Taba Benedicto/Estadão
Rafaela perdeu o pai. Jorge só conseguiu ser internado em um hospital público de São Paulo na quarta vez que procurou ajuda Taba Benedicto/Estadão

À espera de atendimento, sedativo ou dispensa do trabalho: histórias de quatro mortos por covid

O Estadão conta a história de quatro brasileiros que teriam maior chance de sobrevivência se tivessem recebido a assistência adequada. País chegou nesta quarta a 90 mil mortes e 2,5 milhões de casos confirmados de covid-19

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 11h00

Internado com covid-19 em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Rio, Antônio conseguiu na Justiça o direito de ser transferido para um leito de UTI. A liminar, porém, não foi cumprida a tempo. O paciente morreu após esperar dois dias pela transferência. A história não é exceção. Só no Estado do Rio, ao menos 730 pessoas morreram entre abril e junho sem suporte necessário, à espera de um leito de enfermaria ou UTI, segundo levantamento da Defensoria Pública do Rio.

Evandro também morreu esperando. Mesmo com falta de ar, não pôde ser entubado pois as unidades de referência para covid em Macapá, onde ele vivia, não tinham medicamentos sedativos e anestésicos necessários para o procedimento. Evandro provavelmente também não foi o único a morrer pela falta do insumo. Desde maio, hospitais de todos os Estados registram escassez ou desabastecimento desse tipo de medicação. O Ministério da Saúde foi oficiado na época pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) sobre o problema, sem que uma solução definitiva tenha sido apresentada.

Jorge, por sua vez, conseguiu leito, respirador e medicação, mas a assistência chegou tarde demais. Ele só conseguiu ser internado em um hospital público de São Paulo na quarta vez que procurou ajuda. Nas duas primeiras, foi mandado de volta para casa. Quando finalmente foi hospitalizado, o quadro já era crítico e ele morreu dias depois. Assim como Jorge, outros brasileiros não tiveram acesso a atendimento precoce. Uns foram internados quando o estado já era grave. Outros morreram em casa. Só na capital paulista, dobrou o número de óbitos por problemas respiratórios ocorridos no domicílio durante a pandemia.

No caso de Juraci, o que demorou foi a liberação para se afastar do trabalho. Mesmo com idade avançada e histórico de doença crônica, a técnica de enfermagem de 72 anos só foi dispensada do hospital onde atuava na capital paulista cerca de 20 dias após a doença chegar à cidade, quando o cenário já era de transmissão comunitária.

Nos dias anteriores ao seu afastamento, reclamou a familiares da escassez de máscaras. Três dias depois de ser dispensada, começou a ter sintomas de covid. Onze dias mais tarde, não resistiu. O caso de Juraci também não foi o único. Ao menos 176 profissionais de saúde já morreram de covid no País desde o início da pandemia. Alguns não haviam recebido Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados, o que pode ter facilitado a infecção.

Antônio, Evandro, Jorge e Juraci não foram mortos apenas pelo novo coronavírus. Foram também vítimas da falta de leitos, do desabastecimento de medicamentos, da demora no atendimento, da falta de cuidado com os profissionais de saúde - problemas que poderiam ter sido solucionados ou minimizados com melhor planejamento e eficiência nas ações dos Estados, municípios e governo federal. É certo que, em muitos casos, a doença mata mesmo que todos os recursos médicos sejam empregados. Em outros tantos, atrasos ou falhas no atendimento podem ser determinantes para a evolução de um paciente. 

O Estadão conta a seguir a história desses quatro brasileiros que teriam maior chance de sobrevivência se tivessem recebido a assistência adequada. Além destas, quantas das mais de 90 mil vidas perdidas até agora poderiam ter sido salvas com mais recursos e responsabilidade dos que comandam o País?

Mesmo com ordem judicial, aposentado não consegue transferência para leito de UTI

Com dificuldade para respirar, montador procurou atendimento, mas foi mandado de volta para casa

Idosa, hipertensa e transplantada, técnica de enfermagem demorou a ser afastada de hospital

Por falta de sedativo, enfermeiro morre esperando entubação

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Mesmo com ordem judicial, aposentado não consegue transferência para leito de UTI

Nem uma decisão judicial que obrigava a Prefeitura do Rio a encaminhar Antônio Alves Gomes imediatamente para um leito de UTI foi suficiente para garantir o tratamento. O idoso morreu após esperar por dois dias

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 11h00

O aposentado Antônio Alves Gomes, de 72 anos, foi um dos 730 a morrerem entre abril e junho no Estado do Rio à espera de transferência para um hospital com mais recursos. Nem uma decisão judicial que obrigava a prefeitura do Rio a encaminhá-lo imediatamente para um leito de UTI foi suficiente para garantir o tratamento. O idoso morreu após esperar dois dias pelo cumprimento da liminar.

Gomes ficou cinco dias internado na UPA Cidade de Deus, na zona oeste do Rio. Ele foi levado ao local no dia 5 de maio pelo Samu após sentir dificuldade para respirar. Ao chegar à unidade, conta a família, a equipe médica não queria recebê-lo. “Ele ficou uma hora do lado de fora esperando. Primeiro, falaram que não tinham vaga. Depois, uma médica apareceu e falou que ia interná-lo, mas que já queria avisar a família que lá não tinha recursos para casos graves, que ele ‘ia ficar só por ficar’”, relata a neta de Gomes, a caixa Jennifer Rodrigues Lopes, de 30 anos.

Dois dias depois, o quadro de saúde do aposentado piorou e, segundo a família, ele foi colocado em ventilação mecânica. Voltada para atendimentos de urgência, a UPA não era a unidade mais adequada para a permanência do idoso. Jennifer decidiu procurar a Defensoria Pública do Estado do Rio para entrar com ação na Justiça que garantisse um leito de UTI para o avô em um hospital de alta complexidade.

“Fiquei das 7 horas às 21 horas na UPA esperando o laudo médico para anexar ao processo. Quando me entregaram, ainda veio errado, era de outro paciente. No dia seguinte, consegui juntar toda a documentação e a Defensoria entrou com a ação. No próprio dia 8 de maio já saiu a decisão falando que ele tinha que ser transferido para uma UTI. A decisão dizia que, se não tivesse vaga em hospital público, a Prefeitura deveria pagar um leito de hospital privado”, conta Jennifer.

A família esperou por dois dias e a transferência não saía. No fim da tarde do dia 10, um funcionário da UPA ligou para familiares de Gomes pedindo que eles comparecessem ao local com os documentos do paciente. “A gente foi para lá achando que tinha saído a transferência. Quando chegamos, avisaram que ele tinha morrido”, relata Jennifer. “Eu ainda quis ver se era meu avô mesmo. Como eles tinham trocado o laudo uma vez, deu medo de eles terem se enganado novamente. Medo e esperança, né? Porque, no fundo, eu queria que fosse engano, mas não era”, lamenta ela.

Jennifer conta que a família não se conforma com o tratamento dado ao aposentado e que a perda desestruturou a família. Gomes morava só com a mulher, também idosa. A única renda do casal vinha da aposentadoria dele e do dinheiro extra que ele tirava como vendedor ambulante. “Ele vendia cortador de unha, essas coisinhas na rua para complementar a renda porque minha avó não era aposentada. Agora ela está morando com a gente e, além de ter perdido ele, fica preocupada sem saber como vai ser daqui para frente."

A família já vinha ajudando o casal com compras para que Gomes não precisasse sair mais às ruas para trabalhar. “Logo que começou essa pandemia, falei para o meu avô que não era para ele sair de casa por ser grupo de risco. Eu comprava as coisas e levava lá na casa deles”, conta. Jennifer diz acreditar que a falta de cuidado e de estrutura da UPA podem ter sido as responsáveis pelo agravamento do quadro do avô. “A gente se pergunta se ele não teria tido mais chance se não tivesse ido para aquele lugar.”

Questionada pelo Estadão, a Secretaria Municipal do Rio argumentou que o paciente recebeu atendimento adequado enquanto esteve internado na UPA Cidade de Deus. “O senhor Antônio passou por exames e tratamento com antibióticos e suporte de oxigênio - via nasal - para combater os sintomas mas, infelizmente, apesar dos esforços, o quadro clínico dele piorou e evoluiu para óbito por complicações da covid-19”, disse a pasta, em nota. O órgão afirmou ainda que ele estava internado em uma sala que dispõe de equipamentos de CTI, como respiradores, monitores, insumos e medicamentos para pacientes graves.

Conforme a secretaria, o paciente foi inserido no sistema estadual de regulação de vagas logo no primeiro dia que chegou à UPA e que as transferências ocorriam assim que os leitos eram disponibilizados. A secretaria não detalhou por que o paciente não teve prioridade na transferência mesmo com decisão judicial e estado de saúde grave. “Cabe observar que, naquela ocasião,  as unidades de emergência do município atendiam, em média, 670 pacientes por dia com suspeita de covid-19”, destacou.

Sobre a morte de 730 pacientes à espera de transferência, a Secretaria Estadual da Saúde do Rio informou que “não teve conhecimento" do levantamento feito pela Defensoria Pública "nem reconhece os dados como oficiais” e ressaltou que criou 1.590 leitos na rede estadual para pacientes com covid. “Além disso, foi estruturada força tarefa entre técnicos da SES e especialistas de instituições renomadas para estudo da evolução da doença no território fluminense. Com essas ações, a SES evitou mais de 80 mil óbitos por covid no Estado até o fim de junho e já alcançou mais 135 mil pacientes recuperados da doença”, defendeu a pasta.

Já o Ministério da Saúde foi questionado sobre os 2 mil leitos de UTI que prometeu alugar no início da pandemia. Só 540 foram efetivamente instalados. A pasta afirma que chegou a abrir chamamento público para contratar mais estruturas do tipo, mas, por causa a escassez de respiradores (um dos itens que integra o kit de leitos), não apareceram fornecedores. A pasta ressaltou que habilitou (incluiu no sistema federal para repasse de recurso) outros 11 mil leitos de terapia intensiva exclusivos para covid abertos por Estados e municípios, com investimento de R$ 1,5 bilhão.

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Com dificuldade para respirar, montador procurou atendimento, mas foi mandado de volta para casa

Foram necessárias quatro idas a uma unidade de saúde para que o montador de móveis Jorge Alexandre da Silva, de 53 anos, conseguisse uma internação

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 12h00

Foram necessárias quatro idas a uma unidade de saúde para que o montador de móveis Jorge Alexandre da Silva, de 53 anos, conseguisse uma internação. Na primeira delas, em 17 de abril, ele procurou o Pronto-atendimento de São Mateus, na zona leste de São Paulo, com sintomas de gripe. Segundo a família, os médicos não pediram exame adicional, “só aplicaram uma injeção” e o mandaram de volta para casa. Quatro dias depois, ele piorou e passou a sentir dificuldade para respirar.

Silva, então, voltou à unidade. Desta vez, uma radiografia dos pulmões foi feita. O exame já mostrava comprometimento da função respiratória, mas o paciente foi mandado de volta para casa novamente. “Só que, como ele estava muito ruim, a esposa dele pediu para alguém da família ir buscá-los de carro para levá-lo para o Hospital Sapopemba (também na zona leste) porque não dava para ir para casa daquele jeito”, conta a pesquisadora Rafaela Maiara, de 24 anos, filha de Silva.  

Na terceira tentativa de atendimento, desta vez no Hospital Sapopemba, os médicos suspeitaram de covid, mas não havia testes. O paciente então foi levado de lá para o Hospital da Vila Alpina, na mesma região. “Quando eles viram a radiografia, falaram que 80% dos pulmões estavam comprometidos”, diz Rafaela. No Vila Alpina, Silva foi internado na hora. Foi entubado, mas não resistiu. Morreu no dia 2 de maio. “Se o comprometimento chegou a 80%, em algum momento foi de 10%, 20%. Se tivessem feito algo antes, talvez ele poderia ter sido salvo”, lamenta a filha.

Ela reclama ainda que, apesar de o pai ter conseguido leito na unidade, foi tratado com hidroxicloroquina sem autorização da família. “Quando vi depois nos estudos científicos que não tem nenhuma evidência de eficácia, fiquei ainda mais inconformada. Eles não podiam ter dado esse remédio sem falar com a gente.”

Rafaela lamenta também o fato de o pai ter se exposto ao risco de contaminação por não poder parar de trabalhar. “Desde o começo da pandemia, eu já falava para ele ficar em casa porque o vírus estava se espalhando. Ele dizia que não queria sair, mas que estava precisando trabalhar”, conta. Até dois anos atrás, Silva era registrado como funcionário CLT em uma loja, mas foi demitido para passar a prestar serviços para a mesma empresa como autônomo. 

Como a esposa dele trabalha como professora substituta e estava sem receber nada por causa do fechamento das escolas, a única renda do casal vinha de Silva. “A classe trabalhadora está desassistida, tem de ficar se expondo ao risco. Parece que ninguém vê o que acontece”, diz Rafaela.  Mesmo em luto, a jovem segue atuando no coletivo São Mateus em Movimento para ajudar famílias que passam dificuldades financeiras por causa da pandemia. “A gente distribui cestas básicas, produtos de higiene. Reforcei minha luta para que outras famílias não precisem se expor ao risco como meu pai precisou.”

Procurada pelo Estadão, a Secretaria Municipal da Saúde disse lamentar a perda de Silva. A pasta confirmou que ele passou duas vezes pelo Pronto-atendimento de São Mateus e que foi mandado de volta para casa, mas justifica que os profissionais seguiram o protocolo atualizado conforme as diretrizes do Ministério da Saúde. Na primeira ida, diz o órgão, ele passou por avaliação clínica no PA, foi medicado e liberado. Na segunda, foi novamente avaliado, teve radiografia solicitada, “sendo diagnosticado com pneumonia e indicada antibioticoterapia para tratamento em residência”.

Já a Secretaria Estadual da Saúde, responsável pelo Hospital da Vila Alpina, onde Silva ficou internado, confirmou que, entre os remédios administrados ao paciente, estava a hidroxicloroquina. O órgão justificou que não foi pedida autorização da família para uso do remédio pois não havia essa obrigatoriedade na época. Conforme a pasta, o uso do medicamento foi amparado em nota informativa do Ministério da Saúde de 27 de março e em parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) de 16 de abril. “Em nenhum destes documentos oficiais vigentes à época havia obrigatoriedade de aplicação de termo de consentimento por parte de paciente ou da família, sendo prerrogativa do médico indicar a conduta terapêutica disponível para seu caso”, justificou a secretaria.

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Idosa, hipertensa e transplantada, técnica de enfermagem demorou a ser afastada de hospital

Por ser profissional de saúde - atuava no Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo -, Juraci estava mais exposta a uma eventual infecção pelo vírus. E pior: na época, faltavam equipamentos de proteção individual (EPIs) na unidade

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 11h00

Apaixonada pela profissão, a técnica de enfermagem Juraci Augusta da Silva seguia trabalhando aos 72 anos, mesmo após a aposentadoria por idade. Não abandonava a rotina de cuidado ao outro nem quando estava fora dos hospitais. Nos dias que tinha uma folga mais longa, dirigia até a Bahia ou a Minas com um grupo de amigas para atuar em trabalhos assistenciais.

Quando o coronavírus chegou a São Paulo, em 25 de fevereiro, as filhas e netos de Juraci ficaram preocupados. Além da idade avançada, o que já é um fator de risco para complicações da doença, Juraci era hipertensa e transplantada. “Ela fez transplante de rim há três anos. Tomava aqueles medicamentos de imunossupressão, o que aumenta ainda mais o risco de ter baixa imunidade”, conta uma das filhas, a enfermeira Ana Paula da Silva, de 51 anos.

Por ser profissional de saúde - atuava no Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo -, Juraci também estava mais exposta a uma eventual infecção pelo vírus. E pior: na época, faltavam equipamentos de proteção individual (EPIs) na unidade, segundo relato da idosa à filha. “Ela tinha de ter sido dispensada logo no início. Como eles não liberaram inicialmente, falei para ela pelo menos tomar todas as precauções. Ela dizia que tomava cuidado quando dava, porque não tinha máscara para todo mundo.”

De acordo com a filha, Juraci só foi liberada do trabalho em 16 de março, 20 dias após o primeiro caso ser registrado na cidade e quatro dias após a capital já ter confirmada a transmissão comunitária da doença. Em 19 de março, a técnica de enfermagem começou a se sentir mal. “Começou com diarreia. Ela até achou que podia ter a ver com o transplante. Chegou a ir ao hospital, foi medicada, mas voltou para casa”, conta Ana.

Juraci piorou nos dias seguintes e começou a apresentar febre, tosse e falta de ar. “No dia 22, levei ela ao hospital de novo e já foi entubada na mesma madrugada. De lá não saiu mais. Morreu cinco dias depois”, lamenta a filha. A família acredita que ela tenha sido infectada no trabalho, pois outros profissionais do hospital adoeceram na mesma época. “Um colega do mesmo plantão dela morreu na mesma semana. Eles tinham que ter afastado mais cedo todos que eram do grupo de risco.”

Questionada pelo Estadão, a Prefeitura disse que lamenta a perda de Juraci e afirmou que ela estava afastada de suas atividades para tratamento de saúde desde 14 de março. Informou ainda que todas as unidades de saúde da capital seguiram a portaria que estabeleceu que servidores com mais de 60 anos, em funções administrativas, poderiam ser direcionados para o teletrabalho. A Prefeitura não deixou claro qual era a regra seguida para funcionários que não eram da área administrativa, como Juraci.

Sobre a falta de EPIs, a administração municipal afirmou que garante os objetos para seus colaboradores e pacientes e que o consumo de máscaras cirúrgicas nos 11 hospitais administrados pela Autarquia Hospitalar Municipal, da qual a unidade do Tatuapé faz parte, passou de 75 mil em fevereiro para 280 mil em março e abril. “Vale ressaltar que, mesmo diante da escassez mundial de produtos de proteção, todas as unidades de saúde tiveram seus estoques abastecidos”, disse a Prefeitura.

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Por falta de sedativo, enfermeiro morre esperando entubação

Por falta de estrutura adequada, centros exclusivos para tratamento de covid em Macapá não conseguiram salvar a vida do enfermeiro Evandro da Silva Costa, de 42 anos. Parentes fizeram força-tarefa por insumo

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 11h00

Sem estrutura adequada, nenhum dos dois centros de saúde abertos exclusivamente em Macapá para cuidar de doentes com covid foram capazes de salvar a vida do enfermeiro Evandro da Silva Costa, de 42 anos. Ele começou a sentir os sintomas da doença em 13 de maio e procurou assistência no Hospital de Clínicas da cidade, onde trabalhava e conhecia a equipe. A unidade, porém, não era referência para pacientes com infecção pelo coronavírus e, por isso, a equipe médica preferiu transferi-lo para o Centro Covid-2, uma das estruturas abertas exclusivamente para a pandemia.

Costa foi internado no local em 14 de maio, mas a unidade ainda não estava totalmente equipada para os casos mais graves. “Apesar de ser centro de referência, não estava operando integralmente por falta de uma retaguarda de medicamentos e profissionais. Naquele dia, ele me mandou mensagem dizendo que estava jogado lá, que não tinha recebido alimentação nem remédios. E ele estava piorando”, conta o advogado Amerson Maramalde, de 42 anos, amigo de Costa.

Na manhã de 15 de maio, Costa deixou de responder mensagens dos amigos e familiares porque seu celular descarregou. Preocupado, Maramalde pediu a um profissional do Samu que estava no hospital para checar o estado de saúde dele. “Ele me disse que o Evandro estava extremamente ofegante, com saturação de 47%. Então começamos a ver a possibilidade de transferência para o Centro Covid-1, que tinha mais estrutura”, conta.

Maramalde e os demais amigos de Costa, a maioria profissionais de saúde, verificaram se havia vaga na outra unidade. Os médicos informaram que tinham leito disponível, mas que os sedativos, anestésicos e relaxantes musculares usados no processo de entubação estavam em falta. “Eles disseram que, contanto que a gente conseguisse os medicamentos, eles internavam”, conta.

Familiares e colegas iniciaram, então, uma força-tarefa para conseguir os insumos. Falaram com conhecidos em outros hospitais que pudessem fornecer os remédios. “Quando deu 17h30 daquele mesmo dia, conseguimos os medicamentos e a bomba de infusão. Confirmei com o médico do Centro Covid-1 a transferência, mas aí recebemos a informação que ele tinha falecido”, conta o advogado, que representa a família de Costa em ação movida contra o Estado do Amapá por negligência.

O enfermeiro deixou mulher, dois filhos, uma enteada e uma neta. “Era diabético, hipertenso, já chegou ao primeiro hospital ofegante. Era pra ter sido colocado na UTI de imediato. Ele não foi vítima só do vírus. Foi vítima de negligência pela falta dos medicamentos”, afirma Maramalde.

Questionada sobre o caso de Costa, a Secretaria da Saúde do Amapá não respondeu aos emails e telefonemas da reportagem. O Ministério da Saúde foi questionado sobre a escassez de medicamentos para entubação no País e sobre quais ações tomou após ser oficiado sobre o problema pelo Conselho de Secretários de Saude, em maio. A pasta informou que agiu “imediatamente” após receber as informações das secretarias, “com ações como a verificação de entraves na produção nacional por meio da Anvisa e reuniões com indústria e distribuidores”.

Disse ainda que adquiriu e já entregou 992,2 mil unidades desses medicamentos comprados da indústria nacional e outras 54,8 mil unidades de produtos importados de empresas uruguaias. Afirmou também que realizou, no último dia 27, licitação para aquisição de anestésicos e que dá seguimento à compra internacional desses tipos de medicamentos por meio da Organização Panamericana de Saúde (Opas).

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