Felipe Rau/Estadão
A dentista Kátia Gaspar trabalhou na linha de frente do combate ao novo coronavírus. Felipe Rau/Estadão

'A gente tenta explicar, mas a resistência é grande', conta dentista que atuou no combate à covid-19

Aos 54 anos, Kátia Gaspar trabalhou 21 na rede pública de São Paulo antes de ser realocada para a linha de frente da pandemia

João Ker, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 12h00

Trabalhando no sistema público de saúde há 21 anos, a dentista Kátia Gaspar, de 54 anos, se viu em um desafio profissional que nunca imaginou viver. Foi realocada, em maio, para a linha de frente do combate ao novo coronavírus. Em Campo Limpo, região periférica da zona sul de São Paulo, trabalhou durante três meses recebendo os pacientes que chegavam ao posto com suspeita de terem contraído a covid-19. "A população não tinha consciência do que estava acontecendo", lembra.

Há 12 anos funcionária do Centro de Especialidade Odontológica em Campo Limpo, um dos 30 na capital, viu os atendimentos da unidade serem suspensos ainda em março, quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) decretou calamidade pública na cidade. Em abril, um decreto federal obrigou dentistas e outras 14 categorias de profissionais da saúde se cadastrassem em um banco nacional. Em maio, Kátia voltou ao Campo Limpo para realizar o primeiro atendimento de triagem a quem chegasse ao posto de saúde.

"A princípio, a gente acreditou que fosse ficar só na nossa área mesmo. Como eu trabalhava no setor de especialidades, não tive uma atuação efetiva. Os dentistas que atuavam na parte da atenção básica estavam fazendo atendimentos de emergência, caso tivesse necessidade", explica. Ainda assim, à medida que a pandemia evoluiu até entre os próprios médicos, que registraram mais de 250 mil infecções até agosto, a dentista também teve que ajudar em outras partes.

Foram três meses na recepção de um posto, recebendo pacientes com sintomas e os direcionando a uma de duas salas disponíveis para o tratamento. "É difícil, viu? Eu dava conta, mas era difícil. Trabalhava meio período, mas só nesse tempo eu atendia até 40 pacientes por dia", lembra. "Tinha momentos que ficava muita gente esperando e eu ficava agoniada pra tentar ajudar o mais rápido possível, porque percebia que os médicos não estavam dando conta. Eram dois para uma demanda de 15, 20."

Kátia pedia para as pessoas na fila terem paciência e, quando as ambulâncias chegavam, já encaminhava alguns diretamente para o hospital. "Ficava querendo ajudar mais efetivamente", explica. Ao mesmo tempo, precisava equilibrar o medo de se contaminar e, eventualmente, transmitir o vírus para a mãe, com quem mora e ajuda a cuidar. "A gente fica preocupado até em passar para outras pessoas, mas usamos todo o equipamento necessário e tomamos os cuidados possíveis."

Apesar de usar constantemente a máscara, passar o álcool em gel nas mãos e tirar a roupa antes de cumprimentar a mãe, Kátia conta que se espantava ao ver o pouco cuidado com que a população encarava a pandemia. "Eu via nas ruas cada vez mais as pessoas saindo, gente andando tranquilamente com crianças, gente indo para a UBS sem necessidade."

Apesar das dificuldades, Kátia afirma a experiência foi válida para reconhecer o trabalho duro de enfermeiros no dia a dia e valorizar os profissionais da saúde. "A gente tenta explicar, mas a resistência é grande, os pacientes querem fazer tudo da cabeça deles. Senti que fui muito útil, pelo menos no sentido de orientar. Até hoje, as pessoas não sabem a necessidade de usar a máscara corretamente, mas sentimos que têm mais consciência do que está acontecendo. Quando o problema chega na família que a gente vê a necessidade de se proteger."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Marcos Capez, presidente do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo. Werther Santana|Estadão

Ida ao dentista aumenta após consultas adiadas na quarentena; bruxismo e fraturas são comuns

Enquanto o sistema público restringiu atendimento para casos emergenciais, com queda superior a 80%, rede privada vê aumento de clientela desde junho

João Ker , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Marcos Capez, presidente do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo. Werther Santana|Estadão

A alta demanda de tratamentos odontológicos, represada nos primeiros meses da pandemia, começa a lotar consultórios em São Paulo e no restante do País, impulsionada pelas flexibilizações da quarentena. Dados nacionais coletados pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) apontam que os atendimentos caíram 83,5% no sistema público e 68,2% na rede privada em maio, mas profissionais dizem já ver sinais de retomada. Dentistas, ortodontistas e cirurgiões relatam ainda aumento nos casos de bruxismo, fraturas dentárias e cáries, problemas frequentemente ligados à ansiedade ou dieta desequilibrada.

"A odontologia sofreu praticamente nos mesmos termos de toda a economia no Brasil. Agora, nesse segundo momento, depois de praticamente três meses sem atendimento, a demanda reprimida vem sendo atendida a contento", diz o presidente do Conselho Federal de Odontologia (CFO), Juliano do Vale. Segundo a regional paulista do conselho, 67,1% dos profissionais trabalharam só com emergências na crise sanitária.

No início da pandemia, o CFO pediu ao Ministério da Saúde que suspendesse consultas na rede pública para manter só atendimentos emergenciais. Em abril, a solicitação foi reforçada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Paralelamente, a rede privada implementou medidas adicionais de biossegurança, do uso de EPIs a um maior intervalo entre pacientes para a desinfecção dos consultórios.

Em agosto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçou a orientação de adiar a ida ao dentista em regiões onde houvesse transmissão comunitária do vírus. Entre os argumentos, estava o risco de transmissão por pequenas partículas que saem da boca. Ainda há, porém, poucos estudos que descrevam a ameaça de contágio nesses espaços, e a recomendação foi recebida com ultraje por órgãos internacionais. Nos Estados Unidos,  a Associação de Dentistas Americanos (ADA) divulgou resposta na qual "respeitosamente, mas fortemente discorda" da posição do órgão mundial, afirmando que tratamentos odontológicos são essenciais à saúde. O movimento foi replicado pela Associação de Dentistas Canadenses (CDA, na sigla original em inglês) que alegou em comunicado que o país não tinha a situação epidemiológica descrita pela OMS e que os tratamentos não só estavam disponíveis, mas não deveriam ser adiados.    

Dados do Ministério coletados a pedido do CFO mostraram que cirurgiões-dentistas, auxiliares e técnicos em saúde bucal foram os menos afetados pela covid-19 dentre profissionais da saúde. Até o fim de julho, mais de quatro meses após o vírus chegar ao Brasil, o setor tinha registrado 4.589 infectados e cinco óbitos no País. "Nas campanhas do CFO, reforçamos que todos se acostumaram a ver o dentista atendendo de jaleco, luva e óculos. Sempre convivemos com esse risco de contaminação, fosse pelos vírus do HIV, da tuberculose etc.", explica Vale. 

Foram as clínicas e consultórios particulares que acabaram recebendo grande parte da demanda de tratamentos não emergenciais, que tiveram redução expressiva na rede pública. Conforme a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, as 422 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) realizaram quase 1 milhão de consultas a menos de janeiro a agosto, ante o mesmo período de 2019.

"No momento em que abriram os shoppings, houve aumento pela procura. O cidadão começou a se sentir mais seguro", diz Marcos Capez, presidente do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo. A retomada do movimento, que começou em junho na capital paulista, foi sentida também em nível nacional, reforça Juliano do Vale.

Desequilíbrio emocional reflete na saúde da boca, diz especialista

Agora, três meses desde que essa retomada começou nos consultórios, dentistas se deparam com diferentes tipos de problemas que se agravaram durante a pandemia. "Pacientes com dentes fraturados, quebrados e outros procurando placas de bruxismo e relaxamento. A descarga das tensões emocionais, principalmente nos casos de bruxismo, aumentaram durante a pandemia. Houve um desequilíbrio emocional que refletiu na saúde bucal", conta Marcos Capez, do conselho paulista.

"A pessoa que está com quadro ansioso e ficou confinada mudou o hábito e ingeriu mais açúcar, mais álcool, fumou mais do que fumava. Dá para conectarmos essa questão com a saúde alimentar também, porque muitos migraram do escritório para casa durante a pandemia, e isso repercute em mais comida processada ou por delivery", observa. Em maio, pesquisa da Fiocruz com mais de 40 mil brasileiros constatou que 34% dos fumantes aumentaram o número de cigarros fumados por dia e 18% da população passou a ingerir mais álcool na quarentena.

"Se ficar em casa por muito tempo, vai ter dor de dente, precisar de higienização, remoção de tártaro, prótese e ainda tem toda a parte estética para cuidar", observa Mario Cappellette, presidente do núcleo paulista da Associação Brasileira de Odontologia (ABO-SP). Ele afirma que percebeu e também ouviu de colegas relatos sobre o aumento dos casos de bruxismo e, consequentemente, de dentes quebrados ou fraturados.

"Isso está relacionado ao estado nervoso que a pessoa se encontra. Quando você dorme, entra na fase de sono sem relaxamento e joga a força mastigatória na mandíbula, que acaba travando", explica Roberta Lopes Cesario, mestre em Ortodontia e professora da ABO-SP.  Essa concentração da ansiedade e estresse na mandíbula pode resultar em dentes fraturados ou quebrados. Artigo publicado pelo jornal americano The New York Times, de setembro, também tratava de uma "epidemia" de dentes quebrados observada nos consultórios norte-americanos. "Vi mais dentes quebrados em seis semanas do que nos seis anos anteriores", relatou Tammy Chen, uma especialista em prótese dentárias de Manhattan. 

Outros sintomas comuns são dor de cabeça, boca, ouvido, enxaqueca, fadiga e dificuldade de concentração, além de disfunção temporomandibular (DTM). "Todo mundo teve de se adequar ao 'novo normal', mas algumas pessoas ainda tiveram de fazer isso com dores referentes à falta de tratamento. Até as crianças estavam rangendo os dentes também, com alteração de comportamento", aponta Roberta. 

Alta de custos também afeta rotina dos profissionais

Outro fator que pesou e ainda pesa no bolso dos dentistas que trabalham durante a pandemia é o preço de insumos e equipamentos de proteção, que chegaram a custar até 3 mil vezes mais do que antes. "O setor privado teve um efeito muito grande porque os governadores, com razão, priorizaram a disponibilidade de insumos para as equipes médicas. Isso chegou a faltar no setor privado e o preço explodiu", afirma Capez, do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo. Uma caixa de máscaras com 50 unidades, por exemplo, foi de R$ 12, em janeiro, a até R$ 300. As luvas, de R$ 20 a quase R$ 70.

"Como estávamos no forte da pandemia, muita gente tinha reduzido em até mais de 90% o atendimento. O prejuízo pode ter chegado até ao total do faturamento prévio", destaca Rafael Moraes, professor da Faculdade de Odontologia da UFPel e um dos responsáveis pela pesquisa sobre a redução de movimento nos consultórios no País. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tempo em casa e nas redes sociais aumenta busca por procedimentos estéticos

Ortodontista passou a receber demandas por cirurgias para retirar o siso e bichectomia; psicóloga alerta para a busca pelo rosto 'perfeito'

João Ker, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 12h00

Além do aumento em casos de bruximos e fraturas dentárias após os meses de quarentena, alguns profissionais de odontologia e saúde bucal começam a relatar também uma alta nas buscas por procedimento estéticos como harmonização facial, bichectomia e aplicação de botox. "As pessoas fizeram muitas lives e, se vendo depois no vídeo, queriam mudar o sorriso, melhorar a cor dos dentes, alguns também quiseram retocar a face", aponta Mario Cappellette, presidente do núcleo paulista da Associação Brasileira de Odontologia (ABO-SP). 

O movimento foi sentido também por Kamila Godoy. Pesquisadora da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) e ortodontista, ela diz que primeiro começou a receber pacientes com dentes quebrados, fissuras e dor na articulação temporomandibular (ATM). Em meados de julho, a demanda mudou. "Houve aumento absurdo de procura por procedimentos estéticos. As pessoas queriam aproveitar o momento para fazer algum procedimento que precisasse de repouso e, por ter que ficar em casa, houve uma procura bem alta de cirurgias para retirar o siso, bichectomia (procedimento para reduzir as bochechas) etc.", conta.

"A questão de ficar em casa levou a um tempo ocioso muito grande. Como aumentou também o uso de redes sociais, a pessoa passou a vislumbrar a imagem dela com mais frequência e visualizar pessoas 'perfeitas' o tempo todo", explica a psicóloga Katree Zuanazzi, diretora do Instituto Brilhar Saúde Mental, de Curitiba. 

Ela aponta que há uma diferença entre buscar o aperfeiçoamento e a mudança completa do rosto, provocado pelo mar de filtros e falsas perfeições que as redes sociais oferecem. "Todo mundo tem algo que gostaria de melhorar ou que não é perfeito. É importante ver quais desejos são amadurecidos e vêm de anos. Toda ideia que vem de repente foi, provavelmente, implantada por redes sociais ou ideais de perfeição."

Tudo o que sabemos sobre:
odontologiaortodontiaquarentena

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.