Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

A falta de mobilidade nas pernas não impediu Jéssica Paula de realizar todos os seus sonhos

Aos 30 anos, a jornalista que foi diagnosticada com mielite transversa já visitou 34 países e até atravessou os Lençóis Maranhenses de muleta

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2022 | 05h00

Aos 6 anos, a jornalista Jéssica Paula não conseguiu mais andar. Tudo começou com uma infecção de garganta que mudou de lugar e foi para a medula, causando uma mielite transversa. “Eu tenho memória de andar. Andava muito de patins, na verdade, brincava muito. Eu fui criada em um sítio no interior de Goiás e eu lembro muito de pular, correr, brincar. Era muito ativa”, conta ela, que mesmo hoje, paraplégica, continua com a energia no mesmo nível – se não maior. 

Com 30 anos, Jéssica já visitou 34 países e foi a primeira mulher (que se tem informação) a fazer a travessia dos Lençóis Maranhenses de muletas. “É muito para mostrar que nós, pessoas com deficiência, conseguimos, sim. Quem decide se eu consigo ou não chegar a algum lugar, sou eu”, afirma.

Há quem diga que a força do pensamento é a mais forte que existe. Claro que esforço e determinação são essenciais, mas uma vez que você coloca sua mente em algo, é possível alcançar. Pelo menos é isso em que acredita a jornalista Jéssica Paula que, desde pequena, já sonhava em desbravar o mundo e não deixou que nada – nem mesmo a falta de mobilidade das pernas – a afastasse desse sonho. 

“Eu aprendi a fazer tudo do zero, porque não conseguia fazer mais nada depois do meu diagnóstico de mielite transversa. E fui aprendendo a sentar, depois engatinhar, aí passei para cadeira de rodas, andador, muleta axilar, até chegar ao modelo canadense, que é o que eu uso até hoje”, conta. 

Na infância, ela passou por vários momentos solitários e situações de bullying. “Queria fazer parte de grupos, mas querendo ou não eu ficava mais excluída, principalmente quando a galera saía para as festas. E o meu refúgio foram os estudos. Foi nessa época que eu coloquei a meta de que queria sair do interior e ir para Brasília.”

Como passou a ser costume em sua vida: meta dada, meta cumprida. Jéssica entrou em jornalismo na Universidade de Brasília e ali começou a explorar o mundo. Primeiro conseguiu uma viagem para Buenos Aires, depois um mochilão pela América Latina e então um intercâmbio na Espanha.

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Escutamos que não conseguimos fazer um monte de coisas. E aí você vai a um lugar e descobre que consegue. Então a cada viagem eu me sinto mais forte
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Jéssica Paula, Jornalista

“Esse processo de conhecer pessoas diferentes, culturas diferentes, toda essa diversidade de ideias fez com que eu abrisse minha mente e entendesse que o mundo é maior do que os empecilhos que a gente coloca para nós mesmos”, diz ela. A compreensão e aceitação de ser quem se é foi fundamental para criar uma confiança em si mesma. 

Na adolescência, Jéssica se cansou de escutar a frase “o seu rosto é muito bonito”, sempre como uma ressalva. Além disso, vivia o processo de descobrir sua sexualidade, hoje entendida como homoafetiva. “A frase que eu dizia pra mim mesma era: ‘Além de ser deficiente, eu vou ser lésbica? Não é possível’”, conta. Mas com a segurança pessoal, ela começou a tratar o assunto com mais naturalidade e passou a prezar pela sua felicidade em vez de se preocupar com a opinião dos outros. “Foi nesse momento que eu comecei a me sentir atraente.”

BELEZA

Para começar a se olhar com olhos bondosos, foi necessário um tripé. Profissionalmente, ela começou a fazer trabalhos dos quais se orgulhava; nas redes sociais, passou a se conectar com pessoas com vivências similares à sua; e, nas viagens, pôde perceber a força que tinha.

“Constantemente, escutamos que não conseguimos fazer um monte de coisas. E aí de repente você vai para um lugar e descobre que consegue fazer coisas maravilhosas. Então a cada viagem eu vou me sentindo mais forte”, afirma. 

Para ajudar outras pessoas com deficiência, Jéssica criou o site passaporteacessível.com.br, que fala sobre turismo e acessibilidade. Além disso, está fazendo a série 7 Elementos, no YouTube, em que ela desbrava sete elementos da natureza (ar, água, rocha, gelo, terra, fogo e areia).

“Eu sempre gostei de desafios. E isso é algo que exige uma preparação não só física, mas também um planejamento estrutural. Nos Lençóis, por exemplo, usei um modelo de muleta com uma borracha especial que não afunda na areia”, explica.

Seu maior desafio, porém, foi ter coragem de mostrar seu corpo. Um ensaio fotográfico, feito em dezembro do ano passado, a ajudou a perceber a maneira cruel com que se via. “Eu sempre achei meu corpo esquisito, feio. E no ensaio, eu estava poderosa, estava me sentindo linda, sem Photoshop ou efeito nenhum”, lembra ela. “Até os 28 anos, eu não olhava meu reflexo. Mas quando você se sente bem, você transparece beleza.” 

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