A troca do consultório pelo laboratório
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A troca do consultório pelo laboratório

Assim como o pai, José Eduardo Krieger dedica a vida ao avanço da ciência médica

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 07h30

Pesquisador na área de genética cardiovascular há mais de 30 anos, o médico José Eduardo Krieger, de 61 anos, nasceu e cresceu literalmente dentro de uma faculdade. Filho do médico e fisiologista Eduardo Moacyr Krieger, um dos principais cientistas brasileiros na área de hipertensão arterial, Krieger foi criado no câmpus da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, onde seu pai era docente e o responsável por um importante grupo de pesquisa no País.

A convivência intensa com pessoas do meio acadêmico do Brasil e do exterior foi fundamental para que José Eduardo escolhesse cursar Medicina e seguisse o exemplo do pai, dedicando sua vida à pesquisa. Hoje, José Eduardo é diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (Incor - HCFMUSP) e professor titular de Genética e Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da USP.

1. O senhor é filho do doutor Eduardo Moacyr Krieger, um dos pioneiros na pesquisa científica no Brasil. Seu pai foi a sua inspiração para escolher a Medicina e seguir na carreira acadêmica/científica?

Certamente meu pai me inspirou, mas a minha história é um pouco mais complexa. Eu tive a felicidade de ser criado num ambiente acadêmico. Nós morávamos no câmpus da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Quando eu nasci, o meu pai já era docente e morava no câmpus. Essa era uma ideia que fazia parte da filosofia da criação daquela faculdade, onde todos os docentes eram de tempo integral, seguindo os modelos da Johns Hopkins [nos Estados Unidos], que foi uma das escolas pioneiras nesse sentido e acabou inspirando vários modelos pelo mundo. Fiz faculdade de Medicina lá em Ribeirão mesmo e morei no câmpus até o quinto ano da faculdade, quando nos mudamos para a cidade. Evidentemente eu tinha influência do meu pai em casa, mas a maior influência para a escolha da minha carreira foi do meio como um todo.

2. Como foi a evolução da sua carreira na área da pesquisa?

Desde que eu entrei na faculdade eu gostava muito da área clínica e de lidar com os pacientes. Mas eu fiz uma opção, logo depois do sexto ano, de ir para os Estados Unidos fazer o treinamento em pesquisa. Eu já tinha feito pesquisa de iniciação científica na faculdade e eu queria fazer um investimento sério nessa área. Como eu trabalhava na mesma área que o meu pai e ele já era uma grande influência, eu precisava testar se eu gostava mesmo de pesquisa. Então, de comum acordo, mesmo antes da residência médica, eu fui direto para os Estados Unidos fazer o doutorado. Passei quatro anos em Wisconsin; depois fiz o pós-doutorado aplicando técnicas de biologia molecular em doenças cardiovasculares. Saí de Wisconsin, fui para Boston, fui para Harvard, onde fiquei praticamente um ano e meio. Depois fui para Stanford, onde fiquei mais dois anos. Foram quase oito anos dedicados exclusivamente à pesquisa e isso comprometeu muito a minha formação médica.

3. É possível dizer que o senhor abriu mão da carreira médica para se dedicar à pesquisa?

Em não abri mão porque na realidade eu queria fazer as duas coisas. Mas o meu retorno para o Brasil foi único. De alguma maneira, mesmo não trabalhando diretamente com pacientes, eu estaria indiretamente trabalhando com vários problemas do paciente. Evidentemente, uma coisa que me dava muito prazer, que era tratar um paciente, eu infelizmente senti falta. Mas não é possível fazer de tudo. Então, nesse aspecto, sim, eu realmente acabei abrindo mão.

4. Qual é a sua área de atuação hoje?

Minha casa sempre foi aqui dentro do Incor [Instituto do Coração]. A forma como eu desenvolvo a minha pesquisa aqui é para entender determinantes genéticos que afetam doenças cardiovasculares, e isso é uma coisa muito ampla. Eu trabalho com genética de populações; com grupo de pacientes; com modelos experimentais (ratos e camundongos); com modelos mais próximos do homem, como o porco; com modelos mais simples que os roedores, como o peixe paulistinha; trabalho com modelos de células que são reprogramadas para mimetizar uma célula embrionária e dar origem a células do tecido cardiovascular; trabalho com DNA....

5. Em que fase se encontram essas pesquisas e o que temos de mais promissor nessa área de genética cardiovascular hoje?

Tem várias coisas, em diferentes níveis. Um exemplo mais recente é tentar entender por que em cerca de 50% dos casos das pessoas que fazem a revascularização do miocárdio a cirurgia perde a garantia após dez anos. O que faz em uma pessoa o enxerto continuar funcionando e em outra não? Estou falando particularmente do enxerto venoso, que é a safena. Começamos a estudar isso.

Será que essa mudança brusca tem efeitos no paciente e, dependendo da sua variabilidade genética, pode causar algum problema? Será que tem algum gene que pode estar alterado? Começamos a estudar milhares de genes e pegamos um gene: o CRP3. Percebemos que o endotélio da veia não expressava esse gene e o endotélio da artéria expressava. E quando eu pegava um endotélio de veia e submetia às condições de artéria, esse gene ativava. Opa! Algo estava acontecendo e precisávamos entender os efeitos disso. Então nós produzimos um rato transgênico. Isso não é coisa de um dia, de dois dias. Naquela época isso nem se fazia no Brasil. Tivemos que mandar para os Estados Unidos e isso demorou uns dois anos. Aí começamos a estudar o rato e passamos a buscar entender o papel desse gene na arterialização de uma veia. Fizemos uma cirurgia no ratinho e tudo que a gente imaginava que ocorreria aconteceu o contrário.

Essa é a beleza da pesquisa. A gente parte de uma hipótese, de uma ideia, e chega a respostas totalmente diversas. Começamos a ver mecanismos celulares que esse gene está envolvido que eu não sonharia jamais. E um deles é para sensibilizar a morte celular. Quando você tem um efeito nocivo no corpo, o corpo precisa avisar a célula que ela tem que morrer. E o que nós vimos é que, quando esse gene não estava presente ou estava defeituoso, isso não acontecia. Então, uma célula que tinha que morrer se acumulava. E isso se traduzia como um espessamento a mais dessa veia. No começo, a nossa hipótese era de que a veia estava espessando por haver proliferação de células. Mas aprendemos que, na realidade, morriam menos células. Morrendo menos, acumulava mais.

6. A ideia é melhorar a ‘validade’ das cirurgias de revascularização do coração?

Isso mesmo. Em média, 50% dos casos das pessoas que fazem a revascularização do miocárdio, depois de dez anos, os enxertos fecham. E nós queremos entender por que isso acontece. E, eventualmente, identificar e desenvolver novos alvos terapêuticos para melhorar a garantia do enxerto. É óbvio que o paciente não depende só da cirurgia, ele toma medicamentos, mas quanto mais as coisas funcionarem, melhor. Eventualmente vamos chegar em novos alvos e descobrir novas formas de atuar, seja por uma nova droga ou até mesmo modificações genéticas. Não chegamos ainda nesse ponto, mas esse é o objetivo final. A ideia é descobrir formas de prevenir e evitar que isso venha a acontecer. É isso que faz a minha vida nesses trinta e poucos anos. E, além de tudo, sou pago para fazer o que gosto.

7. Quantos funcionários tem o seu laboratório?

Meu laboratório tem 1.200 metros quadrados, ocupa o décimo andar inteiro do Incor. Temos aqui vários grupos e vários pesquisadores. Somos sete pesquisadores independentes, vários técnicos de nível superior e isso é um diferencial muito grande. Combino as vantagens de estar na universidade e no hospital. Cerca de 25 pessoas do Estado (limpeza, secretárias), e temos uns 75 alunos de diversos estágios, desde iniciação científica, pós-graduação, mestrado, doutorado e até pós-doutores. Somos um grupo de umas 100 pessoas que vai avançando nas pesquisas.

8. Qual é o maior desafio da pesquisa hoje no Brasil?

Alguns dos desafios são universais. Primeiro você precisaria ter pessoas altamente selecionadas chegando às universidades de pesquisa. Como se faz isso? Treinando todo mundo. Nós sempre seremos um país de segunda classe enquanto não resolvermos o problema do acesso de oportunidades para educação. Um dos maiores entraves para a pesquisa no Brasil é ter gente boa. Somos campeões em perder talentos. As pessoas não estão nem sendo descobertas. A segunda coisa é que precisamos investir em pesquisa. A gente investe muito pouco, não tem milagre. Enquanto isso não for prioridade, não teremos pesquisa. Os dois elementos principais são esses. É um problema estrutural, mas temos capacidade de mudar isso. Sem um país organizado, não teremos pesquisa organizada.

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