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Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

A história nos lembra que, sozinhas, as vacinas não acabam com as pandemias

Durante meses, elas serão mais uma das medidas de saúde pública adotadas para conviver com uma epidemia

E. Thomas Ewing, The Washington Post

04 de dezembro de 2020 | 10h00

As notícias animadoras a respeito do desenvolvimento de muitas das diferentes vacinas trazem a esperança de controlar a pandemia do novo coronavírus em um momento em que o número de casos volta a explodir. Mas a história nos ensina que temos muito trabalho pela frente se quisermos vencer a covid-19 - mesmo com uma vacina à disposição.

Um século atrás, durante a pandemia de influenza de 1918, os esforços acelerados dos médicos de todo o mundo para descobrir, testar e implementar uma vacina contra a influenza não produziu um tratamento eficaz. Autoridades médicas analisavam regularmente resultados experimentais e confirmavam que, embora alguns soros impedissem o desenvolvimento de pneumonia em determinados casos, nenhuma das vacinas era útil, seja na prevenção ou no tratamento da influenza.

Ainda assim, o processo de pesquisar, testar e recomendar uma vacina em 1918 oferece algumas informações importantes, especialmente envolvendo a importância de orientações claras, consistentes e acessíveis por parte das organizações de saúde pública em relação ao processo de teste, avaliação e distribuição das vacinas. Talvez o mais importante seja o fato de ela confirmar algo recentemente enfatizado pelo principal especialista em doenças infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci: mesmo com a vacina, teremos que manter os protocolos de uso de máscara distanciamento social.

Há cem anos, quando os pesquisadores médicos buscavam um tratamento para a influenza, as agências de saúde pública e as autoridades do governo emitiram declarações divergentes e frequentemente contraditórias em relação ao valor potencial de soros e vacinas. No dia 2 de outubro de 1918, uma fotografia do prefeito de Boston, Andrew Peters, recebendo um “soro anti-influenza" aplicado por Timothy J. Leary, da Universidade Tufts, foi publicada no Boston Globe. O jornal informou que o prefeito estava “se sentindo bem”, sem “absolutamente nenhum efeito colateral" depois de receber sua segunda dose da vacina. Após uma conferência envolvendo autoridades locais, estaduais e representantes de saúde do governo federal, o comissário de saúde de Massachusetts, Eugene Kelley, declarou, “Estávamos todos muito interessados, é claro". Ele também admitiu que mais pesquisas eram necessárias. Mas o Boston Globe concluiu que o soro “é tido como solução preventiva e curativa", indicando que essa medida poderia reduzir o número de casos e mortes e, com isso, controlando a epidemia.

O entusiasmo foi mais comedido nas reportagens subsequentes. Uma semana depois, um informe aparentemente positivo por parte de cientistas reunidos pela conselho de saúde de Massachusetts surgiu como “uma luz de esperança em meio ao sombrio horizonte da epidemia" em um momento em que Boston já tivera mais de 3.000 mortes em decorrência da influenza e da pneumonia em um mês. Mas o relatório completo confirmava que nenhuma evidência estatística ou experimental indicava que a vacina funcionava, seja como tratamento ou profilaxia.

Apesar desses alertas, Kelley recomendou a distribuição da vacina contra a influenza em todo o estado de Massachusetts como medida preventiva, ao mesmo tempo apresentando orientações ambivalentes quanto à sua eficácia real: “Insistimos ao público que tenha em mente que o uso de vacinas ainda é considerado experimental. Com relação ao seu uso terapêutico, o departamento estadual de saúde não tem preconceitos. Essa é uma questão que deve ser deixada a cargo do médico".

Esses relatos contraditórios a respeito do valor das vacinas foram reproduzidos em todo o território dos EUA conforme a epidemia se chegava a cada cidade e à maioria das comunidades rurais. O superintendente de saúde do Arizona, Orville Brown, declarou que “o tratamento preventivo deve ser empregado sempre que possível. Não causa efeitos nocivos, e pode prevenir a influenza ou reduzir a gravidade da sua infecção". A conselho de saúde de Utah recomendou que “a vacina seja usada por todos como medida preventiva" porque “torna a pessoa absolutamente imune à influenza". A comissão de Illinois para o combate à influenza descreveu o soro como cura “apenas para os casos mais desesperados", e a conselho de saúde de Wisconsin se recusou a distribuir vacinas ou soros porque observou “sucesso apenas parcial, e a ideia ainda se encontra basicamente no estágio experimental".

Em resposta a esses posicionamentos contraditórios e inconsistentes, o cirurgião-geral dos EUA e os principais jornalistas da área médica declararam no fim de outubro que os soros e vacinas ainda estavam em fase experimental; alertaram autoridades de saúde, médicos e editores de jornais a não fazerem promessas irreais a respeito do seu valor.

A busca por uma vacina eficaz contra a gripe ainda duraria quase meio século e, na verdade, foi somente nos dez anos mais recentes que as autoridades de saúde pública dos EUA recomendaram a vacinação universal de todos os adultos e crianças saudáveis. O fato de apenas metade dos adultos americanos tomar a vacina anual da gripe deve servir como conto admonitório para aqueles que esperam uma adesão universal à recomendação de tomar a vacina da covid-19 quando esta se tornar disponível. Quando a epidemia de influenza perdeu a força no país no início de 1919, o mesmo ocorreu com a intensidade do interesse na vacina. No fim de 2020, uma grande alta no número de casos, hospitalizações e mortes intensificou a atenção do público voltada para o potencial de uma vacina contra o coronavírus que traga a promessa do fim da epidemia.

A análise de recomendações conflitantes a respeito das vacinas durante a epidemia de gripe de 1918 traz várias lições importantes para 2020. Primeiro, as epidemias pressionam cientistas, autoridades de saúde e laboratórios de pesquisa a acelerarem seus esforços no desenvolvimento de vacinas eficazes. Essa aceleração pode produzir resultados mais rapidamente, mas também levanta preocupações em relação a produtos que podem ser colocados apressadamente em uso sem evidências suficientes da sua segurança, eficácia e confiabilidade.

Segundo, a pressão pública por um resultado deve ser equilibrada com um esforço no sentido de educar o público a respeito das etapas necessárias à segurança e eficácia do seu desenvolvimento, teste e distribuição. Temos de seguir o exemplo dado pelos jornais, publicações de medicina e autoridades de saúde em 1918, que reconheceram abertamente a natureza experimental dos esforços de pesquisa e revelaram as etapas necessárias para determinar o grau de eficácia e segurança das vacinas.

Terceiro, a eficácia das vacinas deve ser comprovada e divulgada de maneira a inspirar a confiança nas ferramentas, ao mesmo tempo atendendo a critérios rigorosos. Mensagens de saúde pública eficazes são essenciais para fomentar a confiança na eficácia e segurança das vacinas. Uma fotografia de um político sorridente sendo vacinado pode transmitir o recado de que a vacina tem efeitos colaterais limitados, mas essas mensagens devem ser acompanhadas de evidências factuais mostrando como o teste e a distribuição devem garantir os resultados para toda a comunidade.

Por fim, as vacinas não são uma bala mágica capaz de encerrar sozinha uma pandemia. Em 1918, assim como em 2020, um amplo espectro de medidas de saúde pública foi necessário para reduzir as infecções e óbitos. No início de outubro de 1918, o conselho de investigação estatística de Massachusetts alertou que “o uso de uma vacina não pode ser interpretado como pretexto para abrir mão de medidas de proteção" como usar máscaras e manter os ambientes ventilados. Esse alerta de mais de cem anos atrás claramente ecoa o provável rumo dos acontecimentos nos próximos meses, conforme as vacinas se tornarem gradualmente disponíveis, mas podem ser necessários muitos meses até que a maioria dos americanos interessados na vacina consiga recebê-la. Durante meses, as vacinas serão mais uma das medidas de saúde pública adotadas para conviver com uma epidemia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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