúde. Na capital, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, o porcentual de episiotomias (corte realizado entre a vagina e o ânus) em partos normais tem caído ano após ano. Em 2013, a taxa de procedimentos no primeiro parto era de 40,63%. Passou para 31,49% e, no ano passado, foi para 25,59%. Em 2015, ao todo, foram realizados 55.213 partos, dos quais 37.560 foram vaginais.

Em novembro, a Casa Angela, localizada na zona sul da capital, passou a atender pacientes de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) por meio de um convênio assinado com a Prefeitura. O local, fundado em 2009, não só realiza partos humanizados, mas uma imersão no universo da maternidade. 

Em cursos, as gestantes tiram dúvidas sobre as etapas da gravidez, as transformações no corpo e o bebê. O pré-natal, o parto e o primeiro ano de vida são acompanhados na casa. A capital conta ainda com a Casa do Parto Sapopemba, na zona leste, que realiza cerca de 20 partos por mês.

"Fazemos um trabalho com gestantes de baixo risco. Temos sessões de fisioterapia, acupuntura, oficinas de artesanato e cursos de preparação para o parto. Ao todo são cinco módulos e pode ter a participação do pai em todas as etapas do atendimento. Os cursos são obrigatórios para quem vai fazer o parto aqui. Fazemos partos humanizados para todas as classes sociais, mulheres de vários bairros vêm aqui, mas a nossa prioridade é atender as gestantes moradoras da zona sul de São Paulo, usuárias do SUS [Sistema Único de Saúde]", explica Anke Riedel, diretora da unidade.

A casa de parto mantém as atividades complementares com ajuda de doações de institutos e fundações filantrópicas. Além do atendimento gratuito para usuárias do SUS, a Casa Angela oferece atendimento particular para quem não é usuário do sistema, com valor máximo de R$ 6.300 por todo o atendimento – gestação, parto e acompanhamento até o primeiro ano de vida do bebê. Anke diz que o processo de conscientização sobre o parto sem intervenção cirúrgica ocorre, muitas vezes, durante o atendimento. "Muitas não vêm por causa de um parto humanizado. A parte mais apaixonante é ver mulheres que não planejaram a gravidez pensando 'o parto é meu'. Temos mulheres do ativismo também. Com informação, qualquer mulher pode se empoderar."

Emoção. A enfermeira Aliana Maria Cordeiro Santos, de 34 anos, planejou o momento da chegada de Gustavo, que nasceu no último dia 11. Terminou a graduação, fez uma especialização em obstetrícia e se preparou para um parto normal. "Além dos cursos, cheguei a fazer uma sessão de acupuntura na preparação para o parto que foi maravilhosa."

Ela diz que o parto, que durou mais de seis horas, superou suas expectativas. "A emoção de pegar o bebê no colo após um parto normal não tem preço, já tinha percebido no meu acompanhamento de parto, queria viver isso. É um momento único. A dor faz parte do processo de nascimento, mas a sensação final é mágica." Ela teve a companhia do marido, com quem é casada há 11 anos. "Meu marido ficou bem tranquilo, assistiu a tudo e não ficou ansioso." Segundo Anke, os pais estão presentes em 98% dos partos no local.

A partir da ruptura da bolsa, foram 12 horas de trabalho de parto até Claraliz vir ao mundo. Além do marido, a publicitária Chiara Petrucci, de 28 anos, teve o apoio da irmã. "Ela atuou como doula. Até pensei em desistir, mas ela foi me ajudando. Aqui, recebi apoio emocional e fui acolhida com muito amor."

O respeito com o momento foi o que mais chamou a atenção do marido de Chiara, o analista de sistemas Marcos de Araújo, de 32 anos. "Os profissionais têm respeito pelo tempo da pessoa. Foi uma grande emoção poder participar."

Rede. Os hospitais Professor Dr. Waldomiro de Paula, em Itaquera, Dr. Arthur Ribeiro de Saboya, no Jabaquara, e Dr. José Soares Hungria, em Pirituba, estão entre os hospitais municipais que fazem parte do programa Parto Seguro, que oferece massagens, banhos e exercícios para facilitar o parto.

O parto humanizado também é realizado em maternidades conveniadas, como o Amparo Maternal e o Hospital Santo Antônio, unidade filantrópica do Hospital Beneficência Portuguesa que abriu uma ala exclusiva para a realização dos procedimentos. A capacidade do local é de 400 partos por mês.

"Qualquer usuária do Sistema Único de Saúde (SUS) pode ter acesso ao parto humanizado, geralmente por proximidade geográfica da Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência", diz a secretaria. Para as interessadas em ter um bebê nas casas de parto, há pré-requisitos. "A gestação deve ser de baixo risco, ou seja, gestação única, apresentação cefálica, exames de pré-natal com resultados normais, não ter tido parto cesárea anterior, ausência de doenças prévias ou gestacionais como diabetes, hipertensão, entre outros."

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