Fernanda Massarotto e Paula Acosta
Fernanda Massarotto e Paula Acosta

A nova rotina dos italianos após a quarentena em todo o território

Políticos e artistas incentivam que as pessoas permaneçam dentro de casa. As ruas estão desertas e as lojas, vazias

Fernanda Massarotto e Paula Acosta, especiais para O Estado

11 de março de 2020 | 08h00

MILÃO, ITÁLIA – A hashtag #iorestoacasa (#euficoemcasa) acaba de ser criada para motivar os italianos a não colocarem os pés fora da residência por causa do novo coronavírus, a menos que seja extremamente necessário. A campanha ganhou força nas redes sociais e tem contado com o apoio de artistas e políticos. O direito de ir e vir continua sendo respeitado, mas o governo pede que a população, e principalmente a que vive nas regiões mais afetadas como Milão, saia de casa o mínimo possível. 

Nas ruas, quase desertas, poucos são os que se aventuram a entrar em lojas ainda abertas. O "assalto" aos supermercados é coisa de um passado recente. As prateleiras são reabastecidas diariamente e os carrinhos abarrotados não se veem mais com frequência. 

Na Via Montenapoleone, uma das ruas do famoso quadrilátero da moda, o número de turistas que circulam pelas boutiques de luxo é quase inexistente. Dentro das lojas vazias, os funcionários, todos de máscaras e muitos de luva, conversam entre si. Russos, chineses e árabes, os principais clientes de grifes como Valentino, Alberta Ferretti, Ermenegildo Zegna e Pucci, desapareceram literalmente. 

Nesta terça-feira, 10, foi a vez da Espanha suspender todos os voos com direção ao território italiano e acabou pegando de surpresa José Carlos Parra, de 21 anos, estudante de Málaga, no sul do país. Ele e a namorada Maria desembarcaram na hora do almoço em Milão e ficaram sabendo que terão de voltar para casa no dia 13 de março com um voo via Inglaterra. "Havíamos organizado essa viagem há 4 meses. É nossa primeira vez em Milão. Vamos tentar nos adaptar. Ir visitar monumentos, museus que estiverem abertos e comer em alguns  restaurantes", lamentou o jovem espanhol, munido de máscara e gel antisséptico, ao lado da namorada que admirava os vestidos de uma das boutiques da via Montenapoleone.  

Trabalhando e estudando de casa

A poucos metros do quarteirão da moda, Gaia Giorgini viu seu apartamento se transformar em um espaço multifuncional. A italiana de 41 anos trabalha de casa há duas semanas e nos últimos 10 dias passou a dividir a mesa da sala de jantar com os filhos Lorenzo, de 11, e Riccardo, de 9. Sem falar, que, em alguns dias da semana, Alessandro, um colega de classe do primogênito se une ao amigo para seguir as aulas à distância. "Temos a sorte de poder cumprir nossos compromissos profissionais e escolares de casa. Tudo graças à tecnologia", aliviou-se Gaia, que faz  parte do departamento comercial da grife Kiton, marca napolitana reconhecida por sua alfaiataria. 

As crianças, que estudam na Canadian School of Milan, uma escola internacional, se sentam à frente do computador ou tablet a partir das 9 da manhã e interagem com os professores via skype ou streaming. "Eles ainda podem desfrutar de uma pausa a cada duas horas, almoçam e seguem até às 15h30", continuou a mãe, que na última semana tem dado treinamento aos funcionários de Moscou por whatsapp. 

Gaia, porém, admite não estar seguindo à risca o chamado "toque de recolher" recomendado pelo governo. "Saio todos os dias. Vou correr no parque, levo os meninos para andarem de bicicleta. É claro que tomo precauções como evitar estar em contato com idosos, em locais fechados e assim que chego em casa lavo as mãos. E tomo muita vitamina C e tenho me alimentado bem". 

‘O primeiro produto a desaparecer foi o álcool gel’, diz farmacêutico

Fortalecer o sistema imunológico inclusive tem levado os milaneses a consumir vitamina C e D como nunca se viu. Giorgio Tarallo, de 41 anos, farmacêutico e proprietário da Farmácia Solferino, no centro de Milão, viu as vendas subirem mais de 50% no fim de fevereiro, quando o governo decretou o primeiro "toque de recolher" em 11 cidades, 10 delas na Lombardia. "O primeiro produto a desaparecer foi o álcool gel e logo depois as máscaras. Houve também muita procura por desinfetantes. Hoje, as vendas se normalizaram e as vitaminas são as mais requisitadas", observou ele, que afirma ter trabalhado intensamente de segunda a sábado.

O único funcionário da farmácia está em casa resfriado. "Melhor que fique mesmo lá e se recupere", Giorgio riu. Ele permite a entrada de até três clientes por vez no local e os orientam para que fiquem a um metro de distância uns dos outros. 

Enquanto as farmácias e supermercados continuam com fluxo contínuo em suas vendas, o mesmo não se reflete nos restaurantes que, há alguns dias, fecham as portas às 18h. Nem mesmo promoções e descontos ajudam a melhorar a situação. 

O gaúcho Tarcísio De Bocca, proprietário do histórico restaurante Biffi, que fica na Galeria Vittorio Emanuele, a poucos metros da famosa Catedral Duomo, viu o movimento cair 100%.  "Não é exagero", atesta ele. No domingo passado, De Bocca faturou 4 euros por um café e ontem, terça-feira, 60. "Na segunda-feira, não entrou nenhum cliente. Dos 25 funcionários, só 4 estão trabalhando. Tento ser otimista, mas está difícil", lamentou o brasileiro, que passou a oferecer 10% de desconto para os clientes no almoço e jantar. 

Nos arredores de Milão 

O Naviglio Grande é um canal do século XII que nasce no lado italiano do rio Ticino, na zona de Varese, norte do país, e avança por diversos municípios da região até desembocar em Milão. Correr, caminhar, andar de bicicleta, praticar os mais diversos esportes é a coisa uma rotina às margens desse corredor de água – por meio dele foi transportado o mármore que construiu a catedral da cidade famosa pela moda e pelo design.  

O histórico canal está vazio porque é período de manutenção, deixando a “atmosfera” das pequenas localidades cortadas por ele um pouco desolada. Ainda assim, teve quem se aventurasse a sair de casa no primeiro dia da quarentena nacional para passear nas zonas de pedestres e na ciclovia à beira do Naviglio Grande.

Irena Sintic, de 52 anos, croata que vive na Itália desde 1994, tomava sol tranquilamente com a filha Emma, de 14, em um parque de Corsico, cidade onde mora, distante 7km do centro de Milão, na zona sudoeste. Quando a reportagem se aproxima para entrevistá-la, respeitando a distância precaucional de um metro, ela pergunta imediatamente se podemos nos afastar um pouco mais, antes até de responder à saudação “buon pomeriggio” (boa tarde). Depois da tensão inicial, se tranquiliza e aceita conversar conosco.

“Creio que, só agora, estou tendo uma noção real do que está acontecendo aqui. Depois das últimas medidas, sinto-me mais consciente hoje do que três dias atrás. Por isso, aflora essa desconfiança inicial quando encontro alguém que não conheço. As notícias sobre a difusão tão rápida do vírus geram uma espécie de peso dentro da gente”, disse Irena.

Exatamente para exorcizar essa sensação é que decidiu passar algumas horas ao ar livre com a filha adolescente, aproveitando o dia de sol depois de ter trabalhado de manhã na empresa do marido, especializada na construção de portas para garagem, enquanto a jovem estava em casa e seguia, por videoconferência,  as atividades escolares. 

“Eu fico sozinha no escritório, que é localizado em Milão. Como não tenho contato com outras pessoas, continuo indo trabalhar normalmente, usando a minha bicicleta. Já a produção da nossa empresa é situada no município de Trezzano sul Naviglio, sempre na região metropolitana de Milão. Temos poucos funcionários, mas eu e meu marido estamos pensando em não abrir as duas sedes nos próximos dias, para ver como vai ficar essa situação. Através de celular e e-mail, podemos resolver todas as tarefas e sair só quando for alguma urgência, como consertar uma porta enguiçada”, afirmou ela, deitada sobre o escultural banco de pedra do parque. 

Assim como Irena, o aposentado Antonio, de 67 anos, amante do ciclismo, também transitou de uma cidade para outra, tranquilamente, mesmo em período de quarentena. Aproveitando os 16 graus que antecipam a primavera, ele subiu na bicicleta, saiu da sua residência em Milão e pegou a ciclovia que acompanha o canal, passando por diversas cidades da região metropolitana. Queria alcançar o município de Gaggiano (a 15km do local de partida) e, de lá, voltar para casa. 

Depois da imposição do toque de recolher, ele deveria estar munido de uma autodeclaração que atestasse a necessidade do deslocamento, caso fosse abordado por alguma autoridade. Antonio, porém, nem se preocupou em preencher o papel.   “Nao vi nenhum controle quando eu estava vindo para cá”, contou ele quando passou por Corsico. “Estou em um ambiente aberto, não vou a bares ou outros lugares com muitas pessoas. O importante é tomar os devidos cuidados. Além disso, esporte faz bem”, continuou.

Decreto

Segundo o novo decreto, é possível se distanciar do domicílio somente por exigência de trabalho; em casos de necessidade, como fazer compras de supermercado ou ir à farmácia; por questões de saúde ou para retornar para casa. Pessoas em isolamento ou com teste positivo para o vírus são taxativamente proibidas de deixar o próprio lar. As limitações se referem a pessoas, mas não ao trânsito de mercadorias.

Quem viole as prescrições pode ser punido com prisão de até três meses e uma multa de até 206 euros (quase 1100 reais).  Dependendo da gravidade da ação, penas mais graves podem ser aplicadas.

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