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A soma entre você e o ambiente

Você já parou para pensar se existe uma explicação que desvende como dois irmãos, criados nas mesmas condições tenham desenvolvimentos diferentes?

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 05h00

Você já parou para pensar se existe uma explicação que desvende como dois irmãos, criados nas mesmas condições tenham desenvolvimentos diferentes? A pergunta é tão recorrente entre mães e pais, nem sempre biologicamente explicável, quanto em salas e laboratórios de universidade. Afinal de contas, existe um grau exato da influência do meio na construção do sujeito? O que define que você vai ser como você é?

Para a psicologia, o contexto social influencia na construção da subjetividade do sujeito. A Biomedicina, que atua tanto na prevenção e diagnóstico de enfermidades quanto no aprimoramento de tratamentos, tem diversas linhas de estudo que procuram entender como esse encontro com o ambiente influencia o neurodesenvolvimento do sujeito. Por ambiente entende-se alimentação, cuidados e estímulos na vida familiar, escolar e no meio que a cerca. Alguns estudos sobre o autismo sugerem uma manifestação de questões ligadas a essa área.

"A acepção presente do autismo está ligada à questão do neurodesenvolvimento. Não se conhece a origem: se é biológica, genética. Alguns pontos têm indícios mais presentes no autismo sindrômico, mas no grau de suporte 1, por exemplo, é mais difícil encontrar a evidência genética", explica Taiza Stumpp, pró-reitora da Unifesp, coordenadora do grupo de pesquisa em Epigenética Biopsicossocial e sua Herança, após uma conversa sobre a possibilidade de colher meu sangue para uma pesquisa da universidade. Sim, fica a sensação de ratinho de laboratório, e também a de fazer parte da busca por respostas para questões que a ciência ainda não conseguiu desvendar.

A epigenética é o encontro do mundo externo com o eu biológico, a busca da tradução da interação entre o gene com o ambiente. Se o neurodesenvolvimento é quase uma "janela eterna" dos primeiros dias de gestação até a velhice, a primeira infância e a adolescência são espaços mais sensíveis para esse crescimento. A ligação entre traumas e adversidades e o desenvolvimento de diferentes doenças é algo que vem sendo estudado há aproximadamente quinze anos. 

As coisas que acontecem na infância não ficam na infância, elas se prolongam em efeitos durante décadas na vida daquele indivíduo, é o que nos faz crer Thomas Boyce, pediatra e psiquiatra da Universidade da Califórnia, em seu TEDx The Orchid and The Dandelion, A Orquídea e o Dente-de-leão. Neste estudo, grupos de crianças foram colocados em situações de ligeiro stress, como conversar com desconhecidos, ter uma gota de limão pingada na língua, esticar elásticos e assistir a vídeos emotivos. Ao todo, 80% delas não apresentaram alterações e 20% foram tidas como "muito reativas", apresentado variação constante e aumento da pressão arterial durante as atividades, sinais de estresse. 

O grupo que apresentou pouca variação também teve aumento diminuto nas reações e doenças relacionadas ao estresse no mundo real. As crianças de reações mais fortes, quando criadas em condições pouco estruturadas e situações estressantes, tiveram alto desenvolvimento de doenças. A surpresa veio com as crianças desse mesmo grupo mais reativo: quando criadas em situações seguras de ambiente e família, apresentavam índices de doenças e estresse menores do que as crianças do grupo que tinha apresentado pouca reação no estudo inicial. Aquele grupo de crianças sensíveis tinha os melhores ou piores índices.

Essas crianças menos reativas foram chamadas de dente-de-leão, aquela flor que cresce no jardim, na fresta do asfalto, num buraco do cimento. As crianças mais sensíveis foram chamadas de orquídeas, que florescem com situações ideias de cuidado. Reconhecer, acolher e ajudar na expressão de quem é aquela criança, ou aquele adulto que convive com você, é uma das maneiras de ajudar no seu desenvolvimento, assim como permitir e abraçar a diferença, ao invés de ocultá-la, segundo Thomas Boyce. 

Uma sociedade mais inclusiva passa pela percepção e realização de que um jardim com apenas um tipo de flor é artificial e prejudicial ao desenvolvimento das espécies que o cercam, enquanto a variedade da natureza como ela é traz um sistema mais integrado e desenvolvido. Se somos fruto também do ambiente em que vivemos, em qual jardim você vai escolher passear? 

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