Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

'A febre amarela está aqui para ficar', diz representante da OMS

Segundo Laurence Cibrelus, vacina global custaria US$ 2,3 bi, valor menor do que o gasto pelo Brasil na Copa do Mundo de 2014

Entrevista com

Laurence Cibrelus, Organização Mundial da Saúde

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2018 | 04h00

GENEBRA - Angola e Brasil são exemplos para a Organização Mundial de Saúde (OMS) de que o risco da febre amarela mudou e que existe hoje uma maior ameaça de surtos. O alerta é de Laurence Cibrelus, ponto focal na OMS para implementar uma estratégia ambiciosa de acabar com a epidemia de febre amarela no mundo até 2026.

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"É uma ameaça série e precisa ser levada a sério. Esses casos são sinais de que o risco nesses países mudou e que a população não está suficientemente protegida", disse.

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Em sua avaliação, o risco da doença mudou diante do impacto das mudanças climáticas, dos deslocamentos populacionais e desmatamento. Para a OMS, além de imunizar a população em áreas de risco, o foco é evitar a exportação de casos para além das fronteiras conhecidas da doença. Caso contrário, a febre amarela poderia ser uma ameaça para a saúde global. 

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"A doença não pode ser erradicada. Mas o que podemos fazer é eliminar a epidemia, com ampla imunização sustentada ao longo dos anos. Podemos, assim, garantir que o vírus pare de circular em humanos", garantiu.

Em sua avaliação, o que fará a diferença é "um compromisso político forte". "Precisamos que governos entendam as ameaças da febre amarela e o impacto que poderia ter. Ela está aqui para ficar", disse. 

Para vacinar todas as pessoas que precisam de proteção, a OMS estima que precisa de pelo menos US$ 2,3 bilhões (R$ 7,3 bilhões) ao longo de dez anos para comprar as vacinas para todos que serão protegidos, além de gastos operacionais. O valor, porém, é inferior ao que o Brasil gastou para erguer os estádios da Copa do Mundo, de 2014. Naquele ano, o orçamento para as arenas ficou em cerca de R$ 8,3 bilhões. 

Em seu escritório em Genebra, Laurance explicou ao Estado a estratégia.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista: 

Qual é o cenário atual da febre amarela no mundo?

Em 2016, tivemos um surto urbano em Angola, que se espalhou para a República Democrática do Congo e com casos exportados para a China. Existiu um grande risco de epidemias urbanas, a partir da exportação de casos. Isso nos ajudou a entender que havia um aumento do risco de surtos e transmissão internacional. Hoje, a febre amarela é endêmica na África e nas Américas. Mas a maior preocupação que temos é de que a febre amarela se espalhe de zonas endêmicas para novos locais, como China ou India, onde existe dengue, que é uma doença transmitida pelo mesmo mosquito que transmite a febre amarela urbana, e também onde a população não está imunizada contra a febre amarela. A questão, portanto, era a de controlar a febre amarela e garantir que ela ficasse dentro de suas fronteiras atuais e que não se proliferasse. Isso mudaria o jogo, até mesmo para se tornar uma ameaça para a saúde global porque teríamos problemas em conseguir vacinas para essas pessoas a tempo.

Qual foi então a estratégia da OMS para conter a doença em suas fronteiras?

Tivemos esforços no passado para eliminar as epidemias, principalmente na África. Isso teve um impacto dramático, com campanhas nacionais. Graças a isso, ganharam imunidade para prevenir epidemias por 20 ou 30 anos. Desde então, não houve mais surtos no oeste da África, pois apenas uma dose da vacina é suficiente para proteger por toda a vida. Mas a questão foi manter os ganhos, implementando e sustentando a imunização de rotina de crianças. Apesar dos esforços, o vírus da febre amarela continuou circulando em outras áreas do continente. Isso é o que levou à epidemia em Angola e República Democrática do Congo e o que nos levou a entender que teríamos de repensar a estratégia.

De que forma?

O risco aumentou tanto que não poderíamos nos basear no que havia ocorrido no passado. Os riscos mudaram, os fatores ecológicos mudaram. Hoje, a questão, além de garantir proteção para populações em risco, é de evitar a exportação de casos para além das fronteiras conhecidas da doença. Cada vez que há um surto, a questão é a de controlá-lo o mais rapidamente possível. A febre amarela está aqui para ficar. A doença não pode ser erradicada. Mas o que podemos fazer é eliminar a epidemia, com ampla imunização sustentada ao longo dos anos. Podemos, assim, garantir que o vírus pare de circular em humanos. Isso é que queremos atingir até 2026.

Até que ponto as mudanças climáticas redesenharam as fronteiras da febre amarela?

De fato, está mudando. O mosquito é o ponto principal, e onde podemos encontrá-lo varia conforme vemos mudanças climáticas, mas também com uma transformação no uso do solo. Houve um aumento das chuvas e, portanto, houve um impacto na densidade de população dos vetores e onde estão. Com isso houve um impacto direto na transmissão da febre amarela. Houve também mudanças importantes no desmatamento. É na floresta que está o ponto inicial da doença.

Quais são as inovações em sua estratégia que não existia antes?

Proteger pessoas em algumas profissões específicas, como trabalhadores em extração mineral e pessoas no setor do petróleo. Identificamos que o risco de a febre amarela se espalhar para outras áreas não vem apenas de turistas. Mas também de trabalhadores, especialmente em áreas de desmatamento. Outra inovação é criar centros urbanos mais resistentes, pois quando acontece em cidades, a febre amarela pode ter consequências devastadoras. Além de ter impacto profundo para a economia, para o comércio, pode destruir sistemas de saúde. Portanto, precisamos ter centros resistentes para detectar rapidamente os casos em centros urbanos. Em dezembro, um grupo de trabalho que lida com questões laboratoriais foi lançado. Esse grupo vai ajudar a desenvolver novos métodos de diagnósticos, como testes rápidos em pontos de atendimento. Além disso, mantemos um estoque de 6 milhões de doses de vacinas para emergências que podem chegar a um país rapidamente.

E como aplicar a estratégia?

A questão é ter atividades continuas de imunização. Precisamos ter mais de 80% da população de uma área de risco vacinada. Mas não adianta realizar campanha uma só vez. Manter a imunização significa vacinar as crianças a partir de 9 meses de forma rotineira. Em alguns países, principalmente na África, a recomendação é de que toda a população seja vacinada. A estratégia tem um ano. Mas podemos eliminar as epidemias. Isso pode ser feito em dez anos. Quarenta países com maior risco de epidemias de febre amarela serão os focos de nosso trabalho, temos 50 parceiros pelo mundo.

Quais são os desafios?

Um compromisso político forte. Isso faz a diferença. Precisamos que governos entendam as ameaças da febre amarela e o impacto que poderia ter, caso epidemias ocorram. As pessoas se esquecem da febre amarela. Mas ela não vai a nenhum lugar. Ela está aqui para ficar e o risco contínuo. O compromisso político é chave. Governos endossaram nossa estratégia nas Américas e na África em 2017. Há um reconhecimento de que há um maior risco de surtos urbanos e um reconhecimento de que é um risco global.

Por que isso tudo não foi feito no passado? A vacina é conhecida desde 1937, e estamos no século 21 ainda falando sobre isso?

O risco mudou. A ecologia mudou, o padrão de movimentação das populações mudou. Portanto, se campanhas de vacinação não forem mantidas, a febre amarela pode voltar. Precisamos garantir que todos em risco estejam protegidos.

Houve um surto em Angola em 2016, no Brasil agora os casos voltam a aumentar. O que isso demonstra?

Isso justamente mostra que o risco mudou e que existe maior ameaça de surtos urbanos, com impacto devastador. É por isso que precisamos manter a vacinação. É uma ameaça série e precisa ser levada à sério. Esses casos são sinais de que o risco nesses países mudou e que a população não está suficientemente protegida.

Quantas doses de vacina vocês precisarão ter para cumprir esse objetivo?

Precisamos de 1,4 bilhão de doses em dez anos. Isso pode ser atingido, considerando os planos de expansão de produção das fábricas nos próximos anos. Hoje, temos mais de 90 milhões de doses produzidas por ano, colocados no mercado por quatro empresas. A expectativa é de que esse número aumente ainda mais, chegando a cerca de 160 a 180 milhões de vacinas produzidas anualmente. Se isso for cuidadosamente planejado, pode funcionar. O que também precisamos fazer é alocar as vacinas para quem mais precisa.

Mas então por qual motivo alguns países, como Brasil, estão fracionando as doses da vacina?

Por causa do aumento do numero de casos da doença. Se planejarmos bem, estamos em uma situação confortável para a estratégia preventiva. Mas, para o caso de um surto ou emergência, a vacina fracionada é uma solução. Foi efetiva para controlar a epidemia na República Democrática do Congo. Foi a primeira vez, e há agora um acompanhamento para avaliar até que ponto a proteção é válida. Mas, para as campanhas regulares, a recomendação é que a dose complete da vacina seja aplicada. A recomendação da OMS, até o momento, é de que a vacina fracionada seja apenas para situações de epidemias, em um momento de estoque de vacinas limitado.

 

Quanto vai custar para vacinar todas as pessoas que precisam ser vacinadas até 2026?

Avaliamos que, ao longo de 10 anos, o projeto possa envolver em torno de US$ 2,3 bilhões destinados a custos operacionais e com as vacinas em si, além de outros custos adicionais para atividades de suporte a implementação da estratégia. Os custos com as atividades de imunização são os mais altos. Mas isso é um investimento. O impacto de uma epidemia de febre amarela para um país pode ser devastador. Essa estratégia pode mudar o jogo. Temos capacidade e sabemos que, através de comprometimento político e do suporte de nossos parceiros, podemos eliminar as epidemias até 2026. 

 

 

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