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A medicina de 3000 a.C versus a medicina do terceiro milênio

Grupos brasileiros estão na vanguarda mundial nas pesquisas sobre o potencial terapêutico do canabidiol

José Alexandre de Souza Crippa, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 03h00

Existem registros do uso da Cannabis sativa há milênios para diversas condições, como dores e náuseas e crises convulsivas. No começo do século passado, quando os princípios ativos da maconha não haviam sido isolados, extratos da droga foram comercializados por grandes laboratórios farmacêuticos para diversas indicações, incluindo epilepsia. Ao mesmo tempo, hoje se sabe que o uso crônico da maconha, especialmente entre jovens e adolescentes, pode levar alguns indivíduos (dependendo de dose, frequência e vulnerabilidade) a desenvolver dependência, sintomas psiquiátricos e alterações cognitivas transitórias - e induzir alterações cerebrais.

O canabidiol (CBD) é um dos 400 componentes da maconha, que apresenta vários efeitos opostos aos do THC, principal componente da droga. O CBD isoladamente não apresenta os efeitos típicos do uso da planta e seus efeitos anticonvulsivantes são conhecidos desde a década de 1970, nos trabalhos pioneiros do grupo liderado pelo professor Elisaldo Carlini, da Unifesp. Grupos brasileiros estão na vanguarda mundial nas pesquisas sobre o potencial terapêutico desta substância. Atualmente há estudos do CBD na doença de Parkinson, esquizofrenia, fobia social, entre outras condições. Procura-se o uso do CBD isolado, seguindo os mesmos princípios da evolução da farmacoterapia, ou seja, de forma que permita a dosagem mais precisa e reduzindo o risco de significativos efeitos colaterais. 

A resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) é um importante avanço na regulação do uso dos canabinóides para fins medicinais. O Brasil se posicionou como um dos primeiros países no qual a medida foi adotada. Entretanto, existem vários desafios. Primeiramente, de que modo oferecer o CBD nos casos de pacientes adultos com epilepsia refratária e para portadores de outros diagnósticos nos quais se demonstrou evidências, mesmo que preliminares, como no caso de Parkinson, esquizofrenia, ansiedade, dores entre outras. Em segundo lugar, o custo da do CBD importado é restritivo para a maior parte da população, especialmente a de baixa renda. Terceiro: a maioria do CBD importado tem qualidade e composição desconhecida (às vezes com doses altíssimas de outros compostos), produzida por laboratórios com mínimo ou sem nenhum controle. Por fim, é hoje ainda mais necessário e oportuno orientar e informar a população que o CBD não é a maconha e não causa os mesmos efeitos. 

Assim, torna-se urgente a produção nacional, seja por extração (ao custo de alguns reais) ou a síntese (ao custo de centavos). Aí sim, estaremos na fronteira do avanço e entrando na medicina do século 21. 

JOSÉ ALEXANDRE DE SOUZA CRIPPA É PROFESSOR ASSOCIADO DO DEPARTAMENTO DE NEUROCIÊNCIAS E CIÊNCIAS DO COMPORTAMENTO DA MEDICINA DA USP

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