Gil Inoue
Para lidar com a dor e a revolta da perda da irmã, Criolo novamente recorreu ao talento musica Gil Inoue

'A pandemia nunca vai acabar para quem perdeu um ente querido', diz Criolo sobre morte da irmã

Rapper paulistano lançou música para homenagear Cleane e outras famílias vítimas da pandemia

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00

É só falar sobre a irmã que os olhos do rapper Criolo já se enchem de lágrimas e ele mal consegue continuar a conversa. Há quatro meses, a professora da rede pública Cleane Gomes, de 39 anos, morreu vítima da covid-19 em São Paulo. "A pandemia nunca vai acabar para quem perdeu um ente querido", afirmou o artista ao Estadão

"Nunca vai acabar para aqueles que entendem as negligências oferecidas ao nosso povo, principalmente, às camadas mais frágeis do nosso País. Essas marcas ficam para sempre. Essas fraturas emocionais ficam para sempre", continua. Para lidar com a dor e a revolta, ele novamente recorreu ao talento musical. A canção Cleane foi lançada no fim de setembro, em parceria com o Tropkillaz. "Que a arte possa sempre nos visitar."

Nos versos, ele quer dar voz e afago a milhares de famílias que sofreram perdas na crise sanitária, especialmente as mais vulneráveis. "Quem é de favela, sempre isolamento. / Dos sonhos que tenho, distanciamento", dizem os versos. 

Criolo descreve Cleane como sensível, atenta, cheia de vontade viver, com gosto musical que ia de Milton Nascimento ao Racionais MC's. Também era fã das palavras: fazia a revisão dos textos da mãe, a poetisa Maria Vilani, e dava aulas de Literatura na rede estadual paulista. Mais exatamente no Grajaú, na periferia da capital.

 


"A gente dividia muito sobre como é a luta no extremo sul da zona sul de São Paulo, como é a luta de uma mãe solo, periférica, no extremo de uma periferia e os sonhos e desejos que se mantêm vivos", diz Criolo. 

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(Ela) sempre plantava essa sementinha que podemos repensar, de que modo podemos enxergar tudo que está ao nosso redor
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Criolo, rapper

Com problemas respiratórios, ela convivia com o receio de morrer em decorrência da covid. "Tinha muito medo desde o início. O que seria dela? O que seria do filho dela?", lembra o irmão famoso, sobre o sobrinho Vitinho, de 14 anos. 

Para a família e os alunos, ficaram as lições que ela ainda inspira. "Sempre plantava essa sementinha que podemos repensar, de que modo podemos enxergar tudo que está ao nosso redor", conta Criolo.

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Atingidos pela covid-19 lutam para que tragédia não seja esquecida

Quem perdeu um parente ou sofre com sequelas se mobiliza para ajudar outros; País vê queda de casos, mas especialistas alertam que efeitos da covid ainda vão se estender

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 08 de outubro de 2021 | 16h02

O Brasil atingiu nesta sexta-feira, 8, a marca de 600 mil mortos pela covid-19 – mais gente do que as populações de sete capitais do País, como Florianópolis e Vitória. Com o avanço da vacinação e a queda de infectados, cresce nos hospitais e nas ruas a sensação de que o pior foi superado. Especialistas, porém, destacam que a crise sanitária pode ter reviravoltas e seus efeitos são duradouros. Além do risco de novas variantes, o patamar de vítimas ainda é alto (perto de 500 por dia) e há demanda por doses de reforço e cuidado com as sequelas do vírus. Para quem sofreu na pele, a luta é para seguir em frente, mas fazer com que a tragédia não seja esquecida. 

O balanço mais recente, divulgado nesta tarde, contabiliza 600.077 vítimas, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Conforme balanço da Fiocruz, entre 12 e 25 de setembro o total de hospitalizados no País caiu 27,7% e o de óbitos, 42,6%. Em 25 Estados, a taxa de ocupação de leitos de UTI covid é inferior a 60% - exceto Distrito Federal e Espírito Santo. "Olhando os dados, consideramos que o pior da pandemia passou", diz o superintendente de Vigilância em Saúde do governo catarinense, Eduardo Macário. 

"Mas ainda não podemos largar medidas de prevenção. Seguimos com média elevada de casos novos e boa parte da população não está (completamente) imunizada", completa ele. Algumas cidades - como São Paulo e Rio - já preparam o relaxamento da exigência de máscaras, o que médicos consideram precoce.

 

 

Em relatório do Observatório da Covid-19, da Fiocruz, o fim da crise sanitária é previsto para os primeiros meses de 2022 - especialistas divergem sobre esse prazo. "O fim da pandemia não representará o fim da 'convivência' com a covid-19, que deverá se manter como doença endêmica e passível de surtos mais localizados", diz o texto. Nesse cenário, medidas como distanciamento e uso de máscaras devem continuar sendo importantes em ambientes fechados ou com aglomeração.  

Apesar da demora do governo federal na compra de vacinas e de o próprio presidente Jair Bolsonaro colocar em dúvida a eficácia dos produtos, a adesão aos imunizantes é alta. Diferentemente dos Estados Unidos, onde a hesitação vacinal resultou em uma nova escalada de óbitos, 69,8% dos brasileiros já tomaram ao menos uma dose, ante 64% entre os americanos. 

"A vacinação já está incutida no caráter cultural da sociedade, isso nem as fake news conseguiram destruir", avalia o médico José Cherem, da Universidade Federal de Lavras (UFLA). A busca pela 2ª dose, porém, acende um alerta: é preciso ter mais comunicação e incentivo para que as pessoas se desloquem até os postos de saúde. 

As falhas e o negacionismo da gestão Bolsonaro no combate à pandemia têm sido alvo de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado. São investigadas irregularidades na negociação de vacinas e a defesa de remédios sem eficácia contra o coronavírus, como a cloroquina, cujo uso não revelou bons resultados em testes científicos. 

Fora do Congresso, na sociedade civil também há busca por reparação e responsabilizações. "Meu luto foi luta desde o início", conta Paola Falceta, à frente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19. A entidade apoia parentes de mortos pelo coronavírus nos pedidos trabalhistas e previdenciários, além de pleitear indenização do poder público.  

"Havia condições de vacinar toda a população brasileira de janeiro a abril", diz o médico sanitarista e professor da USP Gonzalo Vecina. Para ele, as mortes que ocorreram a partir de abril eram evitáveis. Para os especialistas, a falta de coordenação nacional também será um obstáculo nos próximos capítulos da pandemia. 

"Se falar de 3ª dose, não há vacina suficiente. Não tenho visto o governo falar sobre comprar mais doses", acrescenta Vecina, ex-presidente da Anvisa e colunista do Estadão. A injeção de reforço tem sido recomendada para idosos, profissionais de saúde e imunossuprimidos. O grupo acima de 60 anos voltou a ser o predominante (79%) entre as vítimas da doença hoje. Isso ocorre porque a eficácia da vacina cai após alguns meses, sobretudo entre os mais velhos, daí a necessidade do complemento. 

Além do represamento de milhares de consultas, exames e cirurgias durante a quarentena, a pressão dos sequelados da covid será um desafio para gestores de saúde. "Uma parte da população, que foi infectada e não morreu, está com problemas musculares, respiratórios, renais, cardiológicos e neurológicos", alerta Vecina. "A covid longa dura seis meses ou mais, com necessidade de apoio fisioterápico, social e psicológico."

O número de afetados por esses sintomas no País é desconhecido. Eduardo Macário, de Santa Catarina, destaca que o protocolo pós-covid já é tema de discussões entre os conselhos de secretários e o Ministério da Saúde, mas cobra suporte da União. "Os recursos precisam vir do governo federal. Um plano nacional integral está em discussão e construção", defende. 

Na demora da gestão Bolsonaro em articular esse atendimento, organizações da sociedade civil também buscam sanar a lacuna. É o caso do Projeto Com.Vida, da dentista e atleta Raquel Trevisi, que já atendeu mais de 600 pessoas com sequelas. "Comecei a acolher todo mundo, acalmar a dor de todo mundo e, consequentemente, acalmei a minha também", diz ela, do interior paulista, que também sofreu com dores e esquecimentos após a infecção. 

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Comecei a acolher todo mundo, acalmar a dor de todo mundo e, consequentemente, acalmei a minha também
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Raquel Trevisi, do Projeto Com.Vida

 

Questionado, o Ministério da Saúde disse, em nota, que, "preocupado com as possíveis sequelas ocasionadas pela covid-19, lançou em 2020, o projeto REAB, para reabilitação dos pacientes com comprometimento de função motora, neurofuncional, cardiorrespiratória, entre outras". O projeto piloto tem como parceiro o Hospital Sírio Libanês e já foi implementado em cinco hospitais do Brasil, um em cada região. Neste ano, conforme a pasta, "a iniciativa é implementada em mais dez hospitais públicos".

Além disso, diz ter cerca de 270 Centros Especializados de Reabilitação, do SUS para tratar pacientes com covid longa, em todos os Estados e no Distrito Federal. Para capacitar profissionais de saúde sobre a reabilitação desses pacientes, o ministério lançou curso desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), disponível na plataforma UNASUS. 

Cherem destaca a necessidade de o poder público se debruçar sobre os efeitos socioeconômicos da pandemia, como insegurança alimentar, déficit educacional e desemprego. "Se não tivermos planejamento, teremos aumento da marginalização e da vulnerabilidade social", destaca.

Em Manaus, o projeto "Eu Amo Meu Próximo" busca amparar crianças e adolescentes que perderam os pais por causa da covid. A iniciativa, mensalmente, fornece cestas básicas, materiais de higiene e fraldas descartáveis para famílias responsáveis por cerca de 150 crianças e adolescentes. "Queremos minimizar a dor e o sofrimento dessas crianças que ficaram órfãs por conta da covid", explica Glauce Galúcio, responsável pelo projeto. 

 

Já o rapper Criolo lançou uma música para homenagear a irmã, morta pelo vírus aos 39 anos, e outras vítimas da covid-19 e chamar a atenção para o tamanho da tragédia. "A pandemia nunca vai acabar para quem perdeu um ente querido", resume o artista./COLABOROU MARIANA HALLAL

 

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'Meu luto sempre foi luta', diz assistente social que criou associação

Após perder a mãe para a covid, Paola Falceta junto a um amigo, fundou uma associação de sobreviventes e familiares de vítimas da doença

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00

Dez dias após perder a mãe para a covid-19, a assistente social Paola Falceta ligou para o amigo Gustavo Bernardes. Juntos, fundaram, em abril de 2021, a Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico Brasil), que oferece assistência psicológica, jurídica e social a sobreviventes da doença e parentes de quem morreu. "Meu luto foi luta desde o início", diz ela. Além de auxílio em reivindicações trabalhistas e previdenciárias, o grupo mira buscar na Justiça reparação pelo que vê como negligência do governo. 

Paola acompanhou de perto a morte da mãe, Italira, de 81 anos. Ela, a irmã e o sobrinho foram infectados, mas tiveram sintomas brandos. Já o caso da idosa se complicou. Isolada no hospital, a mãe sentiu o baque. "Ela surtou. Ligava chorando e dizendo que nós tínhamos a abandonado", conta a assistente social, de 46 anos, que também é pesquisadora.  

Paola reconhece o esforço da equipe médica, mas testemunhou as dificuldades de atendimento, diante da explosão de casos e da escassez de recursos na rede pública. Dez dias após a morte de Italira, em março, decidiu agir. "Sabia que muito mais gente ia morrer", relembra Paola, que responsabiliza o presidente Jair Bolsonaro e o governo federal pelo descontrole da pandemia. 

Assim, ela ligou para Bernardes, que também sofreu na UTI com um quadro grave do coronavírus em 2020. Em abril deste ano, nascia a Avico Brasil, com o objetivo de auxiliar as vítimas a conseguirem seus direitos. 

No início, a demanda era tanta que conseguiam dormir apenas de cinco a seis horas por noite. "Eu trabalhava chorando", diz Paola. Hoje, após quase seis meses, a entidade já conta com aproximadamente 1,4 mil voluntários. 

A Avico presta orientação jurídica para sobreviventes e famílias que perderam entes para a doença, em processos trabalhistas e previdenciários, além de grupos terapêuticos sobre o luto. Também, em junho, entraram na Procuradoria-Geral da República (PGR) com representação criminal contra Bolsonaro, na qual pedem para que seja oferecida denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF). 

No documento, os autores apontam, entre outras denúncias, que o presidente estimulou aglomerações, defendeu o tratamento precoce e sabotou a vacinação. Por isso, pedem que ele seja processado por crimes tipificados em cinco artigos do Código Penal. Desde junho, a representação segue em análise na PGR.

A instituição, agora, tenta reunir provas para responsabilizar a União pelas mortes pela covid, na busca de indenização para famílias de vítimas. A Avico, que nasceu regional, também está em processo de criação de núcleos estaduais. Paola conta que, pelo fato de os atendimentos serem online, é difícil auxiliar populações vulneráveis periféricas. "Eu queria poder fazer mais", desabafa Paola.

Procurada para comentar as críticas sobre falhas na gestão da pandemia e possível responsabilização jurídica, a Secretaria de Comunicação do governo federal não comentou até 19h.

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Após ter covid grave, atleta cria projeto com voluntários para apoiar quem tem sequelas

Raquel Trevisi, que também perdeu o pai para a doença, está à frente de iniciativa com cerca de 600 assistidos; ajuda é gratuita

Leon Ferrari, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00

   

Atleta de crossfit há quase sete anos. Duas vezes entre as nove mais bem condicionadas da competição nacional da modalidade. 38 anos. Sem comorbidades. Nenhuma dessas características impediu que a dentista Raquel Trevisi enfrentasse um quadro grave da covid-19, em setembro de 2020. Após a extubação e alta hospitalar, porém, a batalha só havia começado: a reabilitação foi dura - e continua até hoje. 

A percepção de que poucos têm as mesmas condições que ela para bancar o tratamento pós-coronavírus levou Raquel a criar o Projeto Com Vida. A intenção é proporcionar qualidade de vida aos sobreviventes da covid e também para suas famílias. Hoje, mais de 600 já foram assistidos pela iniciativa, que não pagam pela ajuda.

"Tenho propriedade para cuidar das pessoas porque passei por isso", diz Raquel.  Com ela, tudo ocorreu de forma muito rápida: com dois dias de sintomas já foi internada com 5% do pulmão comprometido. Após sete, o mesmo nível já era de 85%. Não havia outra saída se não a entubação.

"Senti uma movimentação esquisita dentro do quarto e perguntei se iam me entubar. O médico falou que sim… O chão se abriu. Pedi para o doutor que me prometesse que ia me trazer de volta, pois eu tenho dois filhos (de 15 e 9 anos) para criar", conta ela. Foram 30 dias no hospital, 20 deles na UTI e 16, entubada.

Diferentemente do que disse o presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento na TV em março de 2020, o histórico de atleta não fez com que Raquel tivesse só uma "gripezinha". Pelo contrário. Quando, de fato, acordou, não se reconhecia. "Eu estava com uma cor de pele diferente, não tinha musculatura nenhuma. A sensação era de que tinha voltado em outro corpo. Eu me reconheci por conta das tatuagens", relata.

Com 25 quilos a menos, infecções, trombose na perna e no braço, sem movimentos do pescoço para baixo. A alta hospitalar representou apenas o início de um longo período de reabilitação. "Vivi de forma temporária como uma tetraplégica. Tive de reaprender tudo", diz. 

A recuperação contou com uma equipe multidisciplinar de profissionais: médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e enfermeiros. Só no primeiro mês, em que dependeu de suplementações alimentares constantes, Raquel estima ter gasto entre R$15 mil e R$20 mil. Além disso, contou com o apoio de toda família: do marido, dos filhos e dos pais.

Durante todo processo, sentia-se agradecida por estar sendo tão bem assistida e poder, durante seis meses, ficar afastada do trabalho, a fim de se recuperar plenamente. Um questionamento, porém, era constante: "E o que fazem aqueles que não têm as mesmas condições que eu?".

"Não fazem" foi a resposta da enfermeira-chefe do hospital onde a dentista ficou internada em Presidente Prudente (SP). Aquilo inconformou Raquel, que, ainda sem caminhar, em novembro, deu os primeiros passos para a fundação do Projeto Com Vida, que, hoje, faz parte do Instituto Trevisi, uma ONG.

No início, Raquel "adotava" uma família e planejava o pós-covid do paciente, com base em sua própria experiência. "O que eu precisaria se fosse essa pessoa?" era a pergunta que a guiava. Por meio das redes sociais, encontrou voluntários para a iniciativa. 

Quando a atleta mergulhava nesse novo desafio, uma nova rasteira do vírus. O pai, Hugo Trevisi, referência internacional na área da ortodontia, foi internado por causa da covid-19. Em janeiro, aos 72 anos, ele não resistiu. "Meu pai era uma pessoa que você dizia: 'Esse vai viver até os 100 anos!'", lamenta a filha.

Por uma semana, Raquel não conseguia fazer nada além de sentir a dor. Com os pedidos de ajuda que chegavam por mensagens no celular, percebeu que era hora de voltar à ativa. "Comecei a acolher todo mundo, acalmar a dor de todo mundo e, consequentemente, acalmei a minha também", diz. Ao mesmo tempo, buscava honrar um desejo do pai. "Ele sempre falava: 'nunca esqueça de dizer que o pós-covid é tão grave quanto a doença'."

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Até hoje, já foram mais de 600 famílias acolhidas, por profissionais da fisioterapia, medicina, psicologia, fonoaudiologia e nutrição. Outra vertente importante da ação é o acolhimento, não só do doente como também da família. "Não podemos esquecer de cuidar da pessoa que cuida", explica a dentista. Os atendimentos feitos pelos mais de mil voluntários cadastrados, ocorrem, na maioria das vezes, de forma remota. 

Entre os acolhidos, está Márcia Parreira, de 48 anos. Quando teve covid, em outubro de 2020, chegou a ficar internada apenas por dois dias. No entanto, após uma semana em casa, passou a sentir forte dor no pé. A causa, descoberta em seguida, era uma trombose arterial. No caso dela, foi necessário amputar as duas pernas. 

Raquel, ao se deparar com essa história nas redes sociais, correu para ajudar. Junto da NV Sociedade Solidária, de Franca, o Projeto Com vida arrecadou verba para custear as próteses. Raquel acompanha de longe, por meio de aplicativos de troca de mensagem. "Ela acabou de me mandar uma foto de pé. Que alegria!", comemorou a dentista, enquanto conversava com o Estadão

"Depois de quase um ano, consegui ficar de pé e dar meus primeiros passos, felicidade transbordando", conta Márcia ao Estadão. "A Raquel, hoje, faz parte da minha família, mesmo não a conhecendo pessoalmente. Ela está no meu coração e ficará para sempre", continua. Pedidos de ajuda, doações e cadastro de voluntários podem ser feitos pelo site, pelo email contato@projetocomvida.com.br ou pelo telefone (18) 9-9669-3278. 

Ao mesmo tempo em que trabalha "de segunda a segunda" para que todos sejam atendidos, Raquel também trata suas próprias sequelas da covid. Após um ano da contaminação, os sintomas físicos persistem: dores, inchaços, esquecimentos e falta de sensibilidade em algumas partes do corpo. A iniciativa, segundo ela, agora se encontra em novo momento. "As UTIs sempre estiveram cheias. O projeto nasceu com a covid, mas já estamos abrindo as portas para outras famílias."

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'Queremos minimizar o sofrimento de crianças que ficaram órfãs', diz educadora que criou projeto

Glauce Galúcio acompanhou a morte por covid-19 de vários amigos que deixaram filhos órfãos. Por isso, criou o 'Eu Amo Meu Próximo' em Manaus com objetivo de prestar assistência aos mais jovens

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00

Com os hospitais em colapso, as imagens da pandemia em Manaus seguem vivas na mente de Glauce Galúcio. "Foi aterrorizante, não tinha mais cemitérios para colocar as pessoas." A professora universitária acompanhou a morte de vários amigos ainda jovens, com idade próxima à dela, que tem 40 anos. Viu, ao mesmo tempo, filhos de alguns deles ficando órfãos. Com o objetivo de amparar essas crianças e adolescentes, criou o projeto "Eu Amo Meu Próximo"

Entre as perdas, a morte de uma ex-colega do ensino médio foi a que mais marcou. "Me abalou muito, porque convivia com ela na época do colégio. Depois acompanhei o casamento e o nascimento dos filhos", conta Glauce, que relembra trabalhos de escola, dança e idas ao cinema. Neste caso, os órfãos foram três: o mais velho, de 18 anos, uma de seis e a caçula, de apenas três. 

"Eu me senti responsável. Se minha amiga não está aqui, eu preciso ajudar os filhos dela, acompanhá-los de alguma forma", diz.  Em setembro de 2020, foi Glauce quem se infectou com o mesmo vírus. "É uma doença que nos deixa afetados psicologicamente. Você pensa que vai morrer: está todo mundo morrendo, então você é o próximo", conta.  

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Queremos minimizar a dor e o sofrimento dessas crianças que ficaram órfãs por conta da covid
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Glauce Galúcio, idealizadora do projeto 'Eu Amo Meu Próximo', em Manaus

O quadro de Glauce, porém, foi de sintomas leves, com comprometimento do pulmão menor do que 25%. Após a recuperação, uma pergunta martelava na cabeça: "Por que eu sobrevivi?". Na visão dela, surgia um propósito.

Em janeiro deste ano, quando Manaus passava pela crise do oxigênio, nasceu o "Eu Amo Meu Próximo", projeto vinculado ao Instituto de Pesquisa e Ensino para o Desenvolvimento Sustentável (Ipeds), com auxílio de estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade Paulista (Unip).

"Percebemos que não havia nenhum tipo de assistência aos órfãos", conta a educadora. "Queremos minimizar a dor e o sofrimento dessas crianças que ficaram órfãs por conta da covid", explica. 

Assim, desde janeiro, a iniciativa proporciona ajuda mensal a crianças e adolescentes que perderam ao menos um dos provedores. Além das cestas básicas, materiais de higiene e fraldas descartáveis, há atendimento psicológico, prestado por profissionais voluntários. Hoje, o projeto atende aproximadamente 150 órfãos no Amazonas, principalmente na capital.

Entre elas, está a história de Ester Moraes, de 16 anos, é marcante para Glauce. Em pouco tempo, a menina de Manaus perdeu o pai e a avó para a doença, precisando ficar aos cuidados de uma tia. "Ela diz que se sente amparada pelo projeto", destaca a educadora.

Glauce aproveita também para ensinar aos assistidos que todos podem ajudar. Assim, as crianças e adolescentes ficam atentos a roupas que não cabem mais e brinquedos que não brincam. No dia da entrega mensal, a professora conta que "eles vêm, cheios de orgulho, com as sacolinhas e dizem: 'Olha, tia, isso aqui é para doar para outras crianças que ficaram órfãs também'".

Doações podem ser feitas pela chave PIX, CNPJ: 41.640.946/0001-08, ou, presencialmente, no Ipeds, na Avenida Djalma Batista, nº 4836, em Manaus.  Também é possível ter mais informações pelo (92) 9 9248-0221.

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