A invasão dos peixes-leões nas Bahamas

A caça é positiva para o meio-ambiente, mas pode ser prejudicial à ciência

Herton Escobar,

25 Junho 2011 | 14h44

No arquipélago das Bahamas, onde tudo começou, a situação está longe de ser controlada. O país que serviu como epicentro para a invasão do Caribe em 2004 ainda busca uma solução para o problema do peixe-leão, que infesta em grande número todas as ilhas do arquipélago. "Sabemos que é um problema sério, mas precisamos de mais pesquisa para dizer qual é o tamanho exato e quais serão as consequências dele a longo prazo", explica a bióloga Nicola Smith, que coordena a parte experimental de um projeto piloto de monitoramento e controle do peixe-leão no arquipélago, financiado pelo Global Environment Facility (GEF) e executado em parceria pelo governo das Bahamas e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Até agora, o combate à invasão tem sido feito de maneira informal, com qualquer pessoa matando quantos peixes-leões quiser, onde quiser e quando quiser. A caça submarina é permitida no arquipélago, desde que não seja feita com equipamento de ar comprimido (apenas em apneia, ou mergulho livre) nem arpões pneumáticos, acionados por gatilho (somente por elástico). São regras gerais, que valem para qualquer espécie do arquipélago - nativa ou invasora.

"Ainda não conseguimos modificar nossas leis para responder à invasão de nossas águas pelo peixe-leão", disse ao Estado o diretor do Departamento de Recursos Marinhos das Bahamas, Michael Braynen. "Várias mudanças foram propostas e, apesar de já terem o aval do governo, ainda não completaram o trâmite pelo qual novas leis são aprovadas aqui. Espero que esse processo seja finalizado nas próximas semanas." A meta, segundo ele, é flexibilizar as restrições para remoção do peixe-leão - com o cuidado de não abrir brechas para a caça de outras espécies.

A caça, em princípio, é positiva para o meio ambiente, à medida que reduz o número de peixes-leões ativos nos recifes. Mas pode ser ruim para a ciência, já que, sem controle ou estatísticas oficiais sobre quantos peixes estão sendo removidos, de onde e com que frequência, torna-se quase impossível fazer um diagnóstico preciso da situação. "Todo mundo quer matar o peixe-leão", conta Nicola. "Não temos como impedir as pessoas de caçá-lo."

Previsto para durar dois anos, o projeto piloto tem como objetivo, justamente, compreender melhor a ecologia do peixe-leão e definir as melhores estratégias de controle da infestação em três tipos de habitats: recifes de coral, manguezais e regiões costeiras. "A proposta não é resolver o problema imediatamente, pois sabemos que isso não é possível, mas entender qual é a melhor maneira de gerenciá-lo daqui para frente,", explica Nicola. A ideia é que os resultados sejam aplicáveis para todo o Caribe, e não só para as Bahamas. "Assim ninguém terá de começar do zero de novo."

Logo no início do projeto, uma surpresa. Na mesma região da costa sudoeste da ilha de New Providence onde, em 2008, foi registrada uma densidade de quase 400 peixes-leões por hectare, os pesquisadores encontraram tão poucos peixes-leões que foi preciso mudar o local de estudo para outra ilha. "Começamos a monitorar os recifes e muitos deles não tinham nenhum peixe-leão" relata Nicola. A surpresa, em princípio, é boa. Afinal, quanto menos peixes-leões, melhor. O problema é que, sem entender porque isso aconteceu, os pesquisadores não têm como tirar proveito prático da observação, para tentar replicar o fenômeno em outras áreas. "É possível que seja consequência da caça, já que essa região foi muito visada nos últimos dois anos. Mas simplesmente não sabemos", admite Nicola.

No caso dos manguezais, os pesquisadores querem saber se o peixe-leão tem a capacidade de viver permanentemente em ambientes de água salobra, ou se os espécimes que foram avistados até agora nesses ecossistemas estavam "apenas de passagem". Uma diferença crucial, já que os manguezais servem de berçário para a reprodução de várias espécies marinhas. Se o peixe-leão se estabelecer ali, as conseqüências poderão ser desastrosas para a biodiversidade.

No caso das áreas costeiras, há uma preocupação adicional com segurança, já que é nesses ambientes que peixes-leões e seres humanos estão mais próximos uns dos outros. Os pesquisadores querem entender como ele ocupa estruturas artificiais próximas às praias e desenvolver metodologias para minimizar o risco de acidentes.

Matemática submarina

Enquanto isso, em Eleuthera, uma ilha longa e estreita a leste de New Providence, outro projeto de longo prazo busca avaliar o impacto do peixe-leão sobre a biodiversidade dos recifes de coral. Todos os meses, jovens pesquisadores do CapeEleuthera Institute (CEI), uma instituição privada de pesquisa, saem de lancha para vistoriar 24 pontos de recifes localizados em águas rasas da Baía de Rock Sound, ao sul da ilha. Em cada um deles, a bióloga Skylar Miller consulta uma tabela com um "número-alvo" de peixes-leões que deveriam existir ali, segundo parâmetros estabelecidos pela pesquisadora Stephanie Green, da Universidade Simon Frasier, no Canadá, que supervisiona o estudo. Cada ponto funciona como um experimento controlado. Seis recifes são mantidos totalmente livres de peixes-leões. Outros seis são deixados intocados, com quantos peixes-leões aparecerem por ali naturalmente. E 12 são mantidos artificialmente com números pré-determinados de peixes-leões. Alguns com poucos, outros com muitos.

"Se tiver mais peixes-leões do que o número-alvo, removemos o excesso. Se tiver menos, adicionamos o que for preciso", explica Skylar. "É um tanto estranho ter de colocar mais peixes-leões na água, quando o que queremos de fato é nos livrar deles, mas só assim temos como avaliar qual é o impacto de uma determinada densidade sobre os recifes."

A cada visita mensal, os pesquisadores fazem uma avaliação do estado de saúde dos recifes, anotando o tamanho, o número e a variedade de espécies nativas presentes para, no final, fazer comparações e tentar correlacionar isso com o número de peixes-leões em cada um deles.

Na vistoria de maio, Skylar teve de adicionar dois peixes-leões ao recife denominado Ponto 90, onde a densidade-alvo é de 29 peixes, mas havia apenas 26. Ficou faltando acrescentar mais um, ainda. Já no ponto 74, onde a meta é manter o recife livre de peixes-leões, foram encontrados 11 invasores que não estavam lá no mês anterior. Sete foram removidos e quatro, escaparam.

Fora das áreas de pesquisa, o número-alvo de peixes-leões é sempre o mesmo: zero. Ou o menor possível. O Estado acompanhou os pesquisadores do CEI numa caçada no sul de Eleuthera, num ponto de mergulho conhecido como "buraco na parede". Bastou alguns minutos para Skylar avistar o primeiro peixe-leão, um macho adulto de quase 40 centímetros, pairando sobre o ponto mais alto do recife, como um rei leão que observa a savana africana do alto de sua pedra na colina. Usando um arpão conhecido como "estilingue havaiano", Skylar não teve dificuldades para capturar o animal - que, demonstrando a característica arrogância da espécie, praticamente não se moveu à medida que ela se aproximava.

O golpe do arpão não mata instantaneamente o peixe, que fica se esperneando na ponta da lança. Com uma luva grossa nas mãos, para se proteger dos espinhos venenosos, Skylar puxa o peixe-leão pela cabeça e o coloca em um saco plástico transparente para transporte. Uma nuvem de sangue flui da ferida, tingindo a água dentro da sacola. Por causa da profundidade (20 metros), o líquido que seria vermelho aparece como verde, dando ao evento uma aparência um tanto fantasmagórica.

Ao fim do mergulho, de 45 minutos, a sacola fica lotada com dez peixes-leões de bom tamanho. De volta ao laboratório, abrimos o estômago do maior deles, de 37 centímetros, e contamos 19 peixinhos embolados numa massa semi-digerida. Uma amostra do mal estar que o apetite do peixe-leão pode causar à biodiversidade dos recifes se não forem removidos.

O trabalho de monitoramento continuará até o fim de 2012, e os primeiros resultados devem sair em 2013. Até lá, os estilingues havaianos terão de dar conta do recado.

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