A 'pistola' dos musgos

Dentro de todo ser vivo, seja ele animal ou vegetal, reside um forte desejo imperialista. Seu objetivo é espalhar descendentes. O Homo sapiens deixou a África e ocupou o mundo; o milho, pelas mãos do Homo sapiens, conquistou os continentes a partir do México. Os dinossauros vagavam por todos os continentes antes de se extinguirem.

Fernando Reinach, Especial para O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2010 | 19h10

 

Essa ambição imperialista só é contida quando a espécie encontra ambientes em que não consegue prosperar, porque não está adaptada às condições ambientais ou porque se defronta com outros imperialistas com os quais não consegue competir. Cada metro quadrado de cada ecossistema é disputado palmo a palmo por uma fração da enorme diversidade de seres vivos que habita o planeta.

 

A diversidade de estratégias usadas para conquistar novos ecossistemas é enorme. Enquanto um ninho de formigas produz fêmeas aladas capazes de formar um novo formigueiro centenas de metros adiante, uma ave pode voar até uma nova ilha e tentar estabelecer uma colônia. Na Amazônia, o Homo sapiens exerce sua compulsão imperialista derrubando florestas e construindo novas cidades, que são rapidamente invadidas pelos mosquitos - e com eles vêm os parasitas que causam a malária.

 

Todos motivados pelo mesmo desejo imperialista, cada um usando as armas de que dispõe, tentando aumentar o território ocupado por seus descendentes.

 

O interessante é que espécies aparentemente dóceis utilizam armas poderosas. É o caso dos musgos. Um estudo recente demonstra quão sofisticado é seu método de espalhar esporos.

 

Ao contrário dos animais, que podem se locomover para conquistar novos territórios, grande parte das plantas passa a vida em um único local, o que determina as estratégias utilizadas. São as sementes com plumas carregadas pelo vento, frutas ingeridas por pássaros que carregam as sementes no seu intestino, flores coloridas e cheirosas que atraem abelhas que carregam o pólen para novos ambientes.

 

No caso dos musgos, a vida é mais difícil. Eles fazem parte de um grupo de plantas que não possui um sistema vascular sofisticado, carece de flores cheirosas e frutos saborosos. Pequenos, os musgos se limitam a cobrir a superfície, atingindo alguns centímetros de altura. Eles se reproduzem por meio de minúsculos esporos, praticamente invisíveis. Essa aparente fragilidade não impediu que os musgos se espalhassem pelo planeta, ocupando 1,5% de sua superfície, 1,5 milhão de quilômetros quadrados.

 

 

 

Os esporos dos musgos do gênero Sphagnum são produzidos em pequenas cápsulas esféricas, parecidas com uma bola de futebol. Cada cápsula, de 2 milímetros de diâmetro, forma-se no ápice de um pedúnculo de 1 a 2 centímetros de altura e carrega em seu interior 200 mil esporos. Os esporos ocupam somente a parte superior da cápsula, logo abaixo de uma tampa que cobre um pequeno orifício. A metade inferior da cápsula é preenchida por ar.

 

Como as paredes da cápsula são impermeáveis, o ar não escapa quando a luz do sol incide sobre a cápsula esférica. Em alguns minutos, a água evapora da parede da cápsula e ela diminui de volume, transformando-se em um cilindro estreito. O ar na parte inferior é comprimido com a diminuição do volume.

 

Mais alguns minutos e a tampa se abre. O ar comprimido ejeta os esporos.

Tudo isso era conhecido, mas o poder dessa “pistola de esporos” só foi elucidado agora, quando os cientistas puderam filmar o processo de explosão das cápsulas com uma câmara de vídeo capaz de registrar 10 mil fotos por segundo. Usando esses vídeos, foi possível calcular a força e a velocidade do processo.

 

 

O processo todo leva milésimos de segundo. A pressão na cápsula antes da explosão é de 400 kPa, quase o dobro da pressão de um pneu de carro. Quando a tampa se rompe, os esporos sofrem uma força 36 mil vezes maior que a da gravidade, quase 2 mil vezes maior que a maior força exercida sobre um astronauta quando um foguete decola ou uma nave espacial reentra na atmosfera.

 

Essa força enorme faz com que os esporos atinjam 120 km/h em menos de 0,1 milissegundo (um carro esporte leva quase 3 segundos, 30 mil vezes mais tempo, para atingir a mesma velocidade) o que resulta em uma aceleração máxima de 360 mil m/s². O resultado final é que os esporos são lançados a 20 centímetros de altura, o que permite que eles atinjam as correntes de vento que passam sobre os campos de musgo e sejam carregados para longe.

 

É com essa arma poderosa que os musgos levam adiante sua expansão imperialista.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: SPHAGNUM MOSS DISPERSES SPORES WITH VORTEX RINGS. SCIENCE, VOL. 329, PÁG. 406, 2010

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