Leo Caldas/ESTADÃO
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A dor que faz uma mãe esconder o filho

Constrangimento e falta de informações de mães de bebês vítimas de surto de microcefalia já demandam a criação de auxílio terapêutico

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 08h33

BRASÍLIA - Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Kleber Luz conta o que mais o preocupa com aumento dos casos de microcefalia  nos Estados do Nordeste: a reação das  famílias. "Muitas mães chegam aos consultórios com bebês cobertos. Tentam escondê-los, com receio do comportamento de outras pessoas", diz. O constrangimento delas em locais públicos, que aumentou depois que veio à tona o surto registrado nos últimos meses, é confirmado por outros profissionais.

Diante dessa situação, Pernambuco já se prepara para criar um  serviço de assistência para os pais dos bebês. "As reações são as mais diversas, mas sempre são muito intensas", afirma o professor da Universidade Federal do Estado e um dos infectologistas que está à frente das investigações dos primeiros casos da doença, Carlos Brito. Não raro, as mães sentem vergonha, choram, ficam deprimidas com a situação das crianças. 

A doença pode causar deficiência mental, dificuldades de locomoção, visão e audição, além de crises convulsivas. Com a má formação, considerada rara, os bebês nascem com a circunferência do crânio menor que a média. "O impacto maior, para as mães, ocorre quando a descoberta é logo após o parto. Aquelas que recebem a notícia durante a gestação têm mais tempo para lidar com a questão e, no nascimento, já estão mais preparadas", conta Brito. 

A autônoma Daniele, de 32 anos, disse que entrou em choque quando soube do diagnóstico de David, hoje com três meses. "Foi um misto de medo, de revolta", conta. Os primeiros dias foram os difíceis. Como o bebê precisava fazer uma série de exames, ela ficou quase 20 dias no hospital, longe de seus outro quatro filhos, com idade entre 16 e 3 anos. "Não sabia ao certo o que ele tinha, o que ia acontecer, porque tudo isso tinha ocorrido", recorda. "Mas aos poucos David foi engordando, ficando melhor. Hoje ele está um gostoso da mamãe", derrete-se.

Razão. Daniele não tem ideia do que pode ter levado David a ter microcefalia. "Não tive nada. Nenhuma doença, nem mesmo uma febre." A dúvida já não está presente para a dentista Carol, mãe de Marcos (nome fictício.). Ela associa o problema do bebê a uma suspeita de infecção, no início da gravidez.  "Minha gestação foi ótima. Fiz todos as consultas pré-natal, todos os exames pedidos. A única coisa que tive foram manchas e coceiras. Como sou dentista, fiquei afastada do trabalho. Fiz uma sorologia para dengue e tomei um antialérgico que gestante podia tomar", conta.

O problema ocorreu em maio, quando a gestação entrava no quarto mês. A notícia de que algo poderia estar ocorrendo com seu filho veio da forma mais desastrada possível. Seu pai, médico, havia recebido da equipe do hospital a notícia da suspeita de microcefalia no neto logo depois do parto. Mas procurou poupar Carol nas primeiras horas. "Ele saiu do quarto justamente no momento em que uma médica foi lá, dizendo que tinha de fazer exames neurológicos no bebê. "Foi um choque. Durante toda a gravidez, tinha certeza estava tudo bem. O único medo que tinha era de algum problema no parto." 

Para fazer os exames, ela ficou 12 dias no hospital. Quando o diagnóstico foi confirmado, ela disse ter desabado. "Na minha cabeça ele ia ser um vegetal. Como sou da área de saúde eu estudei isso. Pensei: meu Deus, é a área que tem a motricidade, a cognição, fala, visão. Pensei que ele ia ficar na cama, sob respiração artificial. Fui no extremo", conta. "Neguei meu filho. Disse para meu pai: não vou ter condições de criá-lo."

Depois de sair do hospital, veio a depressão. Chorava o tempo todo, mal comia. As coisas começaram a melhorar quando ela iniciou uma terapia. "Passei a ver de outra forma a situação. Quantas mulheres querem engravidar e não conseguem? Quantas mães têm seus filhos normais e depois desenvolvem algum problema. Comecei a ver que toda mãe tem seu filho 100% quando nasce, o que vai decrescendo de acordo com as intercorrências da vida" disse. E emendou: "No meu caso eu vou começar do zero, vou para 10%, 15%, 30%, 40% 50%, e assim eu vou."

Carol diz que pretende ajudar outras mulheres a superar as dificuldades da microcefalia. Ela se alegra com as pequenas conquistas no dia a dia da maternidade. "Ele ficou com 2,5 quilos. Agora  está com quase 4. Já está usando as roupinhas. Essas coisas vão me alegrando. Uma coisa por vez." Agora, diz, se prepara para fazer aquilo que tem de ser feito. "Vou fazer tudo o que for preciso para ele melhorar. Se for necessário um brinquedo especial, ele terá. Ele é já é amado."

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