Steve Johnson/Unsplash.com
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A tal da motricidade fina

A sensação de “inadequação”, constantemente citada por autistas adultos em interações sociais, pode ser relacionada, em alguns aspectos, à questão da motricidade

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2022 | 05h00

Os boletins da pré-escola, chamados de maternal e infantil na minha infância, traziam as mesmas notas, independente da época, no item “coordenação motora”: “C”, o mínimo pra passar no quesito, já indicando que essa não era a minha maior qualidade. Assim, comentários jocosos durante as aulas de jazz, ginástica olímpica e balé devido às minhas mãos e braços irem para lugares diferentes da maioria eram uma constante. Adulta e pós diagnóstico, as nuvens do céu se abriram, como no início da série Os Simpsons, quando uma pessoa próxima, investigando o transtorno do filho, me falou pela primeira vez em “motricidade fina”. 

A expressão me jogou numa investigação sobre a capacidade motora. É dividida em “habilidade motora ampla”, relacionada ao controle do corpo como manutenção de postura e equilíbrio, e “habilidade motora fina”, responsável pela execução de movimentos refinados do controle de pequenos músculos, integrando coordenação de olhos e membros, ou o uso de duas mãos. A execução de atividades mais elaboradas demanda mais do nosso sistema nervoso central, fazendo com que esse o controle dos movimentos se torne mais complexo com os anos, ajustando e apurando o início, desenvolvimento, intensidade e término do movimento.

Parte do aprendizado motor, assim como aspectos do comportamento social e verbal, acontecem por fenômenos de cópia, refinados com atenção e concentração. E todas essas partes são comprometidos pela neuroatípia. Assim como as habilidades sociais, a motricidade também apresenta alterações nas pessoas, adultos e crianças, com autismo. Os déficits na área da habilidade motor variam também de acordo com o campo ocupado no espectro, e se traduz na persistência dos ativistas TEA pela troca do termo autismo leve, moderado e severo, pela visão de autismo com nível de suporte 1, 2 ou 3. 

Esse suporte pode ser traduzido como estímulo específico para o desenvolvimento dessa habilidade motora, principalmente em casos de nível 1. A simples “brincadeira” de rasgar papéis com às mãos pode ajudar na melhora da motricidade fina, desenvolvida essencialmente na interação da criança com o meio, os objetos e as outras pessoas, auxiliando sua compreensão de mundo, espaço e emoções. 

A sensação de “inadequação”, constantemente citada por autistas adultos em interações sociais, pode ser relacionada, em alguns aspectos, à questão da motricidade. Em verdade, há uma relação muito mais próxima entre o desenvolvimento motor e a socialização. Para um bom controle de movimentos é necessária uma “integração” entre percepção de espaço, sensibilidade, interação com o ambiente e com outras pessoas, para que haja efeito e compreensão de determinada ação como positiva ou negativa com os demais a sua volta. Imagine o resultado disso quando a percepção de seus impulsos, dos limites sociais, da demanda externa é difusa, como no caso do autismo. 

Soubesse eu disso antes dos 30 anos, imagino que uma série de questões e desejos estariam mais alinhados às reais possibilidades: esquece o jazz e se joga no kung fu, que pratico há treze anos e que, como a maioria das artes marciais, tem um efeito positivo em pessoas com TEA. Também, ao invés de odiar profundamente o inventor da garrafa de água de plástico mole, impossível de abrir sem derrubar o conteúdo, me molhar e a quem estiver ao redor, já teria feito o que faço agora: pedir pra qualquer um próximo abrir a garrafa pra mim. 

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