Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

A tripla vitória do 'homem de ferro'

Jovem vence três cânceres e se torna atleta de Ironman para superar seus limites

Gabriela Cupani - estadao.com.br

10 de junho de 2012 | 07h00

Há duas semanas, o engenheiro curitibano Paulo Henrique Velloso, de 30 anos, entrou para o seletíssimo grupo de atletas que conseguem completar o Ironman - competição que envolve 3,8 mil metros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e mais uma maratona, tudo na mesma prova.

 

Com um tempo de 11 horas e 25 minutos, ele ainda não se acha autor de uma grande façanha. Talvez porque, de certa forma, outra marca já havia feito dele um verdadeiro homem de ferro: faz sete anos que ele venceu o câncer pela terceira vez - e, com o fim do período de exames de acompanhamento, já pode ser considerado oficialmente curado da doença.

 

Para Paulo, nada se compara ao desafio que enfrentou quando "o raio caiu três vezes no mesmo lugar", como ele mesmo diz - o primeiro deles quando tinha apenas 17 anos. Era 1998 e ele assistia à derrota do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo da França quando sentiu dores terríveis no testículo. No hospital, logo foi diagnosticado com um seminoma, tipo de tumor que ataca as células germinativas. "Foi bem assustador, eu estava na fase de festas, estudando para o vestibular."

 

Naquele verão, Paulo trocou a praia da cidade onde mora, Florianópolis (SC), por sessões de radioterapia, tratamento que afeta as células reprodutoras. "O pior foi ter ficado estéril. Como já esperávamos por isso, meus filhos foram ‘guardados’ em um banco de sêmen em Porto Alegre", conta o atleta.

 

Caroços no pescoço. Três anos depois, já cursando Engenharia Civil, quando todos os exames apontavam que ele estava livre do tumor, notou um caroço no pescoço. A princípio achou que fosse apenas uma reação alérgica a mariscos. Mas seu médico insistiu em fazer uma biópsia - e o resultado foi um linfoma não Hodgkin. Dessa vez, Paulo encarou oito sessões de quimioterapia. "Estava numa sala com gente mais jovem e com quadros mais delicados. Percebi que não tinha o direito de ficar triste ou pessimista", lembra.

 

Uma história parecida se repetiu três anos depois, quando surgiu outro caroço no pescoço. "Logo desconfiei", diz. "Mas esse foi o maior baque". Para sua surpresa, não era uma recidiva do mesmo tumor - era outra doença, desta vez um linfoma de Hodgkin.

 

O fato de ser um tipo diferente de tumor foi uma boa e uma má notícia. "Era um alívio saber que eu havia vencido a batalha anterior. Por outro lado, era assustador saber que outra doença apareceu. Quando isso ia acabar?" O médico comentou que não era comum, que nunca tinha visto algo assim e ia levar o caso para discutir com alguns colegas.

 

Olhares de pena. "Quando você recebe um diagnóstico desses, o importante é fazer planos", acredita. "Por isso, perguntei ao médico só três coisas: se tinha cura, qual era o tratamento e quanto tempo levaria." E aí Paulo encarou as sessões de químio e de radio como uma contagem regressiva. "Sempre tive a certeza da cura", afirma.

Por incrível que pareça, enfrentar o tratamento era mais fácil do que lidar com a reação das pessoas.

 

"Elas tentam se mostrar fortes, para nos encorajar, e acabam mostrando uma fragilidade, que por sua vez nos desperta dúvidas: ‘Será que é verdade que você tem 99% de chances de cura?’. Eu nunca tive vergonha de ter a doença, mas não me faziam bem aqueles olhares de pena das pessoas."

 

Logo que o tratamento acabou, com o sinal verde para praticar esportes, Paulo começou a correr na praia. Antes de ficar doente, ele jogava futebol e às vezes andava de mountain bike. "Corria para me sentir vivo. Era meu momento de conversar comigo mesmo, de meditação." Naquela época, ele achava incrível quem conseguia correr cinco, dez quilômetros. Foi também após a alta que conheceu Thaís, com quem se casou há três anos e com quem pretende ter os filhos que estão ‘guardados’ na clínica gaúcha.

 

Aos poucos, quase sem querer, foi aumentando as distâncias. Depois, começou a nadar e a pedalar também, às vezes percorrendo até 40 quilômetros no domingo. A essas alturas, e depois de ganhar algumas lesões, sentiu a necessidade de um acompanhamento profissional.

 

Ironman. Há dois anos, assistiu a uma prova de Ironman e resolveu que queria participar. Com a ajuda da treinadora, seguiu uma planilha à risca. Contou também com a orientação de um nutricionista. Nos últimos seis meses, intensificou os treinos, praticando duas modalidades por dia, somando até quatro horas diárias de exercícios - de manhã, de noite, com sol, com frio, com chuva.

 

"O Ironman é só a cereja do bolo, é uma superação no dia a dia." E, de certa maneira, foi justamente o câncer que lhe deu combustível para chegar lá.

 

"Hoje dou mais valor ao tempo, gosto de acordar cedo. A doença também me deixou mais forte e me deu preparo mental, já que você tem que saber que vai sofrer muito durante a prova." E também depois, já que os dias seguintes costumam ser bem doloridos por conta do esforço.

 

A paciência está entre as maiores lições que a doença lhe deixou. "Tem coisas que a gente não tem como apressar." Durante a prova, exatamente como nas sessões de químio, ficava fazendo uma contagem regressiva dos quilômetros. "E pensava na minha mãe e na minha mulher me esperando na linha de chegada. Tinha certeza que ia chorar, mas só consegui sorrir."

 

Mesmo com toda a distância percorrida até aqui, ele ainda considera seu tempo de prova modesto para ser um verdadeiro ‘ironman’. Hoje ele acha incrível quem consegue terminar a prova em oito ou nove horas. E já começou a contagem regressiva para a próxima edição, no ano que vem. O câncer? "Só me deixou coisas boas, mas nem penso mais nele." Ficou para trás.

 

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