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'A experiência do viver é sensorial', diz Mariana Stock, do Prazerela

Os questionamentos da vida laboral fizeram a psicanalista redescobrir a felicidade e ter um propósito. Hoje, ela ajuda mulheres a também encontrar essa resposta

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2022 | 05h00

“Eu apresento um espelho bonito para as pessoas, sabe? Um espelho de uma possibilidade que está em cada uma, que todas nós temos, dessa potência de habitar o corpo, de sentir lindamente. E o que eu faço é partilhar a minha experiência e fazer o outro perceber que ele também pode.” 

É assim que Mariana Stock, comunicadora, psicanalista, terapeuta orgástica e fundadora do Prazerela, núcleo de sexualidade positiva e bem-estar, sintetiza seu trabalho.

Para ela, dar prazer ao corpo é uma forma de cuidado e beleza. “É uma questão de se olhar, de se colocar em primeiro lugar e questionar o que te traz felicidade, o que te dá prazer de viver. Se a gente se dedicar um pouquinho todo dia ao nosso corpo, a gente vai chegar lá”, coloca ela, que percorreu um longo caminho para redescobrir o prazer.

DESPERTAR

Criada por uma família conservadora de Curitiba (PR), Mariana foi ensinada a estimular a parte intelectual em vez da emocional. Assim, aos 21 anos Mariana já trabalhava no marketing de uma importante multinacional. “Mas aí chegou um momento, depois de quatro anos trabalhando lá, que começaram a vir alguns questionamentos a respeito do que eu estava fazendo ali, de qual era o objetivo daquilo tudo”, conta. 

A crise interna foi tamanha que ela decidiu pedir demissão e sair pelo mundo. E depois de quase um ano conhecendo sozinha todos os continentes, Mariana ampliou seu olhar e voltou com a certeza de que a vida precisava ser aproveitada ao máximo. 

Decidiu vir para São Paulo trabalhar em uma empresa que tivesse mais a ver com a “nova Mari”. Porém, depois de sete anos, os questionamentos voltaram a encher a cabeça da empresária. “Essa minha autoinvestigação faz parte de toda a minha trajetória desde sempre. Óbvio que há um ego que me impulsiona, que me mobiliza a tomar decisões. Mas essas decisões sempre se aprofundam na consciência.” 

SE ENCONTRAR

Como uma viagem sozinha a ajudou na primeira vez, não teria como ser diferente. Dessa vez, ela partiu para o Caminho de Santiago, rota peregrina majoritariamente na Espanha. “Foi um momento bem importante para minha vida, de perceber o quanto o peso nas costas dificulta o caminhar, o quanto a gente vai acumulando coisas e isso atrapalha a nossa capacidade de ver beleza no caminho.”

Na volta, decidiu dedicar seus dias a descobrir o que lhe dava prazer em viver. A cada dia ela se propôs a fazer uma atividade: dança, escrita, pintura, não importava. A ideia era mexer com o corpo e o lúdico. “Eu sou uma pessoa muito apegada à ciência, com um discurso muito racional. E naquele momento ficou evidente que para eu achar prazer eu precisava investigar o meu corpo.”

A partir daí começou a nascer uma necessidade de falar sobre um campo da sexualidade a partir de um viés feminista. “É revolucionário poder falar de algo que nunca foi dito. Uma sexualidade como caminho de potência, autoestima e prazer, não sobre sexo, mas sobre a nossa individualidade.”

RENASCER

As viagens, os afetos e diálogos compartilhados e principalmente a liberdade de ser quem se é permitiram que o Prazerela nascesse.

“É uma experiência pensada por mulheres e para mulheres. Não é sobre uma massagem genital, mas sim sobre uma experiência de vida, uma experiência de corpo”, conta ela.

De acordo com Mariana, nossa autoestima ainda está muito pautada no elogio e no padrão. “Muito do meu trabalho é a construção de autoestima a partir de um outro lugar. Que não é mais sobre essa expectativa em relação ao olhar do outro, mas sim um olhar amoroso próprio a nosso respeito”, diz. 

Para mudar essa situação e colocar a individualidade como protagonista da experiência do autocuidado, ela ensina mulheres a resgatar a potência de viver através da redescoberta do prazer.

“A experiência do viver é sensorial. Mas na nossa sociedade o corpo vira objeto de troca, objeto de locomoção. Deixa de ser vivenciada. A gente não tem contato com educação de sentir e qualquer menção à sua sensibilidade é cortada”, afirma. 

Com a redescoberta de si mesma, Mariana ajudou mais de 5 mil mulheres a resgatar a potência do prazer de viver por meio do autoconhecimento. “Saí de um lugar egocêntrico para ir para um lugar de entender uma necessidade humana, feminina e poder estar a serviço disso”, diz.

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