REUTERS/Brendan McDermid
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A pandemia gerou quase dois anos de trauma coletivo. Muitos estão perto de um ponto de ruptura

Nos Estados Unidos, um número alarmante de pessoas está cometendo ataques agressivos e muitas vezes cruéis em resposta a políticas ou comportamentos de que não gostam

Marisa Iati, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2021 | 15h00

Um passageiro de avião foi acusado de atacar uma comissária de bordo e fraturar ossos de seu rosto. Três turistas agrediram um dono de restaurante de Nova York que lhes pedira uma prova de vacinação contra o coronavírus, disseram os promotores. Onze pessoas foram acusadas de má-conduta depois de supostamente gritarem "Chega de máscaras!" durante uma reunião de conselho escolar em Utah.

Nos Estados Unidos, um número alarmante de pessoas está cometendo ataques agressivos e muitas vezes cruéis em resposta a políticas ou comportamentos de que não gostam.

"Acho que as pessoas simplesmente têm essa necessidade de voltarem a se sentir poderosas, no comando, ligadas a alguém", disse Jennifer Jenkins, membro do conselho escolar do condado de Brevard, na Flórida, que disse ter enfrentado assédio e perseguição.

A Administração Federal de Aviação iniciou mais de mil investigações sobre passageiros indisciplinados este ano, número mais de cinco vezes maior do que em todo o ano de 2020. Autoridades de saúde e eleições expressaram temor por sua segurança em meio à rispidez pública. Diante do fato de que as reuniões do conselho escolar vinham se tornando campos de batalha culturais, o procurador-geral Merrick Garland pediu ao Departamento de Justiça que investigasse o que ele chamou de “escalada perturbadora” nas ameaças contra educadores. Alguns consumidores americanos, há muito acostumados a terem o que querem, desencadearam seu pior comportamento nos últimos meses.

Em algumas dessas circunstâncias, não está claro se o comportamento agressivo realmente aumentou este ano ou se as pessoas estão mais atentas casos desse tipo. Mas especialistas em saúde mental disseram que é provável que o estado mundial de crise perpétua tenha realmente estimulado casos mais frequentes de comportamento impróprio e abusivo.

Depois de quase dois anos de uma pandemia coexistente com várias crises nacionais, muitos americanos estão profundamente tensos. Estão brigando uns com os outros com mais frequência, sofrendo de sintomas físicos de estresse e buscando métodos de autocuidado. Nos casos mais extremos, estão expressando sua raiva em público – trazendo seus problemas internos para as interações com pessoas desconhecidas, disseram especialistas em saúde mental.

Alguns desses comportamentos parecem resultar de uma emergência pública de longa duração e sem desfecho claro, disseram os especialistas. Como a variante Ômicron vem grassando em todo o país, não está claro, mais uma vez, quando as restrições da pandemia irão terminar. Para algumas pessoas, esse tipo de catástrofe esgota seus recursos para lidar com situações difíceis e faz com que ajam de maneiras que normalmente não agiriam.

Acrescente-se a isto outras crises nacionais recentes – como a agitação social impulsionada por questões raciais, a recessão econômica, o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio e uma miríade de desastres climáticos extremos. As pessoas não estão conseguindo suportar tanto estresse.

"Não conseguimos viver sob esse nível de tensão por um período tão prolongado", disse Vaile Wright, diretora sênior de inovação em saúde da Associação Americana de Psicologia. "Então, tudo isso acaba minando nossas capacidades de enfrentamento a ponto de já não conseguirmos regular nossas emoções tão bem quanto conseguíamos."

Esse tipo de tensão emocional se faz mais relevante para pessoas que continuam tomando precauções e levando o vírus a sério em suas decisões. Grande parte do país deixou de acompanhar os números da pandemia e muitas pessoas voltaram a viver como viviam em 2019.

Mas as pesquisas fundamentam a ideia de que os americanos como um todo estão sofrendo mental e emocionalmente. Um estudo publicado em janeiro sobre cinco países ocidentais, entre eles os Estados Unidos, revelou que 13% das pessoas relataram sintomas de transtorno de estresse pós-traumático atribuíveis ao contato real ou potencial com o coronavírus, à quarentena, à impossibilidade de retornar a seus países ou a outros fatores relacionados ao coronavírus. Os pesquisadores também descobriram que pressagiar um evento negativo relacionado à pandemia era ainda mais doloroso em termos emocionais do que efetivamente vivê-lo.

O surto de coronavírus mal havia se instalado quando especialistas em saúde mental começaram a expressar preocupação de que a crise causaria um trauma coletivo – que ocorre quando um evento profundamente angustiante afeta uma comunidade inteira e cria um impacto compartilhado. Embora os psicólogos discordem sobre a definição de trauma e se o termo se aplica à pandemia, eles geralmente estão em sincronia na questão subjacente: as consequências devastadoras da pandemia não pouparam quase ninguém.

Obviamente, o coronavírus atingiu algumas pessoas e comunidades com mais força do que outras. As famílias de mais de 800 mil pessoas nos Estados Unidos – desproporcionalmente negros, latinos, indígenas e nativos do Alasca – perderam um ente querido para o vírus. Outros foram hospitalizados e sobreviveram. Quase todo mundo sacrificou algum aspecto importante da vida: um emprego, a possibilidade de se reunir com segurança para chorar uma morte ou celebrar um casamento, a chance de ter qualquer grau de certeza no planejamento do futuro.

Ainda não está claro quando esse sofrimento vai acabar. Nos Estados Unidos, as infecções e hospitalizações registradas estão aumentando à medida que o país enfrenta uma variante que parece ser mais transmissível e melhor em escapar à proteção das vacinas aprovadas. Além disso, as festas de fim de ano criam novas oportunidades para a transmissão viral.

Esse perigo aumenta a pressão para pessoas que já estão cansadas das reviravoltas da pandemia, disse Roxane Cohen Silver, professora de ciência psicológica da Universidade da Califórnia, em Irvine.

"A notícia da variante Ômicron veio bem no momento em que muitos americanos estavam prestes a passar o feriado de Ação de Graças com seus entes queridos pela primeira vez em muito tempo", disse ela. "Foi quase cruel. Bem quando a 'normalidade' parecia estar no horizonte, as últimas notícias destruíram as esperanças, mais uma vez."

A preocupação com a pandemia, as mudanças climáticas e outras crises deixou Kia Penso, 61 anos, tão nervosa que ela não consegue mais assistir a séries de suspense, e as interações com o irmão ficaram "dez vezes mais explosivas". Seu último ano e meio foi marcado pela morte de seu tio de covid-19 e pela preocupação persistente com a segurança de sua mãe idosa, que mora no exterior.

Essas tensões foram exacerbadas por seu sentimento de que a ameaça do coronavírus agora já estaria insignificante se outras pessoas não tivessem resolvido acreditar em falsas alegações de que as vacinas aprovadas ou autorizadas pelo governo federal são perigosas. A agência sanitária americana (FDA) e o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) vêm afirmando consistentemente que os imunizantes são seguros e eficazes.

"Ainda estamos em perigo, ainda estamos até certo ponto presos nas nossas casas, ainda não estamos livres por causa dessas mentiras malévolas", disse Penso, que mora em Washington, D.C.

Em um voo este ano, uma colega de trabalho de Teddy Andrews o procurou quase chorando. Um passageiro se recusava a usar máscara e estava dificultando o trabalho dela, disse a comissária de bordo.

Andrews se aproximou do homem, que se dirigiu a ele com um xingamento racista e disse: "Não preciso ouvir nada do que você diz, vivemos num país livre", de acordo com o depoimento de Andrews perante uma comissão parlamentar.

A situação ficou tensa e Andrews continuou pedindo para que o homem colocasse a máscara para proteger seus companheiros de viagem. Por fim, o homem recuou e cobriu o rosto.

Andrews, que é comissário de bordo da American Airlines há uma década, disse acreditar que anos de retórica acalorada por parte de líderes políticos deixaram as pessoas cheias de ódio e as encorajaram a se defenderem da suposta erosão de seus direitos. Aí veio a pandemia. O resultado, da perspectiva de Andrews, é uma epidemia de pessoas se comportando como se as regras e normas sociais não se aplicassem a elas.

"É o que estamos vendo na sociedade, você vê tudo isso acontecendo no ar, nos restaurantes, nos shoppings, nas reuniões do conselho escolar", disse ele.

Por algumas semanas neste verão, o baixo número de infecções pareceu uma luz no fim do túnel para as pessoas ansiosas para se livrar da pandemia. Essa esperança dificultou que muitas pessoas lidassem com a reviravolta abrupta quando a variante Delta alimentou uma nova onda, disse Wright, da Associação Americana de Psicologia.

As pessoas também se deparam com notícias constantes sobre o vírus, o que deixa o enfrentamento ainda mais difícil, disse Silver, da UC-Irvine.

"Mesmo que eu pessoalmente não tenha perdido um ente querido para a covid, vejo fotos e leio histórias sobre tragédias absolutas", disse Silver, especialista em trauma. "Então, é tanto a exposição direta quanto a exposição indireta a todos esses traumas em cascata que deixam tudo tão difícil."

O estresse desses traumas é cumulativo, concluiu Silver.

Quer seja a morte de um ente querido ou o cancelamento das férias, as perdas da pandemia têm mais probabilidade de permanecer na mente das pessoas do que as experiências positivas, disse Stevan Hobfoll, pesquisador e clínico com experiência em trauma. O cérebro humano busca recompensa pelas perdas, disse ele, então as pessoas ficam mais propensas a pensar no quanto sentem falta de viajar do que na melhoria dos números das infecções.

Além disso, há também a luta para manter a esperança, o que fica complicado diante da falta de um desfecho claro para a pandemia. No início da crise, muitas pessoas identificaram o que podiam controlar e criaram rotinas, disse Joshua Morganstein, presidente do Comitê sobre Dimensões Psiquiátricas dos Desastres da Associação Psiquiátrica Americana. Mas ele disse que a intencionalidade acabou ficando de lado e as pessoas ficaram mais angustiadas.

Na Flórida, as tensões sobre as políticas do distrito escolar vinham fervendo por meses antes de Jenkins falar publicamente sobre o assédio que ela disse ter enfrentado. Irritados com decisões sobre máscaras, estudantes transexuais e ensino sobre raça, alguns pais a ameaçaram, tossiram em seu rosto e enviaram reclamações falsas ao Departamento de Crianças e Famílias da Flórida, disse ela. (A agência não respondeu a uma mensagem solicitando confirmação sobre essas reclamações).

Em uma reunião do conselho em outubro, Jenkins disse que defendia o direito de protesto dos pais, mas não aceitaria ameaças de violência contra sua família.

"Não admito que sigam meu carro, não admito que digam que vão me pegar e que eu tenho de implorar por misericórdia", disse ela. "Não admito que, enquanto invocam a Primeira Emenda e seu direito à liberdade de expressão, venham me ameaçar na porta de casa, brandindo armas para meus vizinhos."

Aos olhos de Jenkins, as explosões são alimentadas pela vulnerabilidade geral que a pandemia trouxe e por um voluntarismo que algumas pessoas aprenderam a manipular, construindo comunidades em torno de uma resistência raivosa às políticas e às autoridades públicas. Ela disse que acha que a desconfiança geral na sociedade agrava a situação e que a falta de conexão faz com que simples conversas acabem em discussões e desavenças.

A última pandemia global provocou divisões semelhantes. Quando a gripe começou a devastar o mundo em 1918 e 1919, muitas empresas se recusaram a fazer cumprir a obrigatoriedade do uso de máscaras e cerca de 2 mil membros de uma "Liga Anti-Máscara" se reuniram em São Francisco para se opor aos decretos. A pandemia de coronavírus vem com o agravante de um ecossistema de mídia social hiperativo que sobrecarrega as pessoas com informações muitas vezes conflitantes.

"Quando as pessoas se veem diante de situações que parecem opressoras, elas ficam mais propensas a desistir, em certo sentido, e acabam se prendendo mais firmemente a uma única perspectiva, porque o trabalho necessário para lidar com todas essas informações diferentes é pesado demais", disse Morganstein.

O ódio da era do coronavírus também se consolidou em torno da suposição de as exigências de máscara e vacina violam a liberdade individual – uma questão que, segundo Morganstein, tende a exasperar as pessoas. Muitas explosões públicas vêm de pessoas que expressam veementemente que ninguém mais vai lhes dizer o que elas têm de fazer. O resultado é um ambiente onde a confiança nos outros fica severamente limitada.

Essa falta de coesão social prolonga a sensação de crise, disse Silver. Em um estudo com israelenses que sobreviveram a anos de bombardeios, ela descobriu que aqueles que se saíram bem o fizeram porque tinham um forte senso de comunidade. Nos Estados Unidos, sem esse senso de comunidade nacional, as pessoas dependem de suas tribos de pessoas com visões de mundo semelhantes, disse Silver.

Em junho, antes que as variantes Delta e Ômicron se espalhassem, os níveis de ansiedade e depressão nos Estados Unidos haviam diminuído em relação ao primeiro pico pandêmico, mas permaneceram mais altos do que em 2019, de acordo com um estudo publicado pelo CDC. E mais de 80% dos psicólogos disseram à Associação Americana de Psicologia que testemunharam um aumento na demanda por tratamento de ansiedade desde o início da pandemia, em comparação com 74% que disseram o mesmo no ano anterior.

Além disso, cerca de 2 em cada 3 americanos vacinados disseram estar “zangados com as pessoas que se recusam a se vacinar contra a covid-19 e, assim, colocam o resto da população em risco”, de acordo com uma pesquisa realizada neste outono pelo Instituto de Pesquisa de Religião Pública e pelo Interfaith Youth Core.

Para Jennifer Le Zotte, professora universitária na Carolina do Norte, o desafio desta pandemia incessante tem sido o sentimento de desconexão de suas comunidades pessoais. Ela se pergunta quando se sentirá confortável para voltar totalmente a suas atividades pré-pandêmicas e disse que está sempre recalculando os riscos para sua família à medida que surgem novos fatos sobre o surto de coronavírus.

Le Zotte disse que depois de manter seus filhos e pais idosos seguros por quase dois anos, ela se sentiria profundamente preocupada se baixasse as defesas agora e um deles contraísse o vírus. Mas estar sempre em guarda é emocionalmente extenuante.

"Parte de mim sente que preciso pôr um fim nisso", disse ela. "Mas", ela acredita, "nunca haverá um final muito preciso". / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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