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A luta das crianças para vencer o Ebola

Por que uma criança sobrevive e outras morrem? Na ausência de testes e pesquisas, a doença parece dolorosamente aleatória

Sheri Fink , NYT

10 Novembro 2014 | 22h40

Logo depois de perder os pais para o Ebola, Junior Samuel, de 8 anos, caiu doente em uma cadeira de plástico em um centro de tratamento na Libéria, o país mais afetado pela epidemia. Apático, febril e atormentado por dores, após um dia, ele começou a sangrar pela  gengiva, um dos sintomas mais ameaçadores da doença. 

Dez dias depois, Rancy Willie, de 9 anos, que havia perdido a mãe, chegou à mesma unidade de tratamento que Junior e com os mesmos sintomas: fraco, com febre e com dificuldade de engolir após estar deitado durante um dia inteiro ao ar livre enquanto aguardava ajuda. 

Os dois garotos compartilharam o quarto no hospital mantido pela organização humanitária americana International Medical Corps (Corpo Médico Internacional em português). Eles receberam essencialmente o mesmo tratamento, mas Rancy morreu horas antes de Junior ir para casa curado. Ao mesmo tempo, médicos e enfermeiros estavam lutando pela vida de um terceiro menino, Williams Beyan, de 5 anos. 


A cada dia, os médicos se sentem mais confusos sobre os diferentes destinos de pacientes cujos os casos, à primeira vista, parecem semelhantes. “Não importa quanto tempo passamos lá, nós não sabemos como prever isso”, disse Steve Whiteley,  médico especialista em emergência da Califórnia que trabalhou como voluntário. 

Eles dizem que ficam especialmente perplexos com o que Whiteley chamou de “efeito lâmpada” -   quando o paciente parece ter melhorado e, de repente, morre. 

Tentando entender porque os dois meninos reagiram de forma diferente à doença, os médicos buscam responder às seguintes perguntas: será que as crianças estavam lutando contra diferentes níveis do vírus desde o início? Um estava mais saudável do que o outro ao ser infectado? Será que os genes ou o sistema imunológico ajudam a determinar o destino do paciente? E o que os profissionais de saúde podem fazer para aumentar as chances das crianças?

Um estudo publicado em outubro no periódico Doenças Infecciosas Emergentes mostra que crianças que sobreviveram a um epidemia tendem a ter níveis mais altos de um ativador do sistema imunológico no sangue, enquanto aquelas que morrem costumam ter níveis elevados de substâncias que indicam disfunção das células que revestem os vaso sanguíneos, o que pode levar à falência dos órgãos. Entre os adultos, os níveis dessas proteínas não estão associados à sobrevivência ou morte. 

“As crianças não são adultos. Elas respondem de forma diferente ao vírus”, disse Anita McElroy, médica e professora assistente na Escola de Medicina da Universidade de Emory, na Geórgia, Estados Unidos, e uma das autoras do estudo.

Os pesquisadores especulam que as crianças poderiam se beneficiar de certos tratamentos, como estatinas que atuam sobre as células que revestem os vasos sanguíneos. No entanto, esses medicamentos não têm sido estudados em seres humanos com Ebola e haveria uma chance de que eles possam piorar os resultados. 

Como em surtos menores de Ebola no passado, as crianças também estão sub-representadas entre os pacientes atualmente. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os menores de 15 anos equivalem a 13% do total de pessoas infectadas nos primeiros noves meses da atual epidemia, apesar de representarem 43% da população. Isso se deve ao fato de estarem menos expostos a fatores de risco, como cuidar de familiares doentes ou preparar corpos para serem enterrados.

Jovens, ao serem infectados, costumam reagir melhor que os adultos acima de 40 anos; embora as crianças menores de 5 anos sejam mais vulneráveis. Para os pesquisadores, isso pode estar relacionado à imaturidade do sistema imunológico ou ao fato de elas estarem mais expostas ao vírus por causa do contato muito próximo com as mães.  De acordo com as estatísticas da OMS, os menores de 15 anos, em média, não têm uma vantagem de sobrevida global nessa epidemia. 

No centro de tratamento da International Medical Corps, pouco menos da metade das crianças com menos de 15 anos sobreviveram, uma taxa semelhante a de pacientes em geral. Dessa faixa etária, 15 crianças já receberam alta ou morreram desde que o centro foi construído, em setembro, pela organização Save the Children. Oito estão sendo tratadas depois que uma onda de pacientes preencheu os 26 leitos da unidade. 

Junior, que era muito pequeno e pesava somente 20 quilos, parecia muito doente ao chegar ao hospital. Ele não tinha parentes para cuidá-lo e os funcionários do hospital, sempre com roupas de proteção, não dispunham de tempo. Como os outros dois garotos com os quais ele estaria na enfermaria, a carga viral de Junior estava bastante elevada, um mau sinal. Os médicos lhe inseriram uma linha intravenosa e ele passou a tomar líquidos com eletrólitos para combater a desidratação. 

Durante os dias, a trajetória de Junior Samuel foi anotada:

3 de outubro: ele foi admitido com febre, vômito, diarreia, perda de apetite, dificuldade de engolir, além de dores no abdome, peito e cabeça. 

4 de outubro: sangramento das gengivas. “Nesse momento, havia apenas mais um menino na enfermaria que estava muito assustado de estar no mesmo quarto que Junior”, conta Audrey Rangel, uma enfermeira americana no centro. 

5 de outubro: diarreia e vômito. 

7 de outubro: estável 

10 de outubro: febre de 39 graus

Rancy Willie chegou ao hospital três dias depois. Rangel ajudou a pesá-lo: somente 16 quilos. A enfermeira amarrou uma luva em torno do braço de Rancy e teve dificuldade em encontrar uma veia. Rancy começou a choramingar de dor, mas era difícil enxergar bem à noite na unidade de tratamento e o menino estava severamente desidratado. Uma outra enfermeira tentou inserir a agulha, mas também não conseguiu. A equipe decidiu esperar até a manhã quando a enfermeira com mais experiência em pediatria estaria de plantão. 

Depois de cobrir o garoto, Rangel o ajudou a tomar um solução para reidratação. Seus goles eram muito pequenos, ainda assim, ele mal conseguia engolir. Minutos depois, a enfermeira ouviu Rancy gemendo. Ele havia vomitado na cama. Todos chamavam Rancy por seu sobrenome “Willie” porque não havia nenhum parente para corrigi-los. A voz do menino era fraca e difícil de ouvir, abafada pelo capacete - parte da roupa de proteção dos profissionais de saúde. 

Rancy foi transferido para o quarto de Junior, na ala dos casos confirmados. Duas noites depois, ele caiu, bateu a cabeça e começou a sangrar de forma abundante. Demorou uma hora e meia para que uma enfermeira o encontrasse uma vez que toda a equipe estava ocupada recebendo novos pacientes com suspeita de Ebola. 

“Eu tive que fazer uma escolha” explicou a enfermeira americana, Bridget Ann Mulrooney, a seus colegas naquela noite. Havia um limite de tempo para usar as roupas de proteção e, por isso, muitas tarefas deveriam ser feitas ao mesmo tempo. 

Bridget enfaixou Rancy e o colocou na cama, mas no meio da noite, ele se levantou confuso e começou a vagar, nu, pelo quarto. Junior, assustado com o que ele pensou em ser o fantasma de Rancy, fugiu e encontrou uma cama em outra parte da enfermaria.  

Junior não teve mais febre e começou a sentar-se do lado de fora durante o dia e a comer de novo. Seu rosto se iluminava com um sorriso sempre que alguém o cumprimentava. A cada dia, ele parecia melhor. 

No dia 17 de outubro, seu quinto dia no hospital, Rancy gemia. “O que você quer” perguntou uma enfermeira. Ela e um médico limparam a diarreia e deram ao menino um analgésico e um sedativo. Ele sangrava pelos olhos, pelo nariz e pela boca. A irmã e o primo do menino haviam sido admitidos no hospital e haviam tomado o lugar de Junior na enfermaria. Mas eles estavam muito doentes para oferecer conforto. Rancy, que adorava dançar e jogar futebol e queria ser engenheiro civil, não resistiu e morreu antes do amanhecer. 

Naquela manhã, depois de dois dias no centro de tratamento, Junior recebeu alta. Como o vírus não foi mais detectado em seu sangue, ele foi viver com os tios. Ele sorriu e disse que não tinha tido medo até as pessoas envolta dele começarem a morrer. Ele disse, por telefone, que esperava poder ir à escola um dia, algo que ele nunca havia feito. 

William, de 5 anos, ainda era paciente do hospital quando Junior foi embora. Seu pai, George Beyan, havia recebido alta no mesmo dia que o teste de Ebola deu positivo para William. A equipe médica aconselhou Beyan a voltar à enfermaria para ajudar a cuidar do menino. 

Durante a triagem, a enfermeira checou todos os sintomas do caso de William: febre, vômito, dor no estômago, peito, músculos e juntas, dificuldade de engolir e respirar, além de erupção cutânea e olhos vermelhos. 

Beyan encorajou o filho a comer e beber, pediu suco extra e até caminhava do lado com o garoto, conforme orientação, para que ele tivesse um pouco de ar fresco e luz solar. A quem perguntasse, o pai diria que William estava ficando melhor pouco a pouco. Os médicos queriam acreditar, mas a febre continuava alta e a diarreia também não cedia. 

A sobrevivência de Junior havia surpreendido a todos e enchido Beyan de esperança pelo filho. Ele mesmo havia chegado ao hospital muito fraco e soluçado durante dias, um sinal fortemente associado à morte por Ebola. A doença é caprichosa e os médicos ainda estavam aprendendo a lidar com ela. 

Uma noite, William começou a gemer, depois de ter uma febre de 40 graus durante o dia. Ele havia estado do lado de fora assistindo um filme e então, faleceu. O pai estava inconsolável. “Meu menininho”, soluçava. /Tradução de Maria Tereza Matos

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