Marcio James/AFP
Marcio James/AFP

A pandemia acelera a expansão do maior cemitério de Manaus

Capital do Amazonas vive pior momento da pandemia, com 3.165 sepultamentos em janeiro

Paula Ramón, AFP

24 de janeiro de 2021 | 11h13

MANAUS - Com mais de 3 mil enterros em janeiro, Manaus não se recorda de um mês mais funesto. Os trágicos recordes da segunda onda da pandemia da covid-19 e o colapso sanitário aceleram de forma vertiginosa a expansão do maior cemitério da capital do Amazonas.

As obras de ampliação não param o cemitério Nossa Senhora Aparecida, próximo do caudaloso Rio Negro. Debaixo do agoniante sol do trópico, os pedreiros abrem novos lotes e começam a levantar estruturas verticais, que receberão de 2 mil a 3 mil corpos. 

Desde a inauguração, há seis décadas, o cemitério acolheu cerca de 130 mil mortos, segundo dados da prefeitura da cidade. Nas últimas duas semanas, Manaus registrou uma média de mais de 100 sepultamentos de vítimas de covid-19 por dia, com um recorde de 213 em 15 de janeiro. 

No Nossa Senhora Aparecida, são realizados mais de 75% dos enterros da cidade, segundo informações de 2019. Ainda que quase metade (1.419) dos 3.165 sepultamentos totalizados em Manaus até 22 de janeiro ocorreram por causa da pandemia, essa alta cifra mostra também a crise do sistema de saúde. Até agora, o pior mês desde a primeira onda, que havia obrigado a abertura de covas coletivas, era o de abril de 2020, com 2.809 enterros na cidade. 

Os números são somente uma forma de dimensionar a tragédia, cuja verdadeira magnitude se sente nos cantos do Nossa Senhora Aparecida. O barulho de uma escavadeira que abre novas covas se mistura na manhã de sexta-feira com os gritos de Etiane Ferreira, que, ajoelhada, clama pelo seu pai, a quem acaba de enterrar. “Pai, por quê?”.

Os gritos paralisam por alguns segundos aos empregados do serviço funerário, cobertos por macacões brancos e máscaras, que baixam caixões envoltos em plástico, uma marca inconfundível de que se trata de um caso de covid-19. “Somos seres humanos”, murmura Michael Guerreiro, um dos trabalhadores, enquanto observa a Etiane, com o punho no solo de terra avermelhada. "Dói muito, viemos trabalhar porque nos toca”, completa, e volta a carregar o caixão. 

O pai de Etiane morreu de covid-19. A prima da jovem, Cristiane Ferreira, conta que ele precisava ser entubado, mas não havia leito disponível. “Os médicos e as enfermeiras se esforçaram muito, mas, infelizmente, não são Deus”, disse entre lágrimas, antes de abraçar Etiane.

Debaixo de uma tenda de plástico junto a um lote de tumbas, outro trabalhador do local, que não quis se identificar, escreve com pincel e tinta têmpera preta os nomes dos mortos e suas datas de nascimento e morte sobre as cruzes de madeira. Ele calcula que pinta cerca de 70 por dia. As cruzes em tons azulados se sucedem ao longo das intermináveis quadras do cemitério.

Com o choro de Etiane ao fundo, Luán Santos, de 32 anos, aperta a mão da sua esposa, Ashley, que está grávida de um mês. Na outra mão, está a coroa de flores com que se despede da mãe, morta aos 68 anos, também pelo novo coronavírus. 

Luán peregrinou com ela por vários dias até que conseguiu que fosse recebida em um hospital público. Eles se falaram pela última vez na segunda-feira, através de mensagens de texto. 

Ele foi ao hospital diversas vezes atrás de notícias. Na quinta-feira, foi informado que sua mãe havia morrido no dia anterior. “Me disseram que (a demora em avisar) se deve ao grande número de pacientes, que não conseguiam gerir tanta gente”, conta chorando o jovem, que trabalha no setor bancário.

Um funcionário do cemitério entrega a ele os documentos do enterro e o caso se encaminha para caminho de terra. Com o calor, intensifica-se um odor desagradável, que poderia ser o da morte. A escavadora segue abrindo covas. As chuvas amazônicas obrigam a realização deste trabalho. 

Na entrada do cemitério, os cortejos fúnebres se sucedem. As equipes do serviço funerário foram quadruplicadas. O Nossa Senhora Aparecida apareceu em notícias internacionais quando covas coletivas foram abertas em abril. Um homem que acompanhou o enterro de seu tio recorda daquele pesadelo e, entre lágrimas, desabafa: “Ao menos agora os mortos recebem um tratamento digno aqui. Oxalá abram leitos nos hospitais, em vez de covas nos cemitérios.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.