Arquivo Pessoal/ Mariana Mazzelli
Arquivo Pessoal/ Mariana Mazzelli

'A rotina é puxada, mas lembro o que passaram para sobreviver', conta mãe de quíntuplos

Hoje com cinco meses, Jayme, Bella, Benício, Laís e Beatriz ficaram 120 dias na UTI Neonatal; domingo foi Dia Mundial da Prematuridade

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 11h26

SÃO PAULO - Entre 13h53 e 13h58 de 4 de junho deste ano, a advogada Mariana Mazzelli, de 35 anos, deu à luz a quíntuplos: Jayme - que recebeu o mesmo nome do pai  (1.060 kg) -, Bella (900 gramas), Benício (755 gramas), Laís (450 gramas) e Beatriz (430 gramas), na Maternidade Unimed Vitória, no Espírito Santo. Ela estava com 27 semanas de gravidez.

Como é comum em gestação de múltiplos, os bebês de Mariana nasceram prematuros - antes de completar a 38ª semana da gravidez. No mundo, cerca de 30 milhões de bebês nascem nessa condição todos os anos, segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgado em 2018. Neste domingo, 17, foi celebrado o Dia Mundial da Prematuridade, que tem o objetivo de chamar a atenção para ações que possam reduzir a incidência deste tipo de parto.

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Foi uma gravidez de risco e muito complexa. Algo muito raro. Procurei tranquilizar a família
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Márcio de Oliveira Almeida, obstetra

Mariana começou a ter dificuldade para respirar e infecção urinária quando estava na 24ª semana. "Com 26 semanas ela foi internada, e quando uma das crianças apresentou dificuldade fetal marcamos a cesária para o dia seguinte", explicou Márcio de Oliveira Almeida, obstetra e professor da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (Emescsm).

Segundo Almeida, diversos fatores podem influenciar para que um parto aconteça antes do tempo certo, "desde comprometimentos da saúde da mãe, até intercorrências durante a gestação. Obesidade, gestação múltipla e anomalias genéticas estão entre as causas mais comuns”, afirmou. 

Para coordenar a equipe do parto dos quíntuplos, o obstetra realizou uma espécie de ensaio, no centro cirúrgico, de como seria o momento do nascimento das crianças com 36 pessoas, com médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.

Segundo a OMS, as crianças prematuras são divididas em subcategorias com base na idade gestacional:

  • Prematuro extremo (menos de 28 semanas)
  • Muito prematuro (28 a 32 semanas)
  • Prematuro moderado a tardio (32 a 37 semanas)

"Foi meu primeiro parto de quíntuplos, o atendimento precisava estar bem alinhado. O parto ocorreu sem complicações para a mãe e os bebês. Em três dias, a mãe teve alta", contou Almeida. As crianças precisaram ficar na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (Utin) por 120 dias. "Mas foi um sucesso todos irem para casa", comemorou o médico.

Segundo Almeida, os cuidados devem começar ainda na sala de parto. “É o primeiro lugar onde prestamos assistência ao bebê, assegurando uma via aérea desobstruída e proteção neurológica ou cardiológica. Depois ele é levado para fazer uma avaliação mais detalhada e recebe os cuidados intensivos na UTI Neonatal. Possuir equipamentos modernos e uma equipe treinada e dedicada para este tipo de parto é fundamental”, disse o obstetra.

Para Mariana, com a alegria de ser mãe, veio também o desafio da prematuridade. "Durante o parto fiquei bastante tranquila. Quase não tive resguardo, já que após a cirurgia fui conhecê-los. Eu e meu marido estávamos muito felizes. Mas depois vieram os quatro meses de internação, procedimentos cirúrgicos, muita luta e fé, torcendo muito pela vida dos nossos filhos."

Em outubro, os bebês foram para casa. Agora, demandam muitos cuidados dessa fase e necessitam de suplementos e medicações. 

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A rotina é muito puxada, mas quando penso no cansaço lembro de tudo que passaram para sobreviver
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Mariana Mazzelli, mãe de quíntuplos

"Desde que viemos para casa, contamos com a ajuda das nossas mães. Temos duas cuidadoras, uma para o período do dia e outra para o período da noite, mas eu mesma atuo o tempo todo em conjunto. Até para ir ao pediatra, vamos em três: eu, meu marido e uma cuidadora", contou Mariana.

Hoje com cinco meses, as crianças estão evoluindo muito bem. "O Jayme está 4,8 quilos, a Bella, 3,7 quilos, Benício, que tem síndrome de Down, com 3,5 quilos, a Laís e a Beatriz, gêmeas da mesma placenta, estão com 3,4 quilos e 3,3 quilos, respectivamente." 

Mariana está casada há cinco anos e tem um enteado de 12 anos. Como ela tinha baixa reserva de óvulos, ela induziu a ovulação. "Engravidei no primeiro mês do tratamento", afirmou a advogada. Há casos de gêmeos nas famílias materna e paterna.

"O resultado (do exame) deu positivo em 21 de dezembro de 2018 e ficamos muito felizes. No segundo ultrassom, a médica iniciou o exame e fez um semblante de surpresa. Parou e nos perguntou se havíamos feito inseminação artificial. Dissemos que não, mas que tínhamos usado indutor de ovulação. Muito espantada, ela falou que estava ouvindo três corações batendo e logo depois identificou mais dois. Naquele momento vivi um turbilhão de emoções, comecei a chorar desesperadamente por sentir medo em não conseguir levar a gestação adiante. Meu marido, super nervoso, teve um ataque de riso", lembrou Mariana.

Estatísticas

Em 2017, cerca de 2,5 milhões de recém-nascidos morreram nos primeiros 28 dias de vida, a maioria por causas evitáveis. Cerca de 80% das crianças tinham baixo peso ao nascer e em torno de 65% eram prematuras.

Até 2030, quase 68% das mortes de recém-nascidos poderiam ser evitadas com a adoção de soluções simples, como a amamentação exclusiva e acesso a instalações de saúde limpas e bem equipadas, com profissionais qualificados, segundo a OMS.

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